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Leonardo Sakamoto

Com Bolsonaro empurrando vermífugo, laboratório fatura alto com a covid-19

Bolsonaro sugere o uso de produto do chamado "kit covid" em uma live - Facebook/Reprodução
Bolsonaro sugere o uso de produto do chamado 'kit covid' em uma live Imagem: Facebook/Reprodução
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

11/08/2021 17h24

O faturamento da Vitamedic com a venda de ivermectina, usada erroneamente no tratamento da covid-19, saltou de R$ 15,7 milhões, em 2019, para quase R$ 470 milhões no ano passado. O laboratório deveria ser grato e mandar umas latas de leite condensado a Jair Bolsonaro, garoto-propaganda do produto. Se foi um trabalho voluntário ou não, é a CPI da Covid quem deve investigar.

O laboratório admitiu que não fez estudos para atestar a eficácia do produto (originalmente contra sarna, vermes e piolhos) contra a covid, mas, mesmo assim, gastou R$ 717 mil em anúncios que defendiam a mentira de que tratamento precoce com ivermectina funciona.

Isso é mais uma evidência de que a sabotagem perpetrada pelo presidente da República nas medidas de combate à doença (ridicularizando vacinas, atacando isolamento social, promovendo a fraude do kit covid) permitiu que muita gente faturasse um bom cascalho. Em outras palavras, que fizesse da morte em massa um bom negócio.

Em depoimento à CPI da Covid, nesta quarta (11), Jailton Barbosa, diretor da empresa, reconheceu aumento de 60% no preço do medicamento. Credita a elevação à variação no dólar e ao crescimento de custos internos relacionados à pandemia. E afirmou que não vendeu o produto ao Ministério da Saúde, mas despejou diretamente nas prefeituras.

No final, mesmo com as desculpas, ficou claro que a empresa sabia estar lucrando em cima de um naco da população que acredita que o remédio evita mortes. Essa crença levou muita gente a procurar atendimento médico só quando era tarde demais.

Essa expansão comercial contou com uma ajudinha. O presidente Jair Bolsonaro atuou como garoto-propaganda informal do uso do vermífugo da Vitamedic, recomendando-o em lives e em entrevistas, para o tratamento da covid-19.

O então Ministério da Saúde do general Eduardo Pazuello chegou a enviar terraplanistas biológicos para pressionar a Prefeitura de Manaus a distribuir hidroxicloroquina e ivermectina. E deixou de monitorar um insumo que realmente faria a diferença, o oxigênio. Com isso, uma catástrofe atingiu a cidade e muitas pessoas morreram sufocadas.

Na esmagadora maioria dos casos, nosso sistema imunológico é capaz de dar conta da doença, produzindo anticorpos e eliminando o coronavírus. Ao apontar um remédio ineficaz como solução para casos leves, o presidente, na verdade, tenta roubar o mérito por algo que o organismo já faria por conta própria.

E isso cola em uma parte desavisada da população. Afinal, o que tem mais a cara de ser responsável por vencer uma guerra contra uma doença mortal: estruturas microscópicas que cada um tem dentro de si, os glóbulos brancos, ou um produto milagroso distribuído com pompa e circunstância pelo sistema de saúde que é alvo de elogios semanais do presidente em suas lives?

Ah, mas tem os que morrem? Bem, como o próprio Jair diz sempre, todo mundo morre um dia.

A questão é que a ivermectina também tem efeitos colaterais, como foi bem lembrado na CPI da Covid. E pessoas tiveram problemas no fígado por conta do uso de um medicamento receitado, de forma charlatã, pelo presidente da República. O que levou a um laboratório a faturar centenas de milhões de reais.

A Sociedade Brasileira de Infectologia, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, a Associação de Medicina Intensiva Brasileira, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Organização Mundial de Saúde (OMS), ou seja, quem representa o pessoal que está na linha de frente, afirmam que não há tratamento precoce contra a covid.

Até a Merck, empresa farmacêutica que produziu inicialmente a ivermectina, divulgou um comunicado afirmando que seus cientistas procuraram, mas não encontraram evidências que justificassem o emprego do medicamento no tratamento da covid-19.

Atribui-se a Joseph Goebbels, ministro da Propaganda na Alemanha nazista, a ideia de que uma mentira repetida várias vezes se torna verdade. Ou, como dizem os psicólogos, uma ilusão da verdade. A ilusão é tanto eficaz quanto a propensão de grupos de nela acreditarem. E, claro, da capacidade de difusão de quem a conta.

Propagada por um presidente da República, a mentira pode se tornar onipresente. A ponto de ser encarada como mais um detalhe na paisagem. Assim como a morte, em uma pandemia, em um país sem governo.