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Leonardo Sakamoto

Chacina é fruto de um projeto de 'sociedade miliciana' no Rio, diz Freixo

7.mai.2021 - Manifestação em protesto contra a operação da Polícia Civil que deixou 25 mortos no morro do Jacarezinho - Daniel Castelo Branco/Agência O Dia/Estadão Conteúdo
7.mai.2021 - Manifestação em protesto contra a operação da Polícia Civil que deixou 25 mortos no morro do Jacarezinho Imagem: Daniel Castelo Branco/Agência O Dia/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

07/05/2021 17h57

"A milícia, que ocupa 58% do território do município do Rio de Janeiro, disseminou uma ideia de 'sociedade miliciana', onde se troca a Justiça pelo justiciamento de forma oficial, contrapondo-se ao que está escrito na Constituição de 1988."

A análise é do deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ), que presidiu tanto a CPI das Milícias quanto a CPI das Armas quando deputado estadual.

"Não estou dizendo com isso que os policiais que participaram da ação são milicianos. Mas que há uma lógica do justiciamento, que a cultura miliciana buscou legitimar", afirma.

Para ele, a concepção de segurança pública e de violência que está se tornando hegemônica no Rio vem das milícias e representa o pensamento do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Na sua avaliação, quando um policial leva um tiro e morre no início de uma operação, ela deve ser imediatamente cancelada sob o risco de abandonar a pauta original e se transformar em vingança de seus colegas contra a comunidade em que a morte aconteceu.

E, em uma sociedade miliciana, segundo ele, não há "suspeitos".

O delegado Felipe Curi, do Departamento Geral de Polícia Especializada (DGPE), afirmou, na coletiva à imprensa após a ação, que todos os 27 civis foram mortos em troca de tiros com agentes de segurança. "Não tem nenhum suspeito aqui. A gente tem criminoso, homicida e traficante." E lamentou: "O que causa muita dor na gente é a morte do nosso colega".

Da mesma forma, Hamilton Mourão, vice-presidente da República, afirmou, nesta sexta (7), que os mortos eram "tudo bandido", sem apresentar evidências disso. O general ainda completou: "Entra um policial numa operação normal e leva um tiro na cabeça em cima de uma laje."

"Nesse contexto, o Estado do Rio não faz Justiça, faz vingança. E o problema não é que temos um governador bolsonarista, é que não temos um governador. A polícia é da polícia", analisa Marcelo Freixo.

O deputado aponta que a operação não precisaria ter sido como foi, lembrando que as duas maiores apreensões de fuzis no Rio de Janeiro não deram um tiro sequer, usando apenas o serviço de inteligência das forças de segurança pública. Uma delas foi a apreensão de 117 fuzis atribuídos a Ronnie Lessa, acusado de matar a vereadora Marielle Franco.

E que apesar da justificativa original da operação (o enfrentamento do aliciamento de crianças e adolescentes para o tráfico de drogas) ser pauta importante, a polícia fez uma operação armada na favela no lugar de investigar onde os jovens são usados, como estava a política educacional e de assistência social e envolver outras estruturas de atendimento do Estado.

"A gênese da operação é uma concepção de segurança pública que não deveria existir no Rio", afirma Freixo. A ação, do seu ponto de vista, é algo que não deveria ter acontecido e foi piorada com o trágico óbito do policial André Frias. "A partir daí, a polícia acabou fazendo o que já fez diversas vezes."

Quando ocorre a morte de policiais em confronto com criminosos, comunidades ficam em pânico esperando por mortes de moradores em número muito maior como retaliação. Esse padrão tem se repetido ao longo dos anos em comunidades fluminenses.

Bolsonaro como fruto e incentivador da 'sociedade miliciana'

Bolsonaro, avalia o deputado, é fruto de um projeto bolsonarista anterior a ele, mas que dele se alimenta. Esse projeto inclui o Brasil escravagista, o Brasil da vingança no lugar da Justiça, e tenta moldar a sociedade à luz da ordem que ele mesmo impõe.

"Isso é um projeto que está em disputa nacional. O Rio é o seu berço, onde tem o ovo da serpente. E o ataque às instituições faz parte da sociedade miliciana", afirma.

Por conta da quantidade de mortes em comunidades pobres do Rio em operações policiais durante a pandemia, o Supremo Tribunal Federal limitou essas ações a situações excepcionais em junho do ano passado. O Ministério Público, que precisa ser avisado com antecedência, só foi informado da operação no Jacarezinho após seu início.

Na coletiva à imprensa, o delegado Rodrigo Oliveira, subsecretário de Planejamento e Integração Operacional da Polícia Civil, criticou o que chamou de "ativismo judicial" que dificulta as ações da polícia. "Eu queria deixar muito claro que o sangue desse policial que faleceu hoje em prol da sociedade de alguma forma está na mão dessas pessoas, dessas entidades", disse. Questionado, disse que não se referia ao STF.

Enquanto isso, segundo Freixo, Bolsonaro ataca o Congresso Nacional, o STF, pois é preciso acabar com o equilíbrio de poderes para que a ordem seja uma nova ordem.

"Não é que seja combinado, mas essa cultura miliciana orienta as ações", afirma.