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Bolsonaro festeja "homem do campo" que trabalha 24h por dia e não reclama

Alan Santos, Agência Brasil
Imagem: Alan Santos, Agência Brasil
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

17/06/2020 21h02

"O homem do campo é um exemplo, realmente, de trabalhador brasileiro. Eles trabalham de segunda a domingo, por vezes, 24 horas por dia, e não reclamam de absolutamente nada. A não ser, às vezes, quando o Estado quer interferir no seu trabalho." No afã de elogiar os agricultores no lançamento do Plano Safra 2020/2021, o presidente Jair Bolsonaro deu uma declaração que esbarra duplamente na realidade.

Primeiro, porque quem tem que trabalhar no campo para terceiros sem parar reclama sim.

Desde 1995, quando o governo federal instituiu o sistema brasileiro de combate à escravidão contemporânea, foram resgatados 42.573 trabalhadores rurais. Os dados são do Painel de Informações e Estatísticas da Inspeção do Trabalho no Brasil do Ministério da Economia.

Isso representa 78% do total de resgatados no país nesse período. De acordo com a Comissão Pastoral da Terras, essas operações foram provocadas por mais de 3,3 mil denúncias. Em outras palavras, reclamações de pessoas que queriam a dignidade e a liberdade de volta.

E parte dos que trabalham para si mesmos também discordam da avaliação do presidente.

"Ele está equivocado, pois a vida no campo não é só trabalhar. A gente tem família, precisa descansar. Não quer ser escravo", afirmou Aristides dos Santos, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores Familiares (Contag), que representa os pequenos agricultores no país.

E aqui surge o segundo tropeço na realidade. Para Aristides, o entrave da imensa maioria no campo é o contrário do que foi enunciado pelo presidente: não é a interferência do Estado, mas a sua ausência

"Falta Estado para garantir saúde próxima ao agricultor, educação do campo adequada, assistência técnica para orientar. Falta Estado para termos mais segurança, impedir grilagem de terras, regularizar os pequenos agricultores, desapropriar o latifúndio improdutivo, pensar na juventude rural, valorizar a produção das mulheres no campo, incentivar a agroecologia, possibilitar juros menores a fim de colocarmos mais comida na mesa dos brasileiros", afirmou à coluna.

Jair Bolsonaro ainda disse, no evento, que "o Brasil é o país que mais preserva o meio ambiente" e que "nós somos um exemplo na questão ambiental".

No ano passado, o presidente foi duramente criticado em protestos realizados em cidades de todo o mundo devido ao salto no desmatamento na Amazônia. Com base na tendência apontada até agora, estima-se que a perda de área vegetal será 50% maior em 2020.

Leonardo Sakamoto