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Covid: Taxa dos que se opõem à vacina indica alerta vermelho, diz cientista

Enterro de vítima do coronavírus no Cemitério da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo - Robson Rocha/Agência F8/Estadão Conteúdo
Enterro de vítima do coronavírus no Cemitério da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo Imagem: Robson Rocha/Agência F8/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

12/10/2020 13h11

Pesquisa Datafolha apontou que 17% dos moradores de São Paulo, 16% do Rio de Janeiro, 15% de Belo Horizonte e 20% do Recife não pretendem se imunizar quando sair a vacina para covid-19. Os números preocupam não apenas por conta da pandemia em curso, mas pelo impacto que isso pode causar no combate a outras doenças.

Somando-se a esses números os grupos nessas metrópoles que ainda não sabe se pretende se vacinar, temos 21%, 20%, 19% e 25% respectivamente. A margem de erro é de três pontos percentuais.

"Se você não tiver uma adesão em massa da população, a quantidade de pessoas protegidas no final pode não ser suficiente para fazer o vírus parar de circular", afirma Natália Pasternak, doutora em microbiologia e diretora do Instituto Questão de Ciência.

"E além do impacto relacionado à covid, a proteção de apenas uma parte da população vai gerar sentimento de desconfiança sobre a própria eficácia das vacinas. O que acaba afetando o enfrentamento a outras doenças", explica. Para ela, os números do Datafolha acendem um "alerta vermelho".

A cientista-chefe da OMS (Organização Mundial da Saúde), Soumya Swaminathan, afirmou, no mês passado, que a organização pode aprovar uma vacina com eficiência mínima de 50%. "[Queremos uma com] no mínimo 70% de eficácia, mas no pior dos casos com 50% de eficácia poderia ainda ser útil". O engajamento da população, portanto, é fundamental para o sucesso da imunização coletiva.

"Muitos estão com dúvida e com medo, acham que a vacina não é necessária ou segura, têm dificuldade de entender o que está acontecendo por serem processos aos quais elas não estão familiarizadas", diz Pasternak.

Vacinas usadas como arma de guerra política

Se já não bastasse a quantidade de desinformação e, em especial, de boatos e notícias falsas a respeito das vacinas que corre nas redes sociais e aplicativos de mensagens, a confusão com a vacina produzida pela Rússia, que, inicialmente, não liberou os dados sobre seus testes, ou os efeitos colaterais nos testes com a vacina de Oxford, no Reino Unido, ajudaram a gerar um sentimento de desconfiança.

Isso tende a piorar a credibilidade quanto às vacinas no país, que já foi maior.

Por exemplo, neste momento, o Brasil vive um surto de sarampo. De dezembro a maio, foram 3.629 casos confirmados e outros 3.086 em investigação, segundo boletim do Ministério da Saúde de junho. Em setembro de 2016, o sarampo estava erradicado por aqui, mas voltou e se espalhou, muito por conta da queda na imunização.

O comportamento do governo federal também é parte do problema. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) transformou a vacina em tema de disputa política, usando-a para manter mobilizada uma parcela do bolsonarismo-raiz mais radical.

Afirmou que "ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina", criando o entendimento falso que residências seriam invadidas para a imunização - por mais que isso não ocorra por aqui há mais de um século.

A obrigatoriedade, hoje, é decorrente de perda de acesso a benefícios - o Bolsa Família é suspenso, por exemplo, para quem não vacina os filhos. Mas nunca houve coerção física, uma vez que a população, quando informada da importância das vacinas, comparecia voluntariamente aos postos de saúde.

Além disso, Bolsonaro ajudou a incitar uma guerra entre vacinas, envolvendo a inglesa e a chinesa. Esta última fechou acordo com o Estado de São Paulo, governado por seu desafeto, João Doria (PSDB).

Chips em vacinas e teorias da conspiração que matam

Apesar de não ser possível comparar os números por conta da diferença de metodologias, uma pesquisa nacional Ibope encomendada pela ONG Avaaz, realizada entre os dias 27 e 29 de agosto, apontou que 20% dos participantes talvez tomassem a vacina contra a covid-19 e 5% não a tomariam de jeito nenhum. A margem também é de três pontos.

Entre as razões principais para não tomar, estão à questão da segurança e da eficiência do produto e, claro, teorias da conspiração.

Uma das que mais correm pelo esgoto dos aplicativos de mensagens e das redes sociais diz que o coronavírus foi criado em laboratório pela China e a vacina daquele país contaria com microchips que seriam inoculados a fim de que todos os habitantes do mundo fossem rastreados e controlados através de antenas de 5G. E que isso seria um plano da intelectualidade global junto com bilionários, os cavaleiros templários e os Illuminati.

Natália Pasternak defende que, neste momento, governo e sociedade civil deveriam estar investindo em campanhas para informar e tirar dúvidas da população a respeito das vacinas para covid-19, sendo transparente e direto. E evitar, assim, que o legado da pandemia seja também o crescimento da paranoia antivacina, o que nos jogaria décadas para trás.

Informar a população sobre uma vacina em andamento em um momento de crise já seria um grande desafio por si só. Imagine então com a Presidência da República jogando contra.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL