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Bolsonaro se vinga dos artistas

Maurício Ricardo

Maurício Ricardo é jornalista, cartunista e empresário no segmento da Educação. Formado em História, é um dos produtores pioneiros de conteúdo multimídia para a Internet brasileira. É criador do premiado site de animações Charges.com.br, lançado em fevereiro de 2000. Em 2019 migrou suas análises políticas, no formato vlog, para o canal de YouTube ?Fala, M.R.?. Lá, compartilha suas visões sobre política, cotidiano, música e tecnologia, que ganham também versões em texto nesta coluna.

Colunista do UOL

03/12/2019 13h05

Ontem o presidente Jair Bolsonaro - provavelmente em conjunto com o Rasputin da família, o autodenominado filósofo, Olavo de Carvalho -, desferiu seu golpe mais contundente contra a classe artística e intelectual brasileira. O plano de vingança é tão cruel que poderia ter sido inspirado nos vilões de quadrinhos, se Olavo considerasse quadrinhos "cultura".

Ou se Bolsonaro tivesse alguma graphic novel no criado mudo, ao lado de seu exemplar (já gasto pelo manuseio) de "A verdade sufocada", de Carlos Brilhante Ustra. Não há evidências de que ele tenha lido qualquer outro livro.

Vendeta

A vendeta se consumou com a nomeação dos olavistas Rafael Nogueira para a presidência da Biblioteca Nacional e do maestro Dante Mantovani para a direção da Funarte (Fundação Nacional das Artes). O primeiro acha que citações de Renato Russo e Caetano Veloso ajudam a aumentar o analfabetismo. O segundo... bem, deixe ele mesmo falar:

"Prove que a Terra é uma bola de água giratória. Aposto que vai adiar essa prova ad aeternum e citar como fonte inquestionável o estudo fotográfico da Nasa, que tem sim ótimos desenhistas, alguns inclusive que já revelaram as fraudes praticadas por lá".

Terraplanista na Funarte

Sim, o presidente da Funarte é terraplanista. E Bolsonaro deve estar gargalhando só de imaginar a cara dos cientistas que assinaram aquelas listas de "Ele não" ano passado. Afinal, um de seus ministros foi astronauta.

Mas Dante Mantovani, que é doutor em música, não para por aí: ele tem ideias bastante pitorescas relacionadas à sua área de formação. Repercutindo Olavo, Montovani (que também é YouTuber) disse que os Beatles estavam a serviço da Escola de Frankfurt (grupo de filósofos marxistas alemães) para ajudar a implantar o comunismo no mundo.

Cadeia de eventos

O presidente da Funarte, também em seus vídeos, organizou uma bizarra cadeia de eventos, segundo a qual:

"Uma coisa ativa a outra, né? Na verdade é assim: o rock ativa a droga, que ativa o sexo que ativa a indústria do aborto e a indústria do aborto por sua vez, alimenta uma coisa muito mais pesada, que é o satanismo. O próprio John Lennon disse várias vezes que fez um pacto com o diabo".

Como roqueiro com 30 anos de palcos e fã dos Beatles (eu costumava ser o Paul em uma banda cover nos anos 90) os absurdos sobre o rock e a banda inglesa foram os que mais me insultaram. Afinal, o fomento à Música é uma das funções da Funarte. E música é muito mais ampla, como manifestação cultural, do que as complexas orquestrações dos compositores eruditos ocidentais.

Guerra perdida

Mas como aprendi no tratado anti-olavista "Tudo o que você precisou desaprender para virar um idiota", do Meteoro Brasil (Editora Planeta), não adianta tentar trazer um conspiracionista à luz da verdade. Um globalista, por exemplo, durante um curso acadêmico que comprova "que o mundo é muito mais complexo do que a conspiração sugere", pode ignorar a evidência, "substituindo-a pela convicção de que o professor que a apresentou é também um agente do globalismo, agindo para doutrina-lo".

Ou seja: a guerra da luz contra as trevas já começa perdida.

Só nos resta - jornalistas, cientistas e cidadãos - combater desinformação com informação, evitando que a praga da anticiência e das teorias conspiratórias mirabolantes atinja pessoas menos convictas, que ainda possam ser resgatadas.

Como não conseguiria, sozinho, refutar todas as distorções de conhecimento humano professadas por Olavo de Carvalho, uma vez que elas podem envolver campos tão diversos quanto a química ("Há fetos de bebês no adoçante da Pepsi, hã?) quanto a religião ("Os EUA são o país onde os negros vivem melhor no mundo porque lá eles não fazem macumba"), vou optar por tentar salvar o legado dos Beatles. (Confira no texto abaixo)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.