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'E o Adélio?': Bolsonaristas comparam caso Bruno e Dom ao da facada em Jair

Polícia Federal
Imagem: Polícia Federal
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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

18/06/2022 13h52

Após a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) discordar da Polícia Federal, que afirmou que não há mandante ou organização criminosa por trás das execuções de Bruno Pereira e Dom Phillips poucos dias após aberto o inquérito, bolsonaristas nas redes sociais tentaram surfar politicamente na comoção. Compararam, de forma bizarra, a investigação do caso com a do atentado contra o então candidato Jair Bolsonaro em 6 de setembro de 2018.

"Mandantes dessas mortes vocês querem saber, mas quem mandou o Adélio Bispo dar a facada, não", "se revelarem os mandantes desses dois também quero o mandante do atentado no presidente" e "a indignação de vocês é hipócrita porque não se indignaram com o crime não resolvido contra o presidente", entre outras.

A comparação não é apenas um atentado à inteligência, mas um desrespeito tanto ao indigenista e ao jornalista inglês, bem como às suas famílias. Além da insensibilidade diante do fato que Jair está vivo e os dois, não, a PF investigou por anos, sob o próprio governo Bolsonaro, e considerou que a facada não teve um mandante.

Os indígenas, que foram os primeiros a realizarem buscas pelos desaparecidos e também os responsáveis por apontar a área em que os corpos foram encontrados, denunciam que os envolvidos nas mortes estão conectados ao crime organizado na região, que utiliza a pesca e a caça ilegal para lavar dinheiro do tráfico.

Diante disso, caberia à PF manter a linha de investigação que considera a hipótese de mandantes antes de descartá-la precocemente. Amarildo Oliveira, conhecido como "Pelado", que confessou os assassinatos, foi preso no dia 7, ou seja, um prazo muito curto para cravar certezas em um ambiente tão complexo quanto os interesses dos criminosos que exploram o Vale do Javari.

Por outro lado, o caso Adélio Bispo foi exaustivamente analisado pela Polícia Federal e a solução só não é aceita até hoje porque Bolsonaro não concorda com uma investigação que não chancele sua narrativa de que houve uma grande conspiração política para assassiná-lo.

O laudo psiquiátrico apontou que o Adélio tem transtorno delirante permanente paranoide e, por conta disso, a Justiça Federal o considerou inimputável. Ele está internado, por tempo indeterminado.

Apesar de uma investigação inicial da Polícia Federal ter sido encerrada 22 dias depois do crime, outro inquérito para buscar mandantes teve sua conclusão em 13 de maio de 2020.

Após analisar 2 terabytes de arquivos de imagens, incluindo 350 horas de vídeo, 1200 fotos e documentos, realizar 23 laudos periciais, entrevistar 102 pessoas em campo, ouvir 89 testemunhas, quebrar sigilos telefônicos, bancários e fiscais, escrutinar milhares de mensagens eletrônicas recebidas e enviadas pelo criminoso e averiguar até denúncias doidas que corriam pelas redes sociais, a PF afirmou que Adélio Bispo agiu sozinho, por iniciativa própria e sem a ajuda de terceiros.

Espera-se a mesma dedicação do órgão no caso de Bruno e Dom que ocorreu neste caso. Ou em outros.

Por exemplo, em 28 de janeiro de 2004, quatro funcionários do Ministério do Trabalho foram emboscados e mortos no noroeste de Minas Gerais do que ficou conhecida como a Chacina de Unaí. Após uma investigação de fôlego, a PF anunciou somente em julho quem eram os executores, os intermediários e os mandantes, entre eles, os irmãos Antério e Norberto Mânica.

O Tribunal Regional Federal da 1ª Região mandou reabrir a investigação a pedido de Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro, em novembro do ano passado. O alvo agora é um dos advogados de Adélio. E, neste ano, o governo colocou um novo delegado para cuidar da investigação, substituindo outro que havia sido alvo de críticas de Jair.

Comparar uma investigação que já chegou a uma conclusão, depois chegou à mesma conclusão e, agora, foi reaberta de novo por necessidade política do presidente, com outra que foi aberta há poucos dias, é tentar surfar sobre a dignidade dos mortos.

Não que o presidente se preocupe com isso. Ele não foi até Atalaia do Norte (AM) quando as buscas estavam sendo realizadas para demonstrar apoio, mas deve realizar uma motociata, neste sábado (18), em Manaus, como parte de seu calendário eleitoral.

Afinal, como o próprio presidente gosta de repetir, "a gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo".