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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Povo pede auxílio emergencial. Bolsonaro entrega arma, diesel e agrotóxico

Getty Images
Imagem: Getty Images
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

21/02/2021 11h24

O governo Bolsonaro é rápido para liberar armas e munição, facilitar a compra de agrotóxicos (bateu recorde em 2020) e interferir no preço do diesel. Mas não tem pressa para voltar com o auxílio emergencial - o que impediria que muitos trabalhadores dormissem com fome nesta noite ou se arriscassem em busca de serviço.

E evitaria um baque ainda maior da economia e ajudaria, principalmente, micro e pequenos empresários.

Dois anos depois, o presidente não governa para todos, mas ainda prioriza os seus. Age não como chefe de Estado, mas de clã.

Ou como Messias, pastoreando o seu povo escolhido, o Bolsonarismo-raiz, grupo de 12% a 16% da população que esteve ao seu lado muito antes do Lavajatismo-morista e do Mercado-oportunista.

Esse pessoal não pensará duas vezes se, após uma derrota em 2022, o presidente forçar um autogolpe. Daí, não duvide se tiver tratoraço no gramado da Esplanada dos Ministérios, bloqueio com caminhões na entrada de Brasília e invasão do Congresso Nacional com milícia armada.

Até uma cobra-cega era capaz de enxergar, já no final do ano passado, que a segunda onda de covid-19 ia bater pesado em 2021, ceifar a vida de dezenas de milhares de brasileiros e dificultar a retomada da economia.

Ainda mais pelo fato de Bolsonaro, ao invés de comprar vacinas em quantidade suficiente, gastar seu tempo avisando que quem se imunizasse viraria jacaré.

Menos capaz que a tal cobra-cega, ou mais cínico que ela, o governo foi empurrando o auxílio com a barriga. Falou que ele voltaria com mil mortes por dia, depois citou 1,5 mil. Apostou que a curva de óbitos cairia, tornando o pagamento desnecessário. Mas não caiu e estamos há 31 dias com média móvel acima de mil mortes por dia.

O benefício vai voltar a ser pago em algum momento nos próximos meses. Ninguém aqui é inocente, Jair sabe que a reeleição dele também depende da popularidade que isso vai garantir.

Mas todo esse bafafá mostra que aquele mimimi de que o governo tem que transmitir responsabilidade era blablablá. Afinal, o retorno do auxílio já era esperado, com ou sem tomaladacá de ajuste fiscal com o Congresso.

Já o presidente trocar o comando da Petrobras para ficar bem entre os caminhoneiros  de sua base, deixando claro que seu ministro da Economia tem autonomia sim, mas para dizer "sim, senhor", não.

Tá tendo morte, tá tendo fome, tá tendo desemprego, tá tendo cara de pau. Tá tendo até ameaça de AI-5. Vacina em massa e auxílio em valor digno que é bom, nada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL