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Leonardo Sakamoto

Entidades pedem que STF ponha fim à politização da vacina contra a covid-19

Quem é responsável pela vacinação dos brasileiros? Os Estados podem distribuir uma vacina ainda não liberada pela Anvisa?  - Getty Images
Quem é responsável pela vacinação dos brasileiros? Os Estados podem distribuir uma vacina ainda não liberada pela Anvisa? Imagem: Getty Images
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

11/12/2020 15h30

Um grupo de 17 organizações da sociedade civil defendeu junto ao Supremo Tribunal Federal, nesta sexta (11), que as decisões sobre a vacinação contra a covid devem ser tomadas com base no bem-estar da população e não em disputas entre políticos, o governo federal não pode impedir ações adotadas por Estados e municípios no combate à pandemia e é necessário garantir transparência a contratos para evitar abusos da indústria farmacêutica.

O Brasil assiste a uma disputa entre o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), e o governador de São Paulo, João Doria, por conta da escolha da vacina contra a covid-19. Mesmo sem autorização da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o Instituto Butantan já começou a produzir a Coronavac, desenvolvidas pelo laboratório chinês Sinovac. O governo federal tenta correr atrás do prejuízo, buscando a compra de doses do laboratório Pfeizer e ameaçando com a não-liberação e até com o confisco da vacina fabricada na capital paulista.

Entre os dias 16 e 17 de dezembro, o STF vai analisar quatro ações sobre a vacinação contra o coronavírus, incluindo a questão de sua obrigatoriedade.

As instituições defendem que, além de idosos, populações indígenas e povos tradicionais, pessoas com deficiência, população privada de liberdade e profissionais da saúde, devem ser considerados grupos prioritários para imunização os trabalhadores de limpeza, da assistência social, cuidadores, atendentes com contato com o público e trabalhadores de áreas essenciais - que não pararam durante a pandemia.

Também sugerem que mulheres negras, maioria no setor de cuidados e em atividades essenciais, devem ser prioritárias por estarem sendo especialmente impactadas pela covid por conta de seu trabalho.

"É importante que o Supremo se mantenha firme na defesa da Constituição e na proteção do direito fundamental à saúde no momento em que as iniciativas coordenadas pelo Ministério da Saúde têm sido abaixo da expectativa", afirma Eloísa Machado, professora da FGV Direito-SP e coordenadora do Coletivo de Advogados em Direitos Humanos (CADHu), um dos signatários.

"Esperemos que o julgamento sobre vacinas reafirme a universidade e integralidade do SUS [Sistema Único de Saúde] e também preveja mecanismos subsidiários aos Estados para a efetivação desse direito", avalia.

As entidades também pedem que os gestores públicos baseiem suas tomadas de decisão em evidências científicas - o presidente Bolsonaro tem, desde o início da pandemia, ignorado recomendações de médicos e pesquisadores, atuando contra as quarentenas e defendendo o fim do isolamento e do distanciamento sociais.

E alertam o Supremo sobre a necessidade de que a União se comprometa em incorporar todas as vacinas registradas no país no Programa Nacional de Imunizações e apresente um plano com critérios claros para a priorização de públicos, levando em conta as desigualdades que aumentam vulnerabilidades.

Alerta para possíveis abusos da indústria farmacêutica

Pedem que os contratos para vacinação sejam guiados pelo interesse público e não pelo das empresas, com transparência para todo o processo.

"Apesar do forte investimento público, tanto em pesquisa e desenvolvimento como no processo de produção e transferência de tecnologia, as vacinas para covid-19 seguem tendo preços negociados em contratos fechados, em condições que privilegiam distorções e abusos por empresas farmacêuticas, sem amplo conhecimento da população sobre essas medidas", diz a nota pública. "A sociedade segue sem saber quanto custou de fato desenvolver e produzir as vacinas e como o preço está sendo estabelecido."

Assinam o documento aos ministros do Supremo: Abia (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids), Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), Anis (Instituto de Bioética), Artigo 19, Brics Policy Center, CADHu (Coletivo de Advogados de Direitos Humanos), Conectas Direitos Humanos, DNDi (Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas), Fase (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), GIV (Grupo de Incentivo à Vida), GTPI/Rebrip (Grupo de Trabalho de Propriedade Intelectual da Rede Brasileira pela Integração dos Povos), Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), Inesc (Instituto Brasileiro de Estudos Socioeconômicos), Instituto Ethos, ISP (Internacional de Serviços Públicos), MSF (Médicos Sem Fronteiras Brasil) e Oxfam Brasil.