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Mauricio Stycer

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Maior narrador do país, Galvão vinha se despedindo da Globo desde 2010

Galvão Bueno anunciou que o seu vínculo fixo com a Globo se encerrá em dezembro deste ano - Reprodução / Internet
Galvão Bueno anunciou que o seu vínculo fixo com a Globo se encerrá em dezembro deste ano Imagem: Reprodução / Internet
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Mauricio Stycer

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Adeus, Controle Remoto" (editora Arquipélago, 2016), "História do Lance! ? Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo? (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011). Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Colunista do UOL

24/03/2022 18h51

Ao final de Espanha 1 x 0 Holanda, em 12 de julho de 2010, em Johannesburgo, Galvão Bueno anunciou que aquela havia sido a última transmissão de uma partida de Copa do Mundo no exterior. E avisou que se aposentaria após a final da Copa de 2014, no Maracanã:

"Fecha-se um ciclo. Uma história que tem muitos anos. Posso dizer que fiz milhões de amigos. Tenho que estar emocionado e feliz, até porque a próxima Copa é no Brasil. Depois disso pode ser que eu esteja lá, mas não trabalharei, só assistirei".

Suspeito que aquele anúncio em 2010 tenha sido influenciado pela inédita rejeição que o narrador sofreu durante a Copa, o famoso "cala boca, Galvão", que nasceu no Twitter e se alastrou a ponto de pousar no "The New York Times".

"Foi como se um míssil nuclear tivesse caído na minha cabeça", descreveu em sua autobiografia, lançada em 2015. "O nome do livro 'Fala, Galvão!' é uma resposta ao 'Cala a Boca, Galvão'. Eu sei que sou amado e odiado, como todo mundo", explicou na ocasião.

Ainda na África do Sul, ao anunciar que se aposentaria depois da Copa de 2014, o maior narrador do país certamente tinha um roteiro em mente, que incluía, claro, uma final no Maracanã com a seleção brasileira em campo. O 7 a 1 foi um golpe duro e doloroso, difícil de digerir.

No livro lançado no ano seguinte, Galvão fez uma discreta crítica ao trabalho de Felipão e Parreira na Copa de 2014. Na visão do narrador, o maior pecado da dupla foi elevar a expectativa dos brasileiros afirmando que o Brasil iria ganhar o Mundial. E criticou a incompetência - "não sei de quem" - de deixar a seleção sem nenhum jogo no Maracanã, na certeza de que ela jogaria a final no estádio.

O fato é que em setembro de 2014, após a Copa, Galvão renovou seu contrato até 2018. Estava adiada a aposentadoria e mais uma vez mantida a esperança de narrar, quem sabe, uma terceira Copa vencida pelo Brasil - Galvão é a voz das Copas de 1994 e 2002, a primeira por causa do "É tetra!" e a segunda porque, além de ter feito um ótimo trabalho, a Globo adquiriu os direitos com exclusividade.

Ao final de França 4 x 2 Croácia, em 15 de julho de 2018, Galvão voltou a tratar de sua aposentadoria. Emocionado com o depoimento de Casagrande sobre o desafio cumprido de "permanecer sóbrio e voltar para minha casa sóbrio" e a despedida de Arnaldo Cesar Coelho, o narrador fez um discurso que confundiu muita gente.

Ao vivo, no fim da transmissão da Globo, ele disse: "Não sei se é minha última Copa do Mundo narrando. Talvez seja. Comecei em 74, mas se tiver sido minha última Copa narrando, e provavelmente seja, foi especial, emocionante, maravilhosa, como se tivesse sido a primeira. Foi uma Copa realmente de mexer com o coração de todos nós".

Diante da comoção causada, pouco depois Galvão foi ao Instagram e corrigiu: "As pessoas às vezes não entendem o que eu falo. Eu disse que talvez tenha sido minha última narração de final de Copa do Mundo depois de 12 Copas. Eu quero estar no Qatar. O Arnaldo vai estar lá, nem que seja de turista. Vai estar do meu lado, pra me ajudar, porque eu não sei mais trabalhar sem ele".

Em 11 de dezembro de 2018, a Globo anunciou a renovação do contrato de Galvão por mais quatro anos, até dezembro de 2022, incluindo, claro, a Copa no Qatar. Creio que até este momento, a emissora jamais havia tomado a iniciativa de propor a aposentadoria ou o fim do vínculo com o narrador.

Algumas coisas aconteceram depois disso. Em março de 2020, Galvão já não tinha tanta certeza que narraria no Qatar. "Em 2022, vai narrar Brasil campeão da Copa?", perguntou Rivelino, no "Altas Horas". "Narrar 22 não vai dar, não. O projeto é estar lá. São 12 Copas, está bom", afirmou Galvão.

Naquele ano, a Globo intensificou o seu plano de enxugamento de custos e encerramento de contratos fixos com grandes nomes que trabalhavam na emissora havia décadas. Renato Aragão, Aguinaldo Silva, Miguel Falabella, Zeca Camargo, Vera Fischer e José de Abreu, entre outros, não tiveram seus contratos renovados. Desde então, a Globo diz que está implantando um novo modelo de "gestão de talentos".

O ânimo de Galvão mudou em 11 de abril de 2021, quando voltou a narrar uma partida depois de 14 meses, a disputa da Supercopa do Brasil entre Flamengo e Palmeiras. Comemorando o fato de já ter tomado duas doses da vacina contra covid-19, disse. "A emoção toma conta de mim. Não é uma vitória minha, é uma vitória de Deus e da ciência, é uma vitória da vacina. Viva a vida!", festejou.

"Poder estar aqui de novo depois de 47 anos de história, completados agora em março. Catorze meses depois voltando a narrar um jogo, e que jogo!", disse, emocionado. Foi uma volta triunfal que, creio, ajudou o narrador a vislumbrar a possibilidade de se aposentar de alto astral.

É o que foi sinalizado nesta quinta-feira (24). Desta vez, ao que tudo indica, o fim do vínculo fixo, como ocorreu com tantos outros figurões da Globo, é para valer. A nota divulgada pela emissora faz um belo tributo a Galvão, deixando claro que, de fato, um ciclo se encerrou. A nota também sinaliza que a empresa e o narrador planejaram com cuidado esta despedida.

E, como disse o próprio Galvão, não está descartado que faça outros trabalhos para a Globo. "Estamos negociando outras coisas. Outros caminhos. E, muito provavelmente, muita coisa nesse mundo digital e outras plataformas dentro do Grupo Globo. A Globo é minha casa", disse. Veja abaixo:

A história do Galvão Bueno se mistura à própria história do esporte brasileiro. Nenhum outro narrador esteve tão presente nas principais conquistas do esporte brasileiro quanto Galvão Bueno nos últimos 41 anos. Foi através da voz dele que acompanhamos os momentos mais importantes dos nossos atletas, nos emocionamos com conquistas, choramos juntos perdas dramáticas, celebramos as mensagens de esperança e superação que o esporte traz. Todo mundo lembra onde estava quando ele gritava "é tetra", abraçado a Pelé. Ou quando Galvão, assustado, narrava o acidente em Imola que levou um dos maiores ídolos brasileiros de todos os tempos, Ayrton Senna.

É um privilégio para a Globo contar com o talento, o carisma e a dedicação desse gigante do jornalismo esportivo brasileiro por mais de 40 anos. Um legado que fica para o jornalismo esportivo. A emoção no lugar mais alto do pódio.

O vínculo fixo de Galvão com a Globo se encerra no fim do ano, após a transmissão da Copa do Mundo do Catar. Será um ano intenso, de muitos desafios, realizações e, certamente, de muita emoção. "Galvão é um gênio da comunicação, que reinventou a função de um narrador nas transmissões esportivas. Haverá pra sempre na história da TV brasileira o antes e o depois de Galvão. Juntos, estamos preparando uma despedida à altura da história dele na Copa do Catar. Será inesquecível para o Galvão e para o público", afirma Renato Ribeiro, Diretor do Esporte da Globo.

"Eu me realizei como profissional nesses 41 anos na Globo. Foram emoções fortíssimas. Estarei com a seleção brasileira e com o futebol até o dia 18 de dezembro. Depois, vira-se uma página e o livro continua. Pretendo mergulhar de cabeça no mundo digital, estamos falando sobre possibilidades em outras plataformas. A Globo é minha casa", declara Galvão Bueno.