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Bolsonaro provoca mais incêndios do que médicos e enfermeiros podem apagar

                        - EVARISTO SA/AFP
Imagem: EVARISTO SA/AFP
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

20/05/2020 22h19

A água vai chegando ao pescoço de Jair Bolsonaro, fazendo com que adapte sua narrativa sobre a covid-19. Um dia após o país ultrapassar a barreira psicológica das mil mortes registradas em um só dia (1.179 para ser mais exato), o Brasil anotou 19.951 novos casos nesta quarta (20). Se temos mais 20 mil pessoas com diagnóstico positivo oficialmente, imagine qual o número real de novos infectados em 24 horas? Podemos ter 40 mil ou 200 mil casos diários, a depender do nível da subnotificação. Em breve, isso se traduzirá em mortes. E não haverá cloroquina que resolva.

Vagarosamente, os hospitais vão saturando e pessoas morrendo nas filas de espera antes de chegar sua vez de ocupar um leito de UTI. Ou nem isso. Como me contaram socorristas do Samu de São Paulo, há doentes com covid-19 que não vão para o hospital procurar ajuda com medo de contrair covid-19. Morrem em casa sem saber o porquê.

Em um grupo de WhatsApp de bolsonaristas, no qual era comum a negativa da letalidade do coronavírus e as piadas sobre o descumprimento de medidas de isolamento social, chegaram notícias de seguidores do presidente que adoeceram e morreram em poucos dias com suspeita da doença. É um professor universitário aqui, um deputado estadual ali. O antigo despeito dá lugar à preocupação quando a "gripezinha" bate à porta do vizinho.

Nesse contexto, buscam resolver as coisas com o remédio milagroso do presidente. Um coquetel, na verdade - hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina. Alguns tomam por antecipação, outros dão aos filhos pequenos como se fossem pastilhas de menta. Para eles, efeito colateral é a fake news da vez.

Mas de tanto bombardeio de médicos e cientistas dizendo que não há provas de que a cloroquina é eficaz, Bolsonaro passou a ressaltar a dúvida em seus discursos. Talvez para se proteger de charlatanismo, talvez para preparar-se para quando seus fãs começarem a morrer após o remédio se mostrar inútil.

Nesta quarta (20), afirmou que "não existe comprovação científica" de que o uso da cloroquina é eficaz no tratamento da covid-19. Na semana passada, já havia dito que o uso do medicamento contra o coronavírus "pode dar certo e pode não dar certo".

Desta vez, coroou sua defesa do uso do produto afirmando que "estamos em guerra: pior do que ser derrotado é a vergonha de não ter lutado". Quer, com isso, que a população acredite que a única saída viável que temos no momento é tomar um remédio que pode não dar em nada ou pode matar o paciente. Admira que não tenha sugerido banhos matinais de creolina.

Prefere isso a reconhecer que a única saída possível, na verdade, são as tais medidas de isolamento social. Pois isso significaria não apenas que agiu de forma criminosa até aqui, atacando as quarentenas, mas também obrigaria que começasse a trabalhar como presidente, articulando e coordenando esforços nacionais. E isso ele nem sabe, nem quer, nem gosta de fazer.

Quem está combatendo uma guerra contra a covid-19 são médicos, enfermeiros, técnicos, socorristas que, diariamente, vão para o front, colocando em risco sua própria vida em nome de desconhecidos devido à pandemia.

Bolsonaro, não. O que ele faz é fomentar uma guerra contra a saúde da população, tentando derrubar as quarentenas e empurrando os brasileiros de volta ao trabalho e às ruas, antes da hora, escorado na promessa vazia de um remédio milagroso.

O problema é que isso tem um limite. A maioria das pessoas que apresentar sintomas deve se curar por conta própria, com ou sem cloroquina. Como já disse aqui, ele quer atribuir à cloroquina o que o sistema imunológico já faz. Mas, com o crescimento exponencial de doentes, o colapso dos sistemas de saúde alguma hora vai chegar. E o elixir mágico do presidente vai falhar.

Os mais pobres continuarão a se sentir gratos com o presidente pelo pagamento do auxílio emergencial de R$ 600,00 (criado graças ao Congresso Nacional, na verdade), ou sua popularidade vai erodir com a impossibilidade de acessar o sistema de saúde para qualquer tipo de doença? Lembrando que o inverno vem aí, e com ele o aumento de casos de gripe comum (influenza) e dengue.

Há um limite para ele tentar culpar prefeitos e governadores pelo transbordamento de hospitais, da mesma forma que ele já os culpa pelo desemprego? A curva de doentes e mortos vai achatar antes desse momento chegar?

Bolsonaro pode ser bom em contar mentiras. Mas a ausência de uma pessoa querida não mente.

Leonardo Sakamoto