PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

À espera dos R$ 600, imagem de Bolsonaro melhora entre quem recebe Auxílio

Centenas de baianos amanheceram na fila do CadÚnico para tentar entrar na fila do Auxílio Brasil - BandNews FM Salvador
Centenas de baianos amanheceram na fila do CadÚnico para tentar entrar na fila do Auxílio Brasil Imagem: BandNews FM Salvador
só para assinantes
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

03/08/2022 09h07

Receba os novos posts desta coluna no seu e-mail

Email inválido

A avaliação negativa do governo Jair Bolsonaro caiu de 53% para 39%, de janeiro a agosto, entre os beneficiários do Auxilio Brasil, de acordo com novo levantamento da pesquisa Genial/Quaest, divulgado nesta quarta (3). O aumento de R$ 400 para R$ 600 começa a ser pago na próxima terça (9) para mais de 20 milhões de famílias, ou quase 56 milhões de pessoas, diante da expectativa bolsonarista de crescimento de voto entre os mais pobres - o que ainda não aconteceu.

No mesmo período, a avaliação positiva de Bolsonaro subiu de 18% para 28%. Já entre quem não recebe o benefício, a reprovação variou menos, indo de 50% para 44% e a aprovação, de 23% para 28% no mesmo período.

Nas famílias que ganham até dois salários mínimos mensais, a reprovação a Bolsonaro passou de 49% para 43% entre julho e agosto e a positiva subiu de 22% para 24%.

A melhora na avaliação do governo junto às parcelas mais pobres não se traduziu ainda em uma alteração significativa nas intenções de voto dos dois candidatos mais bem colocados na corrida presidencial. Na pesquisa da Genial/Quaest, Lula marca 44% e Bolsonaro, 32%. Ao longo dos meses, o atual mandatário vem reduzindo lentamente a distância para o petista - em junho, por exemplo, a situação estava em 46% a 30%, e a vitória em primeiro turno era uma possibilidade que não dependia da margem de erro, de dois pontos.

Lula foi de 55% para 52%, entre julho e agosto, entre quem recebe dois salários mínimos, enquanto Bolsonaro passou de 22% para 25%. Mas entre quem recebe o Auxílio Brasil, Lula foi de 62% para 52% e Bolsonaro, de 27% para 29% no mesmo período. Para efeito de comparação: entre quem não recebe, a intenção dos dois oscilou dentro da margem de erro.

O que não significa que Lula não perdeu voto para Bolsonaro entre os mais pobres - pouco, mas perdeu. Como já mostrei aqui, ambos compartilham um naco de 20% do eleitorado, atraídos pela lembrança de segurança material do governo do petista, mas também pelo discurso de comportamento e costumes do atual presidente. Se a economia está ruim, tendem a votar com o bolso. Se a economia melhora, votam com a ideologia.

O presidente da República se beneficiou de uma expectativa de recebimento do aumento do Auxílio Brasil de R$ 600, previsto na PEC da Compra de Votos, aprovada pelo Congresso Nacional. De acordo com a pesquisa, 82% já ficaram sabendo do aumento.

Mas há uma situação de compasso de espera para ver se a expectativa se materializa em melhora na qualidade de vida, o que pode se traduzir em transferência de votos para Bolsonaro.

Ainda não se sabe o que acontecerá quando o eleitor mais pobre perceber que os R$ 600 do Auxílio Brasil hoje não compram a mesma quantidade de alimentos que os R$ 600 do auxílio emergencial do primeiro semestre de 2020. Entre um e outro, tivemos uma insistente inflação de dois dígitos, que corroeu o poder de compra e ajudou a fome a saltar de 19,1 milhões para 33,1 milhões de brasileiros.

A economia é apontada como o principal problema do país por 40% dos entrevistados. Nela, a inflação foi considerada a principal dor de cabeça de 23%, dos brasileiros em junho e 16%, em agosto.

Já nas questões sociais, apontadas por 20% como o principal problema do país, a fome e a miséria passaram de 8%, em junho, para 16%, em agosto, como a maior preocupação. Entre quem ganha até dois salários mínimos, esse índice passou de 17% em julho para 21% em agosto.

A avaliação de que a economia piorou no último ano no Brasil foi de 73%, em novembro de 2021, para 56%, neste mês de agosto, considerando a população em geral. Entre os que ganham até dois salários mínimos, foi de 67%, em julho, para 58%, em agosto, e entre os que recebem o auxílio, foi de 63% para 59%.

A inflação está arrefecendo aos poucos, inclusive por conta das ações do governo em cortar impostos de combustíveis à força, mas a manutenção dos preços altos ainda inviabiliza a vida dos mais pobres. A quantidade de famílias que ganham até dois salários mínimos que tiveram piora na capacidade de pagar contas oscilou de 61% para 62% entre julho e agosto, segundo a Genial/Quaest.

A rejeição do presidente variou de 59% para 55% e a de Lula, de 41% para 44%. Com uma taxa acima de 50%, dificilmente alguém se (re)elege presidente.

Famílias estão vendendo bens para comprar comida

A nova pesquisa Datafolha, divulgada nesta terça (2), apontou que 17% das famílias tiveram que vender algum bem ou objeto de valor nos últimos meses para adquirir alimentos e itens básicos. A situação é pior entre aquelas que recebem até dois salários mínimos por mês (24% venderam bens), as que são beneficiadas pelo Auxílio Brasil (27%) e as que estão desempregadas (32%). A margem de erro é de dois pontos.

O mesmo Datafolha apontou que um em cada três brasileiros afirma que a quantidade de comida em casa nos últimos meses não foi suficiente para alimentar a família. O total nessa situação passou de 26%, em maio, para 33%, em julho.

Dos entrevistados, 23% dizem que substituíram leite por soro de leite. E 20% consumiram sobras de frango e carne ou pele de frango.