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Leonardo Sakamoto

A pandemia não acabará se não vacinarmos os países pobres, alerta cientista

Sebastian Castaneda/Reuters
Imagem: Sebastian Castaneda/Reuters
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

27/11/2021 11h42

"A variante ômicron não é a primeira que vai surgir em países pobres que não conseguem vacinar toda a sua população, nem será a última. Ou desenvolvemos um plano efetivo para imunizar o planeta ou a pandemia não vai acabar. Ninguém está seguro até que todos estejam seguros."

O alerta é da microbiologista e diretora do Instituto Questão de Saúde, Natália Pasternak, que conversou com a coluna neste sábado (27), após o temor da nova variante ocupar as manchetes e derrubar mercados.

Segundo ela, locais com baixos índices de vacinação e com alta interação social funcionam como caldeirões de produção de novas variantes. E uma delas pode, mais cedo ou mais tarde, atropelar a proteção trazida pelas vacinas que existem hoje no mercado.

Ironicamente, se em alguns países com índice de desenvolvimento humano mais elevado, temos baixas taxas de imunização por conta de campanhas de grupos antivacina, em locais pobres temos pessoas ansiosas pelo imunizante, mas que não podem se vacinar porque elas não estão disponíveis.

Pasternak avalia que a variante ômicron, primeiro registrada na África do Sul, ainda precisa ser analisada para verificar se suas mutações são capazes de escapar às vacinas e se ela é mais transmissível que a variante delta, responsável por ondas de contaminação na Europa. Mas que essa situação reforça que os países ricos achavam que resolveriam seus problemas imunizando a sua própria população. E quando a incômoda verdade ressurge com as variantes, eles fecham fronteiras.

"E fronteira fechada não resolve o problema porque, quando detectamos a existência de uma nova variante, ela já se espalhou. É ingênuo achar que podemos bloquear totalmente variantes de vírus", afirma. "Se os países mais pobres não forem vacinados, iremos ficar abrindo e fechando fronteiras por anos."

Ela também alerta para o risco de relacionar o Sul da África à nova variante do coronavírus, o que pode aumentar o racismo e a xenofobia. No ano passado, houve casos de preconceito contra cidadãos orientais em diversos países, entre eles o Brasil, por conta do surgimento do Sars-Cov-2, primeiro registrado em Wuhan, na China.

Inclusive uma das razões das variantes serem chamadas por letras do alfabeto grego é evitar que continuassem a ser batizadas informalmente com o local onde ganharam fama.

Brasil precisa exigir certificado de vacinação para entrar no país

A microbiologista afirma que o Brasil precisa aprofundar a testagem e exigir passaporte ou certificado de vacinação. Isso foi recomendado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ao governo brasileiro para a entrada em nosso território, mas o ministro da Justiça, Anderson Torres, já adiantou que é contra - reforçando um posicionamento do presidente Jair Bolsonaro a respeito do tema.

A entrada no país através de voos internacionais vem demandando apenas o resultado negativo de um teste de covid-19 e uma declaração de saúde, indo na contramão do que vêm fazendo outros governos. Já as fronteiras terrestres estão fechadas, com algumas exceções. Bolsonaro quer evitar bater de frente com parte do seu eleitorado, contrário à obrigatoriedade da vacinação.

Para Pasternak, organismos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde, precisam aprofundar os esforços para um plano efetivo de ação imediatamente. O consórcio Covax falhou nesse sentido, tendo sido incapaz de distribuir o número de doses prometido - o que, segundo ela, esbarrou na boa vontade dos fabricantes de vacinas e suas patentes. E cita que o imunizante Novavax, expectativa para a distribuição aos países pobres, não conseguiu ainda produzir em escala.

"Vacinar contra a varíola levou dez anos décadas atrás. A situação é diferente agora, com um mundo mais globalizado e com mais capacidade de logística. Mas temos que nos preparar para o processo", afirma.

Além de governos e organizações terem que implementar um plano global para vacinar o mundo inteiro, os fabricantes de vacinas vão ter que redesenhar os seus produtos caso se comprove que variantes de preocupação escapam às suas vacinas. "Temos vacinas versáteis que permitem isso", diz.

O mundo, de acordo com a avaliação da cientista, vai ter que, no pós-pandemia, repensar as organizações globais de saúde, dando mais poder real a elas. "A saúde pública se tornou um problema globalizado. Essas organizações terão que ter mais poder de atuação no lugar de ações de aconselhamento para poderem garantir qualidade de vida", conclui.