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Leonardo Sakamoto

Chacina do Jacarezinho reforça imagem do Brasil como cemitério do mundo

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

07/05/2021 11h00

Uma operação que termina com 24 civis e um policial mortos, trata uma comunidade com milhares de moradores como um campo de guerra inimigo e atinge até passageiros do metrô é um fracasso retumbante. Demonstra falta de inteligência do Estado, em todos os sentidos.

Tão fracassada que parece uma grande farsa. Por isso, a Chacina do Jacarezinho, perpetrada, nesta quinta (6), pelo governo do Rio de Janeiro, rapidamente tornou-se assunto na mídia internacional como mais um símbolo de nossa necropolítica. O Brasil é visto hoje como o cemitério do mundo, em muitas dimensões diferentes.

Jair Bolsonaro é causa de muitas tragédias, como a sabotagem ao combate à covid-19 que causou centenas de milhares de mortes, mas ele também é consequência de uma sociedade que nunca colocou a dignidade dos mais vulneráveis como prioridade. O Brasil já executava sumariamente negros e pobres nas periferias e massacrava indígenas e camponeses na Amazônia antes deste governo e continuará depois que ele passar.

Não que sua passagem pelo comando do país não tenha empoderado determinados discursos policiais que, antes, eram mais envergonhados, o que ajuda a normalizar a violência e a morte como métodos. A coletiva à imprensa após o morticínio foi um exemplo disso, agindo como uma segunda etapa da tragédia. Se a primeira passou por cima da comunidade, a segunda atropelou a Constituição Federal.

"Não tem nenhum suspeito aqui. A gente tem criminoso, homicida e traficante", afirmou o delegado Felipe Curi, do Departamento Geral de Polícia Especializada (DGPE) ao falar que os 24 civis foram mortos em troca de tiros com agentes de segurança.

Sob essa visão, a Justiça é desnecessária. Porque a própria polícia, cuja função é investigar e prender quem comete crimes, também assume o papel de acusar, julgar e executar. Reforça a ideia de que o Brasil tem pena de morte sim, só não está detalhada no Código Penal. Vale lembrar os relatos de moradores, que acusam a política de matar pessoas que não tinha envolvimento com o crime organizado.

"Eu queria deixar muito claro que o sangue desse policial que faleceu hoje em prol da sociedade de alguma forma está na mão dessas pessoas, dessas entidades ", afirmou o delegado Rodrigo Oliveira, subsecretário de Planejamento e Integração Operacional da Polícia Civil, criticando o que chamou de "ativismo judicial" de defensores de direitos civis.

Por conta da quantidade de mortes em comunidades pobres do Rio em operações policiais durante a pandemia, o Supremo Tribunal Federal limitou essas ações a situações excepcionais em junho do ano passado. O Ministério Público, que precisa ser avisado com antecedência, só foi informado da operação no Jacarezinho depois de seu início.

"Parte desse ativismo que de alguma forma orienta a sociedade numa determinada direção definitivamente não está do lado da Polícia Civil e da sociedade de bem. Os interesses deles são diversos, são outros", afirmou Oliveira.

Ele adota duas estratégias comuns ao bolsonarismo: a de afirmar que quem concorda com ele faz parte da "sociedade de bem", em detrimento ao inimigo, a "sociedade do mal", que é quem discorda dele. E a outra é acusar antes de ser acusado. Coloca o sangue do policial nas mãos dos críticos da ação antes que a sociedade coloque o sangue dos 25 nas mãos do poder público.

Tudo isso é um espetáculo violento, que afronta a lei e excita uma parcela da sociedade, que vai consumi-lo com gosto.

O policial André Frias poderia estar vivo, bem como os outros 24, caso as forças policiais no Brasil investissem no trabalho de inteligência. Isso poderia levar criminosos à Justiça e não ao cemitério, como reza a Constituição.

Como não temos um trabalho de inteligência eficaz, com integração das bases das polícias e cruzamento de dados de segurança pública, que torne possível cortar o fornecimento de armas ilegais, bloquear a movimentação financeira dos envolvidos, atingir os financiadores do crime organizado (que, não raro, moram em bairros de ricos) e localizar e isolar criminosos, a alternativa adotada é ir para a porrada, matando e morrendo.

Enquanto isso, o governo Bolsonaro atua para sabotar o trabalho dos mesmos policiais, aumentando a quantidade de armas em circulação, incluindo fuzis. Armamento do mercado legal, em algum momento, abastece o ilegal, como apontam especialistas. O que anima traficantes e milicianos.

Ações como a desta quinta deixam milicianos mais à vontade para ocupar comunidades.

E passam uma sensação de segurança a parcelas das classes média e alta, mostrando que o governo está fazendo algo. Mesmo que esse algo seja uma chacina. Foi o mesmo que aconteceu com a intervenção do Exército na segurança pública do Rio, durante o governo Michel Temer - comandada, aliás, pelo atual ministro da Defesa, general Braga Netto. Depois com o, agora, ex-governador do Rio, Wilson Witzel, que chegou a pregar a execução sumária de suspeitos. O governador Cláudio Castro (PSC), tentando se firmar como candidato bolsonarista à eleição de 2022, aprofunda a mesma estratégia.

O mais triste é que, se continuar assim, fará sucesso enorme entre um naco daqueles que vivem na parte cartão-postal da cidade. E entre aqueles que defendem que sejamos rebatizados como a República Miliciana do Brasil.