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Leonardo Sakamoto

Mercado topa Bolsonaro semear covid, mas não retorno do auxílio emergencial

Covas sendo abertas em cemitério de Manaus, em 31 de dezembro de 2020; Brasil registrou quase 195 mil mortes por covid-19 no ano passado - Reuters
Covas sendo abertas em cemitério de Manaus, em 31 de dezembro de 2020; Brasil registrou quase 195 mil mortes por covid-19 no ano passado Imagem: Reuters
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

09/02/2021 20h52

O Brasil fez um isolamento social meia boca ao longo do ano passado. Com um presidente da República aliado do coronavírus e excitando negacionistas a irem às ruas até na defesa de autogolpe de Estado, as quarentenas nunca foram totalmente obedecidas por aqui. Resultado: uma primeira onda tão longa que se conectou à segunda, sem um tempo de refresco para as pessoas e a economia. Consequentemente, o auxílio emergencial continua sendo necessário.

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), afirmou, corretamente, que o benefício é assunto de sobrevivência dos trabalhadores e não pode ser condicionado a ajustes fiscais, como havia defendido o ministro da Economia. Não que a saúde das contas do país não seja importante, mas o tempo para evitar a fome em massa é mais curto que a aprovação de medidas fiscais no Congresso.

Jair Messias, que em silêncio torce para a volta do benefício, o que ajudará a estancar a sangria de sua popularidade, afirmou ontem que ele deve ser mesmo prorrogado. E não foi em um lugar qualquer, mas em um programa com grande audiência popular, comandado por José Luiz Datena. Jair Messias pode ser tosco, mas burro não é.

Com isso, operadores e analistas do mercado financeiro deram chilique ao longo desta terça. Isso chega a ser engraçado.

Afinal, se até um guaxinim, que não sabe o que é um derivativo, apostaria seu dinheiro na volta do auxílio diante da média móvel com mais de mil óbitos se repetindo por 20 dias, imagina esse povo que analisa riscos e se antecipa a decisões políticas.

Além do mais, operadores e analistas do mercado não chilicaram todas as vezes, no ano passado, em que o presidente da República promoveu aglomerações e defendeu o fim das quarentenas para forçar uma volta irreal à vida normal. E foi a irresponsabilidade de Bolsonaro e o vácuo deixado por ele na articulação nacional contra a covid que fizeram com que o Brasil perdesse tantas vidas e gastasse mais pela extensão e tamanho da primeira onda.

Chiliques naquele momento poderiam ter passado uma pressão importante, mas parte do mercado concordava com o presidente que o melhor era o povaréu ir para a rua dar sua cota de sacrifício pelo bem dos indicadores econômicos.

Poderíamos ter tido um momento de retorno à (quase) normalidade sim, mas o presidente e o naco negacionista da população não deixaram porque sabotaram as quarentenas. Agora, a retomada do auxílio emergencial é uma consequência lógica disso.

Mesmo percebendo que a volta do benefício é inevitável, o Ministério da Economia tenta restringi-lo aos que deveriam receber o Bolsa Família, mas não recebem. E pagando apenas 200 jujubas mensais - valor que não paga o vinho do jantar desse pessoal, nem 32% de uma cesta básica completa em São Paulo.

Mesmo com tudo isso, o grosso do mercado não vai abandonar o capitão. Uma parte é bolsonarista desde criancinha e acredita que só é pobre quem não se esforçou, mas vive a beleza da meritocracia hereditária. Outra parte adora as músicas da boy band "Guedes e os Ultraliberais", torcendo para ela tocar seus hits "Licença ambiental fede", "CLT desce ao Inferno" e "Pau no BPC".

Há sim o grupo responsável, que sabe que isso vai aumentar o buraco fiscal, mas entende que a hora é de salvar vidas e, consequentemente, a economia. Mas, ironicamente, suas reclamações raramente são ouvidas. Inclusive, na imprensa.

O governo, pelo menos, deveria ter feito sua lição de casa e estabelecido fontes de recursos para renovar o auxílio ainda em dezembro. Mas, mesmo vendo o presidente promover aglomerações nas festas de final de ano, o que cobraria seu preço em vidas mais para frente, resolveu esperar. Ou melhor, enrolar e torcer, o que mostra o naipe de nossos planejadores.

Sim, há gente no governo Bolsonaro de dedos cruzados para que o número de mortos caia sem que um auxílio precise ser pago. Enquanto isso, corpos se acumulam.

Rodrigo Maia (DEM-RJ) era muito mais pró-mercado que Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco. Mas, como eu disse, tem gente que gosta de um autoengano e acha que a nova fase do Congresso será um parque de diversões neoliberal, como no Chile sob Pinochet. Ahã, Claudia, senta lá.

Se achava que o centrão iria se tornar simpático às suas pautas, ignorando sua necessidade de reeleição e seus interesses pessoais, o mercado realmente precisa de um bom calmante. Ou parar de usar drogas pesadas.

Em tempo: Há propostas no Congresso Nacional para taxar alguns tipos de fundos de investimento e cortar renúncia fiscal a fim de gerar recursos para o auxílio emergencial sem aumentar o rombo. Bora lá, mercado, apoiar.