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Leonardo Sakamoto

Teorias malucas que envolvem vacinas e 5G têm muito a aprender com o Brasil

Getty Images
Imagem: Getty Images
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

19/10/2020 11h34

Uma das teorias da conspiração que mais circulam nos Estados Unidos é a que professa que a vacina chinesa contra o coronavírus pretende injetar nanochips na população de forma a monitorar e controlar as pessoas através do sistema 5G da também chinesa Huawei - a maior empresa global de equipamentos para redes. Tudo isso seria usado em meio a um grande esquema envolvendo uma rede de bilionários globalistas, intelectuais pedófilos, cavaleiros templários e, claro, os Illuminati para controlar o mundo.

Você deve estar pensando que, para acreditar nisso, o sujeito precisa viver uma realidade paralela e ter déficits em outras dimensões de sua vida. Mas num momento em que muitos rediscutem a esfericidade do planeta, esse tipo de sandice ganha tração. Nunca é demais lembrar que, segundo o Datafolha, 7% dos brasileiros acreditam que a Terra tem o formado de uma pizza.

Atuando como poodle de Donald Trump, o governo brasileiro tem ameaçado excluir ou limitar a presença da Huawei no processo de escolha das redes 5G no Brasil, colocando seu alinhamento automático com os EUA acima do livre mercado. E, em meio à discussão ideológica e geopolítica, a conspiração anima um naco insano da sociedade a bater bumbo contra a empresa.

A tese do 5G e da pedofilia se enquadra no movimento QAnon. Apesar desse pacote de sandices ter terreno fértil para crescer no Brasil, onde teorias da conspiração são espalhadas pelo próprio governo, aproveitando-se de uma população com baixo nível de educação para a mídia, não significa, contudo, que já seja relevante por aqui.

Inclusive, até agora, a preocupação tem sido evitar que o temor sobre o QAnon se torne sua própria propaganda e seu vetor de expansão.

Apesar de não haver menção a um papel do presidente Jair Bolsonaro nas origens da conspiração entre os seguidores dela nos Estados Unidos e na Europa, é claro que o naco dos bolsonaristas-raiz que caíram nesse conto já trataram de elenca-lo como um dos líderes eleitos para, ao lado de Trump, salvar o mundo do conluio pedófilo e satânico de liberais e esquerdistas. 

Em manifestações da extrema direita no Brasil, já encontramos algumas pessoas segurando cartazes com símbolos do QAnon. "Mas não temos quaisquer indícios de que a conspiração QAnon tem penetração relevante no Brasil. Temo é que uma preocupação exagerada e antecipada termine por difundir o fenômeno, como aconteceu nos Estados Unidos", afirma Pablo Ortellado, professor de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo.

Ele cita pesquisas norte-americanas que mostram que a conspiração era duas vezes mais conhecida entre liberais do que entre conservadores devido ao medo de mais uma sandice com finalidade política ganhar as redes.

O movimento ultraconservador brasileiro sempre elencou a pedofilia como se fosse um dos principais problemas do país. Enquanto isso, o genocídio de jovens negros e pobres nas favelas ou o trabalho escravo de crianças e adolescentes não ganham deles a mesma atenção. O medo da violência sexual contra nossas crianças é usado como ferramenta de fortalecimento da narrativa de que a família está sob risco. A dignidade das vítimas, contudo, é menos importante que a guerra cultural.

Um exemplo disso foi o caso da gravidez de uma menina de apenas dez anos, estuprada pelo próprio tio por quase metade de sua vida, que ganhou as manchetes da imprensa brasileira no mês de agosto. Ela encontrou dificuldades para realizar um aborto - garantido por lei nesse caso. Representantes do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos foram acusados de tentar influenciar a família contra a interrupção da gestação. E bolsonaristas se dirigiram à porta do hospital para ameaçar médicos e a própria garota contra o aborto, chamando-os de assassinos.

Pesquisa Datafolha apontou que 17% dos moradores de São Paulo, 16% do Rio de Janeiro, 15% de Belo Horizonte e 20% do Recife não pretendem se imunizar quando sair a vacina para covid-19. Somando-se a esses números os grupos nessas metrópoles que ainda não sabe se pretende se vacinar, temos 21%, 20%, 19% e 25% respectivamente. A margem de erro é de três pontos percentuais.

Isso é decorrência das campanhas do movimento antivacina, mas também de fake news e de teorias conspiratórias, como as que apontam que chineses vão injetar chips na população.

O próprio presidente da República Jair Bolsonaro é responsável por espalhar teorias da conspiração, que causam impactos reais.

Por exemplo, de que as imagens de satélite e os vídeos de queimadas na Amazônia mentem e que a floresta nunca esteve tão bem. Para Bolsonaro, há uma conspiração de ONGs, governos estrangeiros e povos indígenas para impedir nosso desenvolvimento e levar à internacionalização da Amazônia sob administração das Nações Unidas. Tanto que mandou espiões para a Cúpula do Clima, na Espanha, em dezembro passado.

Enquanto defende essas conspirações, ele empodera madeireiros, garimpeiros e pecuaristas para continuar devastando a floresta. E relativiza a pandemia de coronavírus. Repete que a vacina não será obrigatória, mesmo sabendo que obrigatoriedade não significa invadir casas para vacinar à força, mas pressionar a sociedade através de outros meios a fim de garantir imunização coletiva e salvar vidas.

Ou seja, conspiração aqui é algo de profissional. O medo não é o Brasil aprender com o QAnon, mas o QAnon aprender com o Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL