PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Leonardo Sakamoto


Após 22 de comitiva com coronavírus, Bolsonaro precisa mostrar seus exames

Máscara cobre os olhos de Bolsonaro em coletiva sobre coronavírus - Reprodução
Máscara cobre os olhos de Bolsonaro em coletiva sobre coronavírus Imagem: Reprodução
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

20/03/2020 11h02

Desde que voltou dos Estados Unidos carregando um novo membro - o coronavírus - em sua comitiva, o presidente Jair Bolsonaro fez dois testes que teriam dado negativo. Nunca mostrou, contudo, o resultado, como era de se esperar de um chefe de Estado em uma democracia. Agora, chegam a 22 os brasileiros que estavam com ele na viagem que estão com Covid-19.

É uma questão, portanto, de confiar nas palavras de um mandatário que chama o coronavírus de "fantasia". O mesmo que afirma que o ator Leonardo DiCaprio financia incêndios na Amazônia.

A infecção chegaria aqui de uma forma ou de outra - inclusive, essa é a crítica que tem sido feita à área econômica do governo, que demorou para soltar um plano de contingência mesmo sabendo que viria a nossa vez. Mas pelo número de infectados nessa viagem do presidente, involuntariamente, ela foi vetor de distribuição do vírus no Brasil.

Por enquanto, são 22 os membros dessa comitiva que foram infectados com o coronavírus:

- Fabio Wajngarten, secretário de Comunicação Social
- Nelsinho Trad, senador pelo PSD-MS
- Karina Kufa, advogada do presidente
- Nestor Forster, encarregado de negócios da embaixada em Washington DC
- Sérgio Lima, publicitáro
- Samy Liberman, secretarário-adjunto da Secom
- Alan Coelho de Séllos, chefe do cerimonial do Itamaraty
- Marcos Troyjo, secretário de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais
- Robson Andrade, presidente da CNI
- Flávio Roscoe, presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais
- Daniel Freitas, deputado federal pelo PSL-SC
- Augusto Heleno, general e ministro do Gabinete de Segurança Institucional
- Bento Albuquerque, ministro de Minas e Energia
- Sergio Segovia, presidente da Apex
- Filipe Martins, assessor-chefe adjunto da Presidência
- Major Cid, ajudante de ordens
- Carlos França, chefe do cerimonial da Presidência
- Coronel Gustavo Suarez, diretor-adjunto do Departamento de Segurança
- Quatro integrantes que não tiveram nomes listados, entre eles membros do GSI

O prefeito de Miami também estava em evento com Bolsonaro nos Estados Unidos, e está com Covid-19.

Desejo pronta recuperação a todos, mas também que o presidente seja transparente.

Transparência não é concessão que governantes fazem a cidadãos, mas uma obrigação. A condição de saúde de um presidente da República não é uma questão de foro íntimo, mas de interesse público, pois situações que os incapacitam permanentemente ou momentaneamente causam impactos na vida das pessoas.

Nesta (20), Bolsonaro disse que talvez já tenha sido infectado e se curado. Seria mais fácil que mostrasse os exames ou autorizasse seus médicos a falarem com a imprensa, como é o comportamento republicano de praxe. Isso aconteceu com seus antecessores e ocorre com políticos, como o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, que está em tratamento contra câncer. Infelizmente, Bolsonaro tem o hábito de ir a hospitais sem colocar na agenda e sem explica direito o que foi fazer lá depois, como aconteceu em 30 de janeiro.

No último domingo, ignorando as recomendações médicas para se manter em isolamento de sete dias por ter feito uma viagem internacional e de evitar aglomerações, Jair Bolsonaro foi confraternizar com uma multidão de fãs em frente ao Palácio do Planalto.

A simbologia era forte: o presidente da República, rasgando as regras estabelecidas por seu próprio ministro da Saúde, em frente à sede do governo brasileiro, para apertar as mãos de pessoas que pediam o fechamento do Congresso e um novo AI-5 (ato que possibilitou baixar censura e cassar liberdades) e, depois, questionado por isso, disse que o problema era só dele e que ninguém tinha nada a ver com isso.

Tinha sim, ele podia ser vetor de transmissão. Afirmou que não havia problema, porque se sentia bem, reforçando o mau exemplo: mesmo sem sintomas, as pessoas transmitem o vírus. Um contaminado, dessa forma, pode colocar a vida das pessoas em risco.

Sob panelaços por conta de seu comportamento egoísta durante a crise, Bolsonaro tentou armar um show, colocando um grupo de ministros para mostrar que seu governo está fazendo algo na quarta. Parte dos seus auxiliares sim, está. Mas ele, não. Chegou a ser patética a tentativa coletiva de mostrar que Bolsonaro é o grande "timoneiro" desse processo, quando eles mesmos sabem que tem sido apenas o entrave.

A falta de transparência de Bolsonaro acaba dando margem a múltiplas especulações.

Ele pode ser alguém bem sortudo, o que considerando sua trajetória não seria a primeira vez. Mas é pitoresco que profissionais do convívio próximo do presidente, como um ajudante de ordens e o chefe do cerimonial, tenham pego.

Uma hipótese é que, a despeito do comportamento e risco e do ambiente contaminado, Jair seja imune.

Nesse caso, valeria a pena cientistas coletarem amostras do presidente. Pois, em suas veias, pode correr o segredo da cura.

Leonardo Sakamoto