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Bolsonaro usa declaração de Biden para bombar paranoia militar da Amazônia

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

02/10/2020 18h27Atualizada em 06/10/2020 13h09

Jair Bolsonaro usou a declaração de Joe Biden, candidato democrata à Casa Branca, de que aplicará sanções econômicas caso o Brasil não reduza o desmatamento na Amazônia, para justificar o repasse de recursos às Forças Armadas nesta quinta (1). E foi além: disse não ver problema que elas recebam mais recursos que a Educação, desde que estejam preparadas caso "alguma potência" tente algo.

"Ele [Biden] está querendo, parece, romper o relacionamento com o Brasil por conta da Amazônia. Sabemos que alguns países do mundo têm interesse na Amazônia. E nós temos que fazer o quê? Dissuadi-los disso. E como você faz a dissuasão disso? Ter Forças Armadas preparadas. Mas nossas Forças Armadas foram sucateadas ao longo dos últimos 20 anos", disse.

A declaração de Biden, dada no já antológico barraco presidencial com Donald Trump, na última terça (29), foi a deixa para que o presidente brasileiro surfasse em uma onda que lhe é familiar: as teorias da conspiração.

Biden falou de pressão econômica, Bolsonaro transformou em uma discussão sobre soberania - como sempre. Mas, para a frustração geral, \ninguém vai invadir a Amazônia.

Primeiro, porque sanções econômicas são muito mais efetivas para pressionar governos.

Segundo, porque, desde a ditadura militar, a Amazônia já foi "invadida" por empreendimentos brasileiros e estrangeiros que, através de cadeias produtivas, internacionalizam matérias-primas, alimentos e energia. Isso não significou, necessariamente, melhora na qualidade de vida de populações tradicionais, camponeses e trabalhadores rurais. Mas os ditadores e suas crias nunca se preocuparam com isso.

Terceiro, porque ele sabe que se o Brasil enfrentar uma potência como os Estados Unidos em uma fantasiosa invasão só não vai levar um cacete do mesmo tamanho daquele que a Argentina tomou na curta guerra das Malvinas porque nosso Exército conhece bem a floresta.

Bolsonaro aproveitou a declaração de Biden para reforçar sua posição junto a seus seguidores ultranacionalistas e ao naco de soldados, cabos e sargentos do Exército que veem nele uma referência. Quis fazer do limão uma limonada e, ainda por cima, justificar mais orçamento às Forças Armadas - que lhe garante estabilidade.

"Por que se um dia algum país, alguma potência, resolver fazer uma besteira contra o Brasil, a gente vai fazer o quê? Vai fazer o quê? Vai ficar quieto, né? E daí? Vai fazer o quê? Vai meter o rabo entre as pernas?", questionou em sua live semanal.

Contudo, a retórica do presidente, transbordando coragem, não sobrevive a uma análise do seu próprio histórico. Verás que um filho teu não foge à luta? Difícil acreditar que o verso do Hino Nacional se aplica a ele se até de debate eleitoral fugiu, mesmo com os médicos garantindo que tinha condições de participar no segundo turno de 2018.

O Brasil sempre garantiu o respeito à sua soberania junto à comunidade internacional através do diálogo realizado por uma diplomacia independente e respeitada e pela demonstração de boa vontade representada através de compromissos internacionais. Hoje, nossa diplomacia é vista como tributári da norte-americana e somos considerados párias ambientais.

É irônico ouvir o presidente dizer tudo isso uma vez que ele convidou os Estados Unidos, mais de uma vez, para explorar as riquezas da Amazônia.

"Temos muitas riquezas. E gostaríamos muito de explorá-las junto com os Estados Unidos", disse a Al Gore, ex-vice presidente dos EUA, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.

Três meses depois, em abril de 2019, Bolsonaro afirmou à rádio Jovem Pan que fez o convite ao presidente norte-americano: "Quando estive agora com [Donald] Trump, conversei com ele, entre outras coisas, que eu quero abrir para ele explorar a região amazônica em parceria". Logo depois, defendeu a teoria conspiratória de que territórios indígenas podem se tornar países independentes com a ajuda das Nações Unidas.

A administração de Jair Bolsonaro lança teorias da conspiração sobre a Amazônia para desviar o foco da responsabilidade sobre os impactos causados por suas ações na região e também pelas de seus aliados ruralistas, madeireiros, garimpeiros, grileiros na região.

Caso se preocupasse de verdade com a soberania da Amazônia, Bolsonaro mudaria o seu discurso.

"Temos muitas riquezas, e gostaríamos muito de explorá-las junto com os Estados Unidos" daria lugar a "Temos muitas riquezas, e gostaríamos muito de ouvir e respeitar a opinião das populações desses locais antes de explorá-las".

Mas isso seria o comportamento de alguém que coloca realmente o Brasil acima de tudo, repudiando o "progresso" que desmata e expulsa moradores de suas casas e escraviza trabalhadores. O que, claramente, não é o caso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL