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Leonardo Sakamoto

Com camarão dado por apoiadores, MTST fará almoço para centenas de sem-teto

Wagner Moura come marmita de acarajé com camarão em ocupação do MTST - Reprodução/Twitter
Wagner Moura come marmita de acarajé com camarão em ocupação do MTST Imagem: Reprodução/Twitter
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

16/11/2021 18h38

Com doações de apoiadores, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) fará um almoço para os integrantes da ocupação Carolina de Jesus, em São Mateus, zona leste da capital paulista, na tarde do próximo domingo (21). No cardápio, camarão.

Após marmitas de acarajé, que incluíam, por óbvio, o crustáceo, serem doadas para a estreia do filme Marighella, realizada em uma ocupação do MTST, em São Paulo, e a imagem do diretor Wagner Moura comendo a quentinha viralizar, bolsonaristas acenderam uma polêmica nas redes, afirmando que camarão é comida de rico.

Bel Coelho, uma das mais importantes chefs de cozinha do país, está ajudando a organizar o almoço no MTST. O evento, para ela, não é uma reação, mas uma ação de valorização da nossa cultura alimentar frente à ignorância de comentários que desconhecem a realidade brasileira.

"Obviamente que há dificuldade de acesso a um camarão tigre, um camarão rosa grande, porque são caros. Mas o camarão seco é uma comida popular e base de muitas receitas da culinária de terreiro", explicou à coluna. "Temos que falar do acarajé, da comida de santo, da cultura afrodescendente e de como ela é fundamental na identidade da cultura alimentar brasileira."

Voluntários das cozinhas solidárias, que preparam refeições para os acampamentos do MTST, vão garantir mão de obra para a empreitada. E o restaurante Acarajazz, que doou as quentinhas no lançamento de Marighella, também irá cozinhar para os sem-teto.

'Nossa vida não pode ser apenas fila para comprar osso'

"Vamos fazer acarajé, bobó de camarão, talvez até camarão na moranga. O povo pobre não pode comer comida boa? Pode sim. Nossa vida não pode ser apenas arroz e feijão e fila para comprar osso", afirmou à coluna Gilvânia Gonçalves, uma das organizadoras da Carolina de Jesus. Também serão servidos outros pratos, como feijoada.

A ocupação tem o nome da escritora, poetisa e compositora mineira, autora do livro "Quarto de Despejo", que viveu boa parte de sua vida em uma favela na zona norte de São Paulo. O país da polêmica do camarão é o mesmo que, em determinado momento, questionou se a produção intelectual de uma negra e favelada poderia ser considerada literatura de qualidade. À revelia da polêmica, Carolina foi traduzida para mais de 14 idiomas.

De acordo com Gilvânia, as 4250 pessoas da ocupação reivindicam, há seis meses, um terreno sem uso com 57 mil metros quadrados de área para a construção de moradias populares.

Ela conta que a enxurrada de declarações preconceituosas contra os sem-teto e os pobres deixou muita gente chateada e revoltada na periferia. E lembra que, muitas vezes, um prato com camarão sai bem mais barato do que com carne bovina. "Ainda mais com essa inflação."

O coordenador nacional do MTST, Guilherme Boulos, afirmou à coluna que essa é a resposta do movimento às declarações preconceituosas de bolsonaristas sobre o acarajé que Wagner Moura comeu na ocupação do MTST.

"Essa gente se indigna mais com pobre comendo bem do que com gente fazendo fila atrás de osso ou lutando por restos do caminhão de lixo", conclui Boulos.