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Leonardo Sakamoto

Morde e assopra de Bolsonaro encobre sua inflação devorando os pobres

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

10/09/2021 11h04

O recuo fajuto de Bolsonaro encobriu o impacto da divulgação do avanço de sua inflação sobre os pobres. Em 12 meses, o preço da cesta básica subiu 34,1% em Brasília, 25,8% em Campo Grande, 25,7% em Porto Alegre, 24,2% em Florianópolis, 21,5% em Vitória, 21,1% em Natal, 20,8% em São Paulo, 20,1% em Belém, 19,7% no Rio, 19,5% em Fortaleza. Só neste ano, a cesta já saltou 11,1% em Curitiba. Os dados são de levantamento mensal do Dieese, divulgado nesta quarta (8).

Ou seja, enquanto Jair Bolsonaro mantinha, nos últimos dias, o foco do país em suas micaretas golpistas, nos bloqueios chantagistas de seus caminhoneiros e em seu manjado e cansativo recuo tático, os índices de inflação eram divulgados confirmando que o Brasil tá lascado, como avalia o economista Gil do Vigor.

O presidente prefere ser visto como golpista do que como alguém incapaz de estabilizar a economia, gerar empregos de qualidade, garantir comida na mesa dos brasileiros e controlar a inflação. Até porque um golpista é amado pelo naco antidemocrático de seu rebanho, enquanto um incompetente é odiado por todos. Salvo os casos patológicos, claro.

Enquanto isso, o piso do auxílio emergencial pago por Bolsonaro, aquela merreca sem vergonha de R$ 150 que é uma sombra do piso do benefício original aprovado pelo Congresso (R$ 600), compra - segundo o Dieese - apenas 22,6% da cesta básica em Porto Alegre, 22,8% em Florianópolis, 23% em São Paulo e 23,7% no Rio.

Nesta quinta (9), foi a vez do IPCA, a inflação oficial, vir a público, registrando a maior alta para um mês de agosto em 21 anos, 0,87%.

Para deixar claro: da última vez que agosto registrou uma subida tão expressiva nos preços, as Torres Gêmeas ainda estavam de pé, Fernando Henrique era presidente e "Se eu não te amasse tanto assim", com a Ivete Sangalo, estava na lista das mais tocadas nas rádios. De acordo com o IBGE, a taxa para os últimos 12 meses se aproxima dos 10%.

Esse total não inclui apenas alimentação, claro. Por exemplo, os combustíveis subiram quase 3%. Em 2021, a gasolina acumula alta de 31,1%, o etanol, de 40,8% e o diesel, de 29%. Em agosto, a batata inglesa subiu quase 20%, o café em pó, 7,5%, o frango, substituto da carne que está pela hora da morte, 4,5%, frutas 3,9%.

Sem contar a energia, que aumentou 1,1%, após saltar 7,9% em julho. A tendência é mais subida com os reajustes para tentar retardar os apagões na rede elétrica. Sim, mesmo pagando mais o país pode ficar no escuro devido à crise hídrica derivada da incompetência de gestão do governo federal diante das mudanças climáticas.

Considerando que as sabotagens de Jair Bolsonaro estenderam demasiadamente a pandemia, vivemos uma crise mais dura que outros países que administraram melhor a covid-19.

Com um desemprego de 14,4 milhões, de acordo com o IBGE, um auxílio emergencial menor e uma inflação galopante, há menos comida na casa dos pobres.

No final do ano passado, quando o auxílio emergencial era maior, o país somava 19,1 milhões de famintos, de acordo com a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, ou 9% da população. Em 2018, eram 10,3 milhões de brasileiros nessa situação. Pesquisadores avaliam que esses 19,1 mi já ficaram para trás.

Mas para uma parcela dos políticos e analistas, com o recuo fajuto de Bolsonaro, "tudo voltou ao normal" - até que ele volte à carga. O problema é que o "normal", além de uma farsa do ponto de vista político, vem se revelando uma sala de tortura para os mais vulneráveis.

Com sua nota de arrego, Bolsonaro segue a tática de aproximações sucessivas: ataca e recua. Lembrando que cada novo ataque é mais violento que o anterior. Agora, entra a turma do "pronto, tudo voltou ao normal". Não, nada voltou ao normal. Primeiro, porque, daqui a pouco, ele ataca a democracia de novo. E não é normal um país à deriva, sem projeto nacional, com uma equipe econômica sem rumo e uma Câmara do Deputados aprovando projetos para o desmonte de regras ambientais, trabalhistas e eleitorais para atender a poderosos grupos lobistas ou interesses particulares dos congressistas.

Em outubro de 2018, durante a campanha eleitoral, Bolsonaro afirmou em entrevista à Rádio Jornal, de Barretos, que seu objetivo era fazer "o Brasil semelhante àquele que tínhamos há 40, 50 anos atrás". Com inflação alta e o risco de estagnação econômica no ano que vem, ele tem tudo para cumprir suas palavras. Bem-vindos à década de 80.