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Leonardo Sakamoto

De volta ao centrão, Bolsonaro não descarta corrupção em seu governo

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

06/12/2021 13h06

Jair Bolsonaro (PL) costumava afirmar que a sua chegada ao poder havia eliminado a corrupção do governo federal. Contudo, menos de uma semana após sua filiação ao partido de Valdemar da Costa Neto, ocorrida no dia 30, usa outro tom que deve ser a tônica dos novos tempos. "Não vou dizer que no meu governo não tem corrupção, porque a gente não sabe o que acontece muitas vezes", disse a apoiadores em frente ao Palácio do Alvorada nesta segunda (6).

É um alívio que ele abrace esse discurso. Porque era uma ofensa à inteligência do cidadão brasileiro ver um governo que articula com o Congresso Nacional um mecanismo de distribuição de bilhões em emendas parlamentares via orçamento secreto visando a bloquear o impeachment do presidente afirmar que não há corrupção.

O mercado de compra de votos dos parlamentares, que vem sendo chamado de Bolsolão, foi revelado, em maio, por investigação do jornal O Estado de S.Paulo. O STF bloqueou a farra, exigindo transparência na distribuição de recursos, mas os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), lutam para manter os repasses já feitos sob sigilo.

Se Bolsonaro não acredita que isso não é errado terá que chancelar como mentirosas as denúncias de aquisição de apoio no Congresso por parte do governo Lula no que ficou conhecido como mensalão.

O mesmo centrão fisiológico, que garante suporte em troca de recursos para ajudar em sua reeleição, foi o lugar escolhido para Jair se abrigar. O patriarca das rachadinhas não apenas voltou ao seu lar, como também garantiu um naco do seu governo aos indicados do centrão - fazendo o oposto do que havia prometido na campanha. E, com isso, reafirmou os problemas que já conhecemos de confusão entre o que é público e o que é privado.

Bolsonaro jurou de pés juntos que não havia mais corrupção

Por exemplo, em 7 de outubro do ano passado, o presidente afirmou que havia acabado com a operação Lava Jato porque, segundo ele, não há mais corrupção no governo.

"É um orgulho, uma satisfação que eu tenho dizer a essa imprensa maravilhosa nossa que eu não quero acabar com a Lava Jato. Eu acabei com a Lava Jato porque não tem mais corrupção no governo. Eu sei que isso não é virtude, é obrigação", afirmou.

Não foi ele quem acabou com a operação, na verdade foram os próprios membros da força tarefa que se implodiram ao passarem por cima da lei para atingir seus objetivos. Mas há aliados do presidente que tiveram papel fundamental na derrocada da operação, como o procurador-geral da República, Augusto Aras.

Já em seu discurso de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 21 de setembro deste ano, Jair falou para o mundo: "Venho aqui mostrar o Brasil diferente daquilo publicado em jornais ou visto em televisões. O Brasil mudou, e muito, depois que assumimos o governo em janeiro de 2019. Estamos há dois anos e oito meses sem qualquer caso concreto de corrupção".

Naquele momento, a CPI da Covid desnudava ao país que, nos intestinos do incorruptível governo Bolsonaro, ocorreram negociações de cambalachos e maracutais para a venda superfaturada de vacinas e outros insumos.

Isso envolveu pedidos de propina bilionários, com um articulações que lembravam, e muito, o microcosmo da cidade de Sucupira, de "O Bem Amado", novela de Dias Gomes, envolvendo políticos, coronéis, policiais, religiosos e servidores públicos.

Após reconhecer, nesta segunda, que não pode dizer se há corrupção ou não em seu governo, Bolsonaro afirmou: "Se tiver qualquer problema no meu governo, a gente vai investigar isso. Eu não posso dar conta de mais de 20 mil servidores comissionados, ministérios com mais de 300 mil funcionários. A grande maioria são pessoas honestas, tá ok?"

A grande maioria dos servidores de carreira e comissionados é composta de honestos, o problema é a minoria silenciosa.

Fãs acreditam em tudo o que Bolsonaro diz, inclusive no fim da corrupção

Há uma parcela de 15% da população que acredita em absolutamente tudo o que Jair diz, segundo o Datafolha. Esses fanáticos creem que há um complô contra seu "mito" e que Fabrício Queiroz, seu amigo, é um trabalhador honesto e injustiçado.

Esse grupo até põe fé quando Bolsonaro diz que acabou com a corrupção no Brasil e diga que garantiu transparência total - mesmo que, logo depois, ameace meter a porrada na boca de um jornalista que perguntou a razão de Queiroz ter depositado R$ 89 mil na conta da primeira-dama, Michelle.

Mas há uma parcela dos bolsonaristas radicais que sabe que Messias é mito, mas não é santo - e não se importa com isso. Para eles, não há problema algum se o bolsonarismo no poder tirar o seu cascalho. Pelo contrário, acham isso justo uma vez que eles estariam ajudando a livrar o Brasil do fantasma do comunismo.

Alerta de spoiler: o Brasil nunca foi um país comunista, mas o delírio é livre. A preocupação desse grupo específico com o combate à corrupção é uma fraude tão grande quanto a honestidade do presidente da República.

Tradutor: Após abraar cen