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Leonardo Sakamoto


PIB (Política Inepta de Bolsonaro): Crescimento pífio e desemprego alto

Presidente da República Jair Bolsonaro.  -  Foto: Isac Nóbrega/PR
Presidente da República Jair Bolsonaro. Imagem: Foto: Isac Nóbrega/PR
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

04/03/2020 12h52

O Produto Interno Bruto sob Jair Bolsonaro cresceu 1,1%, em 2019 - menos que o 1,3% registrado, tanto em 2018, quanto em 2019, quando o Brasil estava sob a aba de Michel Temer. Não apenas é um "pibinho", como também a prova de uma propaganda enganosa.

Tanto o governo quanto analistas de mercado juravam de pés juntos que após a aprovação do combo-catástrofe - Emenda do Teto dos Gastos, Reforma Trabalhista e Reforma da Previdência - não só a economia como os empregos com carteira assinada dariam saltos ornamentais.

Ou seja, prometeram aos trabalhadores e ao naco pobre da população que, ao limitar recursos para serviços públicos e retirar proteções à saúde e segurança de empregados, entregariam, em troca, postos de trabalho com qualidade.

A realidade, contudo, é que a geração de vagas formais segue modorrenta. O desemprego cai, mas não na velocidade que o país precisa. Ainda temos 11,9 milhões de pessoas desocupadas, representando 11,2% da população no trimestre encerrado em janeiro deste ano, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua do IBGE.

A taxa de informalidade é de 40,7% e os que gostariam de trabalhar mais, porém não encontram serviço, é de 26,4 milhões (23,2% do total). E um dos dados mais complicados: os que desistiram de procurar emprego porque simplesmente acreditam que não vão encontrar é de 4,7 milhões. Brasília segue tendo fé que, apertando os cintos, o setor privado vai colocar dinheiro grosso na retomada. Esperando Godot, mas Godot nunca vem.

Um indicador novo que o IBGE poderia divulgar, a cada trimestre, seria um número composto com quanto de riqueza deixou de ser gerada no Brasil devido às declarações bizarras e abjetas do presidente da República, de sua prole ou séquito, quanto sua incapacidade técnica e política contribuiu para frear a retomada econômica e o quanto seu comportamento ideológico impactou na baixa velocidade da geração de postos formais de trabalho.

Enquanto isso, uma fila de espera com milhões de pessoas aguardam os caraminguás do Bolsa Família. Para a subprocuradora-geral da República, Deborah Duprat, que está à frente da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) do Ministério Público Federal, isso é "consequência de um Estado que está precarizando direitos, furtando-se de suas obrigações constitucionais de garantir qualidade de vida a quem mais precisa". Não é apenas que a miséria cresceu porque o benefício escasseou, mas a falta de serviços públicos e de emprego levou à miséria que, por sua vez, aumenta a busca pelo benefício.

Isso sem falar na espera, com meses de comprimento, para ter o pedido de aposentadoria atendido. A mesma aposentadoria que se tornaria um sistema maravilhoso após a Reforma da Previdência.

O pequeno crescimento é comemorado por uma parcela da sociedade que acredita que o país está deixando o buraco. Mas milhões de famílias que não vivem de renda, não possuem bens de capital e dependem do trabalho de hoje para comer amanhã não vão desperdiçar confete enquanto a taxa de desemprego continuar em dois dígitos - o que só deve mudar lá para 2022 se Bolsonaro ficar de boca fechada.

Não adianta explicar, portanto, a quem está desesperado e tem a pressa da sobrevivência, que as coisas vão demorar para se resolver. Ainda mais quando a sociedade percebe que os mais ricos, que pouco sentiram o impacto da crise econômica, comemoram o sol no horizonte enquanto os mais pobres seguem na penumbra.

A crise não nasceu com Temer, nem com Bolsonaro e o governo Dilma tem uma enorme parcela de responsabilidade. A questão aqui é outra: como momentos de crise são superados.

Como repito insistentemente neste espaço, a população mais vulnerável deveria ser a protegida pelo governo e o custo da retomada teria que ter pesado mais sobre os ombros dos mais ricos. Mas foi tudo ao contrário, num grande Robin Hood às avessas. Nem dividendos recebidos por acionistas de grandes empresas foram taxados. No mais próximo que chegamos disso, com a equipe do então ministro da Fazenda Henrique Meirelles, a elite esperneou e tudo ficou como estava.

Fazer a economia crescer novamente é fundamental para garantir que o país seja viável. Porém, muitos não se importam em sacrificar a qualidade de vida dos mais vulneráveis para que isso aconteça. Paradoxalmente acreditam no contrário: cortando o patamar mínimo de dignidade dos trabalhadores, patamar que impede a barbárie, é que surgirá a redentora civilização.

Os economistas da ditadura falavam que a população tinha que entender que o crescimento do país, em algum momento, beneficiaria a todos. Mas a concentração de riqueza continua pornográfica aqui no país do pibinho tropical. Quando o bolo cresce, não é dividido. Pelo contrário, torna-se hereditário.

Bolsonaro, na manhã desta quarta (4), usou um humorista vestido de presidente da República e distribuindo bananas aos repórteres para não responder a perguntas sobre o crescimento pífio do PIB. Mandou falar com o "Posto Ipiranga", ou seja, Paulo Guedes, ministro da Economia e crítico de empregadas domésticas na Disney.

"PIB? O que é PIB?", perguntou de volta aos repórteres.

Significa "Política Inepta de Bolsonaro", composta de baixo crescimento, desemprego ainda alto e falta de apreço pela democracia. Tratar um assunto grave desse jeito, mesmo que para desviar a atenção do seu próprio fracasso, é brincar com o sofrimento de quem nele confiou para melhorar as finanças do país.

O presidente não precisava ter usado um comediante para tratar com os jornalistas. Já existe ele que, diariamente, faz esse serviço.

Leonardo Sakamoto