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CE: afilhado de Moro e marido de Zambelli, coronel fala como líder de motim

Sergio Moro discursa no casamento de Carla Zambelli com o coronel Aginaldo de Oliveira, que comanda a Força Nacional de Segurança. No Ceará, Aginaldo falou como líder dos amotinados. Eis os varões e varoas de Plutarco - Reprodução/Instagram
Sergio Moro discursa no casamento de Carla Zambelli com o coronel Aginaldo de Oliveira, que comanda a Força Nacional de Segurança. No Ceará, Aginaldo falou como líder dos amotinados. Eis os varões e varoas de Plutarco Imagem: Reprodução/Instagram
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

03/03/2020 08h53

É espantoso que assim seja, mas assim é. E o evento não caiu da árvore dos acontecimentos.

O coronel Aginaldo de Oliveira, diretor da Força Nacional de Segurança, que estava no Ceará para garantir o policiamento em razão da greve de policiais militares, discursou como líder sindical e da rebelião de amotinados na assembleia que aprovou o fim do movimento criminoso. Está evidenciado. Está provado. Está demonstrado. O governo federal, por intermédio do Ministério da Justiça e Segurança Pública, atuou na crise ao lado de uniformizados armados, que tomaram os quarteis, rasgando a Constituição e a lei.

Prestem atenção à fala aos amotinados do homem que comanda a Força Nacional de Segurança:

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"Só os fortes conseguem atingir os seus objetivos. E vocês estão resistindo, vocês estão atingindo objetivos. Acreditem: vocês são gigantes, vocês são monstros, vocês são corajosos. Demonstraram isso ao longo desses dez, 11, 12 dias em que estou aqui, dentro deste quartel, em busca de melhorias para a classe, que vão conseguir."

Imaginem se, durante o governo Lula ou Dilma, um motim de policiais militares num estado governado por um adversário do PT merecesse essa saudação de uma autoridade federal que, em tese ao menos, lá estava para a manutenção da lei e da ordem. Ao lado de Aginaldo, encontravam-se o ex-deputado federal Cabo Sabino, principal líder da greve, e o advogado dos policiais amotinados, coronel Walmir Medeiros.

Aginaldo é coronel justamente da Polícia Militar do Ceará e subordinado direto do Secretário Nacional de Segurança, que vem a ser o general Theophilo Gaspar de Oliveira. Este, por sua vez, disputou a eleição para o governo do Ceará, obtendo 11,3% dos votos. Camilo Santana, do PT, foi reeleito com 79,96%.

Acima deles, brilha a figura do ínclito Sergio Moro, aquele mesmo que não disse uma miserável palavra de reprovação à greve. Ao contrário: ao fim da patuscada sinistra, ele parabenizou a todos — incluindo os amotinados. E ainda foi para as redes sociais bater boca com o ex-governador Ciro Gomes. Dos dias 19 a 27, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública, houve 241 assassinatos no Estado, uma média de quase 27 por dia. Para Aginaldo, os que deixaram os homicidas agir à vontade são "gigantes, monstros, corajosos".

Agora se compreende com mais clareza a fala mansa de Moro, o verdadeiro líder da extrema-direita brasileira. O homem é padrinho de casamento do coronel Aginaldo. Sim, aquele que fala com amotinados como um dos seus, como um igual, é afilhado do ministro da Justiça.

O coronel se casou recentemente com a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP). A festa, com direito a vestido branco, aconteceu no dia 14 do mês passado. Moro, na condição de padrinho, discursou e lascou estas belas palavras, referindo-se à parlamentar:
"Não é todo mundo que sai na rua com coragem para protestar, para manifestar pelo bem do país. Eu, sinceramente, não sei se teria esse tipo de coragem. Mas é uma guerreira. Sem formação de policial militar, mas mereceria aqui uma medalha de caveira honorária de tropa especial".

Moro e sua "conja" foram convidados a dividir com os noivos a valsa nupcial, que veio da forma de "La Vie en Rose", de Edith Piaf, destruída ao piano com a sem-cerimônia com que Moro e seu afilhado destroem a institucionalidade. Dezenove dias e 241 cadáveres depois, Aginaldo falaria como agitador de amotinados.

Agora tudo começa a fazer mais sentido. Está explicado por que a greve havia chegado a um ponto de inflexão depois do gesto destrambelhado, sim, do senador Cid Gomes, mas acabou recrudescendo após o envio da Força Nacional de Segurança ao Estado e a passagem de Sergio Moro por lá.

Para registro: Carla, a mulher de Aginaldo, é uma das entusiastas dos protestos do dia 15. Atua para pôr gente na rua contra o Congresso e o Supremo.

Moro, Aginaldo, Carla Zambelli... O fascismo, de fato, é um movimento histórico determinado, com geografia, personagens históricos, economia política, começo, meio e fim. A ideologia e os valores que ele gerou tornaram-se um modo de entender a política, a vida pública, a sociedade e até as relações humanas. Vale estudar a hipótese de que, de tempos em tempos, as sociedades são tentadas por regressões fascistoides.

Invariavelmente, as personagens que protagonizam esses momentos saltam da mediocridade para a crista da mais assombrosa estupidez. Isso passa, sim, mas vai dar trabalho.

Reinaldo Azevedo