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Jair, seu I love you não comoveu o Trump

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos - Jonathan Ernst/Reuters
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos Imagem: Jonathan Ernst/Reuters
Maurício Ricardo

Maurício Ricardo é jornalista, cartunista e empresário no segmento da Educação. Formado em História, é um dos produtores pioneiros de conteúdo multimídia para a Internet brasileira. É criador do premiado site de animações Charges.com.br, lançado em fevereiro de 2000. Em 2019 migrou suas análises políticas, no formato vlog, para o canal de YouTube ?Fala, M.R.?. Lá, compartilha suas visões sobre política, cotidiano, música e tecnologia, que ganham também versões em texto nesta coluna.

Colunista do UOL

02/12/2019 19h21

Hoje amargamente "Jair I Love You Bolsonaro" descobriu que, para Donald Trump, ele e "Alberto Esquerdopata Fernández" são farinha do mesmo saco: o saco destinado às republiquetas de banana da América do Sul.

Se algum dia houve realmente a esperança de uma proximidade por afinidades políticas, ela já se foi. Nem todo o alinhamento com a alt-right dos EUA talvez tenha sido suficiente para Trump aprender que a capital do Brasil não é Buenos Aires.

Bolsonaro provou do próprio veneno: sentiu o gosto amargo das fake news quando elas surgem em perfis oficiais de mandatários que aconselham seu eleitorado a parar de consumir informação de quaisquer fontes que não as deles próprios.

Com mesma desfaçatez com que o presidente brasileiro afirmou que Leonardo DiCaprio faz parte de um complô para queimar a Amazônia, Trump acusou Brasil a Argentina de desvalorizarem suas moedas de propósito. E para defender os agricultores americanos, vai retaliar ambos os países com isonomia, restaurando as tarifas sobre importação de aço e alumínio dos dois países. Ou seja: bater continência para a bandeira dos EUA realmente não tem efeito diplomático.

Negação

Bolsonaro está em processo de negação. Disse que tem um "canal aberto" com Trump e que pode usá-lo para discutir o problema "se for o caso". Só se esquece de que, para ser realmente uma linha direta entre dois iguais, o canal não deveria ter mão única: por que Trump não fez uso dele e tentou resolver o problema direto com seu... brother?

Em vez disso preferiu divulgar, através de um post frio de Twitter, não apenas sua bronca com Brasil e Argentina, mas também o que faria em represália.

Quando o amor não é correspondido dá para se perceber os sinais.

Bolsonaro nem se dignou a parabenizar Alberto Fernández, o presidente eleito da nossa vizinha e parceira Argentina, só porque ele é de Esquerda. Um exagero de fidelidade ideológica. Trump, ao contrário, não só parabenizou como profetizou que Fernández "Vai fazer um trabalho fantástico". Garantiu que iria instruir o FMI a ajudar a Argentina sob a batuta do esquerdista e ainda reforçou sua intenção de dar match completando: "Não hesite em me ligar". Hm. Significa.

Resta saber se a ligação será pelo mesmo "canal aberto" que o presidente brasileiro diz ter com Trump. Inclusive para Bolsonaro saber que seu vizinho e adversário ideológico pode estar na linha, caso o telefone dê sinal de ocupado.