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Datafolha: E se Celso Russomanno não repetir o "cavalo paraguaio" em SP?

Silvia Costanti/Folhapress
Imagem: Silvia Costanti/Folhapress
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

24/09/2020 07h55

Análises sobre a disputa à Prefeitura de São Paulo (sim, parece que não, mas logo mais tem eleição) olham para o passado para traçar o cenário futuro. O problema é que a política brasileira deu um duplo twist carpado nos últimos quatro anos e mostrou que alguns modelos de interpretação não funcionam mais. Se discorda, pergunta pro Jair.

Uma das premissas é que o deputado federal Celso Russomanno (Republicanos), que aparece em primeiro lugar na pesquisa Datafolha, divulgada nesta quinta (24), com 29% das intenções de voto, é um "cavalo paraguaio" - expressão popular usada para times de futebol que começam o campeonato cheios de gás, mas murcham ao longo da temporada. Em 2012 e 2016, ele largou na frente e não chegou nem ao segundo turno.

O prefeito Bruno Covas (PSDB) está em segundo, com 20%. A margem de erro é de três pontos.

Bolsonaro prometeu que não faria campanha para ninguém na primeira etapa. Deu a entender que poderia entrar na reta final se fosse para derrotar a esquerda ou alguém ligado a um de seus adversários (leia-se, governador João Doria). Mesmo assim, dia desses, estava dando mole para Russomanno nas redes sociais. Ou seja, pode mudar. Afinal, como diria Zygmunt Bauman, Jair mostrou que politicamente é puro "amor líquido" - que existe enquanto trouxer satisfação, podendo ser facilmente substituído.

O Datafolha afirma que 64% dos eleitores não votariam de jeito nenhum em alguém apoiado por Bolsonaro, enquanto 11% endossariam quem ele apontasse e 23% poderiam levar sua sugestão em consideração.

Se houvesse apenas três ou quatro candidatos no pleito paulistano, o apoio do presidente seria considerado radioativo. Mas em uma eleição pulverizada e polarizada, com muita gente conhecida à esquerda e à direita, isso pode ser suficiente para ajudar a empurrar alguém ao segundo turno. Ainda mais se Jair sair com um auxílio emergencial pendurado no pescoço.

Russomanno é correligionário dos filhos 01 e 02 do presidente (o senador Flávio e o vereador Carlos), partido que tem intensa ligação com a Universal, igreja que apoia seu governo.

Além de fragmentada e curta, a eleição realizada durante a pandemia também dificultará reuniões de pessoas. E, nesse contexto, as igrejas e suas redes capilarizadas terão um papel importante.

Há pouca chance de candidatos de esquerda avançarem junto às grandes igrejas neopentecostais e pentecostais, ficando restritos a denominações evangélicas minoritárias ou grupos ligados à Teologia da Libertação, ideologia católica progressista.

Ao contrário do que profere um preconceito comum, evangélicos não são um grupo monoliticamente uniforme. O que se conhece como Assembleia de Deus, por exemplo, é uma federação de igrejas com lideranças distintas. E um candidato apoiado pela Universal, como Russomanno, por exemplo, dificilmente terá apoio de outras denominações que discordam das lideranças dessa igreja.

Há, contudo, uma parcela cooptada pela extrema direita, que está com Bolsonaro. E será barulhenta nas igrejas e nas redes sociais, podendo compor na hora certa.

Outra grande verdade da política brasileira das últimas décadas é que Lula é capaz de transformar sua popularidade em voto para seus ungidos. E que o PT conta com uma base sólida na capital paulista, tanto que na declaração espontânea de voto, o seu candidato, Jilmar Tatto, tem 1% e "o candidato do PT" tem outro 1%.

E apesar de 57% afirmarem que não escolheriam de jeito nenhum em alguém apoiado por Luís Inácio, 20% votariam com certeza em alguém que ele indicasse e 21% levariam isso em consideração. O que o torna o principal eleitor em São Paulo entre os grandes políticos.

Por isso, Tatto, que está com 2% na resposta estimulada, aposta no horário eleitoral em rádio e TV para aparecer como "o candidato do Lula".

Para uma parte da classe média paulistana, contudo, o candidato de Lula é Guilherme Boulos, mesmo que não conte com o apoio formal do líder petista, por ser visto como portador das bandeiras históricas do partido. O Datafolha aponta que 6% dos simpatizantes do PT pretendem ir de Tatto e 16% de Boulos. Como o Brasil não é para principiantes, 32% dos que gostam do PT dizem que vão de Russomanno.

Boulos está em terceiro nas intenções de voto, com 9%, tecnicamente empatado com Márcio França, do PSB (8%). Na resposta espontânea, ele fica em segundo, com 5%, empatado com Russomanno e atrás do prefeito Bruno Covas (8%).

O coordenador do MTST tem 18% entre os que ganham mais de dez salários mínimos e 20% entre os mais instruídos, semelhante ao voto que Lula tinha há três décadas - quando tinha na classe média progressista e escolarizada seu principal cabo eleitoral.

A questão é se Lula vai conseguir transferir a Tatto sua popularidade apontando o dedo ou se ela vai se transferir a Boulos por similaridade. Isso depende de quanto o ex-presidente estará disposto a se engajar na campanha. Se começar a gravar vídeos chochos apenas para bater cartão, evitando eventos públicos, teremos a resposta. E não vale dizer que a distância do pleito é pela covid, porque ele ficou sem máscara no hospital ao visitar o senador Renan Calheiros.

Em tempo: Para efeito de comparação, 59% não votariam nem que a vaca tussa em alguém apoiado por João Doria, 8% endossariam quem o governador sugerisse e 29% levariam seu apoio em consideração. O paulistano ainda não perdoou o governador por, entre outras coisas, deixar a prefeitura para disputar o governo. A sorte de Bruno Covas é que o principal cabo eleitoral dele é ele mesmo, com a imagem de alguém jovem que, mesmo com uma grave doença, acampou na prefeitura durante a pandemia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL