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Leonardo Sakamoto

Ao suspender vacinação, Queiroga mostra amar mais o cargo do que a ciência

O presidente Jair Bolsonaro, o ministro Marcelo Queiroga e o intérprete de libras Fabiano Guimarães durante transmissão ao vivo - Reprodução
O presidente Jair Bolsonaro, o ministro Marcelo Queiroga e o intérprete de libras Fabiano Guimarães durante transmissão ao vivo Imagem: Reprodução
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

17/09/2021 03h12

O Dr. Jair Bolsonaro, especialista em imunologia pela Universidade do WhatsApp, pressionou o ministro da Saúde a interromper a vacinação de adolescentes contra a covid-19. Como demonstra mais amor pelo cargo do que pela medicina, Marcelo Queiroga o atendeu. Perde a ciência, ganha o bolsonarismo.

A área técnica do Programa Nacional de Imunizações (PNI) não foi consultada antes da decisão, indicando que o interesse público e a saúde coletiva foram deixados de lado para agradar o terraplanismo científico de seguidores e aliados do presidente. Agora, a recomendação de vacinação passa a ser apenas para adolescentes com deficiência, comorbidades ou privados de liberdade. A maioria dos estados vai simplesmente ignorar o governo federal.

Em baixa depois de frustrar os fãs com a arregada tática na sequência das micaretas golpistas de 7 de setembro, Bolsonaro precisava deixar registrado um chamego nos seus, algo que não ficasse só no gogó. Afinal, como já disse uma vez o cartista Michel Temer, "verba volant, scripta manent".

Sem contar que tudo isso é uma bela cortina de fumaça sobre a polêmica armada após reportagem da GloboNews revelar, nesta quinta (16), que a Prevent Senior omitiu mortes em um estudo para ajudar a bombar a eficácia da cloroquina - estudo que foi usados por Bolsonaro para defender o "kit covid". O plano de saúde também teria adotado humanos como cobaias, empurrando o remédio a pacientes sem o consentimento deles.

Bolsonaro teria baseado sua posição sobre a suspensão da vacinação de adolescentes em declarações sobre efeitos colaterais que circulam nas redes sociais de seus apoiadores. Muitos dos quais defendem remédios contra vermes e ozônio no reto para tratar a covid-19.

Já Queiroga citou a morte de um jovem em São Paulo, caso que ainda está sob apuração, disseminando um receio desnecessário e irresponsável. O Ministério da Saúde alerta para reações adversas, mas a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) diz que o número é muito pequeno (0,042%) e recomendou que a vacinação continue.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) não contraindica vacinas em adolescentes, ao contrário do que disse Bolsonaro, apenas não recomenda como prioridade por outro motivo. Ela defende que antes de vacinar grupos menos vulneráveis, o imunizante chegue a quem mais precise, dentro e fora dos países. Especialistas apontam que os riscos de não vacinar os mais jovens é maior do que os efeitos colaterais.

O imunizante da Pfizer, aquele que Bolsonaro rejeitou por meses, chegando ao disparate de acusar o produto de transformar pessoas em jacarés, é o único para o uso a partir dos 12 anos.

Queiroga reconheceu a pressão de Bolsonaro ao afirmar que "o presidente me cobra todo dia essas questões de vacinação, sobretudo com essa questão dos adolescentes".

Depois, em sua live semanal, nesta quinta (16), Jair disse que a conversa com Queiroga "não é uma imposição" e que passa ao ministro "o meu sentimento, o que eu leio, vejo e chega ao meu conhecimento". Ahã... Tanto quanto não era uma imposição a questão da cloroquina? Perguntem o que Luiz Mandetta e Nelson Teich acham do "sentimento" do capitão.

Na mesma live, Bolsonaro voltou a atacar a CoronaVac, em sua guerra particular contra o governador João Doria, e defendeu hidroxicloroquina e ivermectina, remédios sem eficácia contra a covid. E sem termos chegado ao mesmo número de vacinados de outros países que acabaram com o uso de máscaras, o presidente pressiona Queiroga nesse sentido.

Afinal de contas, o que é brincar com a vida de adolescentes se Bolsonaro já colocou em risco as vidas de um país inteiro?