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Leonardo Sakamoto

Torturado, frei Tito foi perseguido por fantasma de delegado até sua morte

Torturador e sádico, delegado Sérgio Fleury foi responsável pela morte de frei Tito - Reprodução
Torturador e sádico, delegado Sérgio Fleury foi responsável pela morte de frei Tito Imagem: Reprodução
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

14/06/2021 04h15

Importante investigação do UOL, publicada nesta segunda (14), revelou 24 casos de presos políticos que foram internados pela ditadura militar em instituições psiquiátricas, a grande maioria após ser vítima de tortura pelo regime.

Torturas que levavam a alucinações, confusão mental, depressão profunda, ideias suicidas. Torturas, aliás, que continuam sendo aplicadas nas periferias e nos grotões do campo pelos herdeiros daquela violência estatal.

Frei Tito não foi internado em um manicômio judicial, como as histórias contadas nessa reportagem, mas é um caso emblemático de como a tortura pode "quebrar" uma pessoa por dentro, levando-a à loucura, até que ela resolva por fim à própria vida.

O cearense Tito de Alencar Lima foi encontrado enforcado no dia 10 de agosto de 1974, durante seu exílio na França, como consequência da tortura que sofreu pelas mãos dos agentes da ditadura militar brasileira.

Em 1969, ele foi um dos religiosos dominicanos presos pelo torturador Sérgio Paranhos Fleury, delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Os religiosos haviam sido acusados de apoiar as ações da resistência contra a ditadura. O calvário de Tito, da prisão ao suicídio, tornou-se um dos símbolos da luta contra o autoritarismo.

'Era impossível saber qual parte do corpo doía mais'

Para entender pelo que ele passou, nada melhor do que resgatar suas próprias palavras. Abaixo, um trecho do seu testemunho à Justiça Militar, em 1969, em que conta como foram as sessões de tortura, que faz parte de ação movida pelo Ministério Público Federal contra torturadores:

"Na quarta-feira, fui acordado às 8 horas, subi para a sala de interrogatórios, onde a equipe do capitão Homero me esperava. Repetiram as mesmas perguntas do dia anterior. A cada resposta negativa, ou recebia cuteladas na cabeça, nos braços e no peito. Neste ritmo prosseguiram até o início da noite, quando me serviram a primeira refeição naquelas 48 horas. (?)

Na quinta-feira, três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios. Um capitão, cercado por uma equipe, voltou às mesmas perguntas. 'Vai ter que falar, senão, só sai morto daqui', gritou. Logo depois vi que isto não era apenas uma ameaça: era quase uma certeza. Sentaram-me na 'cadeira de dragão' (com chapas metálicas e fios), descarregaram choques nas mãos e na orelha esquerda.

A cada descarga, eu estremecia todo, como se o organismo fosse decompor.

Da sessão de choques, passaram-me ao pau-de-arara. Mais choques, pauladas no peito e nas pernas cada vez que elas se curvavam para aliviar a dor. Uma hora depois, com o corpo todo sangrando e todo ferido, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado. Conduziram-me à outra sala, dizendo que passariam a carga elétrica para 230 volts a fim de que eu falasse 'antes de morrer'. Não chegaram a fazê-lo.

Voltaram às perguntas, batiam em minhas mãos com palmatórias. As mãos ficaram roxas e inchadas, a ponto de não ser possível fechá-las. Novas pauladas. Era impossível saber qual parte do corpo doía mais: tudo parecia massacrado. Mesmo que quisesse, não poderia responder às perguntas: o raciocínio não se ordenava mais. Restava apenas o desejo de perder novamente os sentidos."

Frei Tito de Alencar foi levado à morte pela tortura da ditadura militar - Reprodução/Documentário "Ato de fé"/Alexandre Rampazzo - Reprodução/Documentário "Ato de fé"/Alexandre Rampazzo
Imagem: Reprodução/Documentário "Ato de fé"/Alexandre Rampazzo

'Minha vida, ninguém tira, é minha. Eu a estou entregando'

O francês Xavier Plassat, frei dominicano, membro da Comissão Pastoral da Terra e residente no Brasil há mais de três décadas, foi a última pessoa a ver Tito com vida antes do suicídio. Algum tempo atrás, ele me fez um relato daqueles últimos dias e das feridas nunca cicatrizadas de Tito deixadas pela tortura:

"Convivi com frei Tito na comunidade dominicana de L'Arbresle, na França. Foram duas primaveras, dois verões, mas um só outono e um só inverno. Ele com seus 27 anos e eu, meus 23. Ali, surgiu entre nós uma relação feita de cumplicidade e de amizade, de sorrisos e de raivas, de luta e de fé, enfrentando o [Sérgio Fernando Paranhos] Fleury, que, por dentro do Tito, continuava sua tortura destruidora, partindo-lhe a alma entre resistência e desistência.

Resistência era quando Tito formava projetos, tocava violão, abraçava o amigo, brincava com as crianças, rezava, sorria. Desistência era quando obedecia cegamente à intimação alucinante da voz que atormentava sua mente sem parar, fugindo para onde mandava que fosse, ou afundando-se em impenetráveis prantos ou desesperados silêncios.

Lembro como se fosse ontem: o dia era 11 de setembro de 1973. As rádios anunciavam o golpe de Pinochet. Ao chegar de longa viagem, achei Tito prostrado e gemendo ao pé de uma árvore, no estacionamento frente à portaria de La Corbusière, nosso convento.

Assim estava desde cedo. Ninguém entendia seu choramingo incessante e assustador. Sentei e fiquei ao lado, horas a fio, procurando abrigar o amigo da chuva intermitente. Pelas altas horas da noite, a duras custas, incrédulo, eu comecei a perceber do que Tito tremia e a quem implorava por piedade: era o Fleury, vociferando em (imaginário) alto-falante localizado do outro lado do vale.

Enquanto torturava um após o outro cada um dos seus irmãos, ele bradava insultos contra o Tito: 'comunista, traidor, terrorista, a igreja te jogou fora, você não pisará mais neste chão sagrado, não há mais como tu escapar de mim'. Enquanto ele não se entregasse, continuaria a tortura da família por inteiro: os dez irmãos, o pai, a mãe. E Tito, o caçula, escutava soluços dos seus, entre gritos e imprecações.

Desse dia em diante, Tito pendularia entre o entregar-se e o resistir, como que acuado entre as paredes deste novo 'corredor polonês': morrer vivendo, viver morrendo.

Cumpria-se a louca promessa que recebeu durante as sessões reais de tortura. Em suas próprias palavras, em depoimento: Quiseram-me deixar dependurado toda a noite no pau-de-arara. Mas o capitão Albernaz objetou:

'Não é preciso, vamos ficar com ele aqui mais dias. Se não falar, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis. Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia'

Até que um dia (era em agosto de 1974, na semana de São Domingos), Tito resolveu livrar-se definitivamente do torturador e da loucura que este pretendia infundir-lhe. Neste instante longamente preparado, num último mistério de resistência e de fé, Tito derrubou lhe a pretensão de poder continuar, dia após dia, roubando a sua vida.

'Melhor morrer do que perder a vida. Opção 1: corda (suicídio, Vejube). Opção 2: tortura prolongada, Bacuri', foram umas das últimas palavras que rabiscou no papel.

Entendi assim: minha vida, ninguém tira, é minha. Eu a estou entregando. Prova de amor, maior não há. Se os discípulos se calarem, as próprias pedras gritarão."

'Devo confessar que não acredito que sejamos da mesma raça humana'

Em 1977, três anos depois do suicídio de Tito, a Ação Cristã pela Abolição da Tortura (Acat), organização internacional com presença em vários países, escreveu a 20 policiais brasileiros que torturavam sob a justificativa de defender o Brasil em nome da fé cristã.

Aliás, era muito comum haver crucifixos em salas de tortura. Sim, faz 44 anos, mas parece hoje.

O advogado Guy Aurenche, presidente da Acat França na época, escreveu um texto este ano sobre as cartas. Segundo ele, elas denunciavam a prática dos torturadores e afirmavam que o vínculo com a fé cristã era um completo escândalo.

Tentaram usar argumentos questionando seu comportamento pessoal, frisando que também os viam como seres humanos, capazes de amar seus filhos, ou como crentes. Trago alguns trechos do texto de Aurenche:

"Contra todas as expectativas, recebemos uma resposta do delegado Fleury, o carrasco de Tito, datada de 9 de novembro de 1977. A carta começava com comentários insultuosos denunciando nossa fé, bem como nossa pretensão de defender os direitos humanos. O torturador disse : 'Tenho os pés no chão e a cabeça ao nível do mundo, e não nas nuvens' (...)

O delegado Fleury nos contou uma história que dizia ter lido em um livro e de que gostou muito: 'Uma águia estava chocando ovos e dos ovos saíram pintinhos. Desesperada, ela foi tentada de devorá-los. Após reflexão, a compaixão prevaleceu, na esperança de que um dia, do batalhão de galinhas míopes e cacarejantes, surgisse uma águia para acompanhá-los'.

Fleury se comparava à águia que defende a população brasileira contra as ameaças do comunismo internacional. A história foi escrita por Wilhelm Reich, um autor de origem alemã que se refugiou nos Estados Unidos, descrevia os mecanismos nazistas de superioridade e desumanização. Aos 30 anos e a 8 mil km de distância, o nazismo habitava a filosofia do torturador brasileiro dos anos 1970-80.

O pós-escrito desta carta é o mais fascinante: 'Devo confessar que não acredito que sejamos da mesma raça humana (quero dizer a raça dos homens)', escreveu Fleury.

Em qualquer ato de tortura ou desumanidade, expressa-se a ideia de que a vítima não é mais um ser humano, mas um delinquente, um oponente político, um herege.

O rótulo colado nessa pessoa permite que o torturador a 'torça', já que ela está desumanizada.

Para Fleury, os membros da Acat, assim como as pessoas que ele torturava, não eram mais humanos. Eles pertenciam a uma sub-raça. Assim, tornou-se possível desprezá-los, torturá-los sem escrúpulos e sem hesitação.

'Não consigo, até agora, entender de onde vinha tanto, tanto ódio'

Durante as sessões de tortura realizadas no 36º Distrito Policial (local que abrigou a Oban (Operação Bandeirante) e, posteriormente, o DOI-Codi, na capital paulista), durante a ditadura, os vizinhos do bairro residencial do Paraíso reclamavam dos gritos de dor e desespero que brotavam de lá. As reclamações cessavam com rajadas de metralhadora disparadas para o alto, no pátio, deixando claro que aquilo continuaria até que o sistema decidisse parar. Mas o sistema não parava. O sistema nunca para por conta própria.

A tortura firmava-se como arma da disputa ideológica. Era necessário "quebrar" a pessoa, psicologicamente e fisicamente, pelo que ela era, pelo que representava e pelo que defendia. Não era um ser humano que sofria cada pancada. Era um "sub-humano" impuro, que trazia uma visão de mundo que precisava ser destruída junto com ele.

Ainda hoje, Maria Aparecida Costa tenta entender o que ocorreu. "Tinha mais alguma coisa. Claro que a justificativa era ideológica. Mas tinha mais alguma coisa."

"Porque eles sentiam prazer de verdade no que faziam. Prazer de verdade em torturar."

A noite de Cida Costa, cuja história já contei aqui outras vezes, durou três anos e meio, dos quais dois meses torturada naquele local. "O ódio. Eu não consigo, até agora, entender de onde vinha tanto, tanto ódio."

O Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna DOI-Codi era integrado por membros do Exército, Marinha, Aeronáutica e policiais. E a metodologia desenvolvida durante aquele período e a certeza do "tudo pode" continua provocando vítimas em outras delegacias espalhadas pelo país e nas periferias das grandes cidades.

Muitos dos carrascos, como Fleury, não acreditavam simplesmente estar em uma guerra. Se assim fosse, haveria protocolos internacionais proibindo o que foi feito. Achavam estar em uma missão. O que havia nas celas era, para eles, a representação do mal. E sua missão era extirpar o mal.

Tal qual ouvimos hoje: que há pessoas ou grupos que representam o mal e precisam ser extirpados. Na superfície dessa afirmação, há ódio. Mas se escavarmos um pouco, chegaremos ao medo e, em seguida, à ignorância sobre o outro. Ignorância que não é fruto de um vazio de sentidos, mas de uma construção repleta de preconceitos.

Décadas depois, há quem tente provar que a história se repete sim, não como farsa, mas como delírio. Pois Cida é torturada todos os dias no Brasil sob outros nomes, crenças, gêneros ou cores de pele. Normalmente, jovens, negros e pobres. Sub-humanos. E Tito morre novamente e novamente, "suicidado" como consequência de tortura de agentes do estado, "suicidado" em celas e camburões, "suicidado" em comunidades e assentamentos de todo o país.

Já o torturador Fleury foi encontrado morto em 1979, aos 45 anos. Especula-se que foi "queima de arquivo", pois estaria ganhando dinheiro de empresários e com o crime organizado, não respondendo mais às estruturas de poder. Se vivesse hoje, seria um quadro do governo.