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Reinaldo Azevedo

Bolsonaro diz que fica até 2027. E Maia acerta ao ignorar impeachment agora

Bolsonaro faz a sua livre na rampa do Palácio do Planalto, saudando manifestação golpista que ocorre em frente à sede do Poder Executivo. É bom não confundir golpistas com eleitores - Reprodução/Facebook de Jair Bolsonaro
Bolsonaro faz a sua livre na rampa do Palácio do Planalto, saudando manifestação golpista que ocorre em frente à sede do Poder Executivo. É bom não confundir golpistas com eleitores Imagem: Reprodução/Facebook de Jair Bolsonaro

Colunista do UOL

11/05/2020 08h36

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O presidente Jair Bolsonaro parou ontem para conversar com admiradores, como de hábito, às portas do Palácio da Alvorada. Excepcionalmente, havia um crítico do seu governo entre eles. O homem afirmou: "A democracia pede sua renúncia ou impeachment". Foi, claro!, vaiado pelos demais. Aliás, a prática que Bolsonaro resolveu transformar numa rotina pode vir a gerar dor de cabeça, não é? Até porque é imprópria mesmo. E se, passado temor com o coronavírus, também os que se opõem à sua gestão resolverem se manifestar por ali? Se elogiar e aplaudir pode, por que seria proibido criticar e vaiar? Quem está no lugar institucional errado é o presidente. Mas sigamos.

Bolsonaro respondeu:
-- Vou sair em 1º de janeiro de 2027.

Será mesmo? Vamos ver.

O presidente afirma, então, duas coisas. A primeira: "Não vou nem renunciar nem ser impichado". A segunda: "Vou ser reeleito". Hoje, há razoável segurança sobre a primeira. A segunda, como ele sabe, pertence ao terreno do imponderável, mas evidencia que, desde já — e isso determina seu comportamento em tempos de coronavírus —, a reeleição é sua ideia fixa.

Comecemos pelo impeachment. O primeiro passo da tramitação de uma denúncia por crime de responsabilidade — e o presidente já cometeu de 14 a 18, a depender da conta — é a aceitação do requerimento pelo presidente da Câmara. Rodrigo Maia (DEM-RJ) acumula algo em torno de 30 pedidos. Não tem prazo para tomar decisão.

Na minha conta, os crimes de responsabilidade são 18. Quem os comete tem de ser impichado, é óbvio. Mas, em lugar de Maia, eu também não tocaria no assunto agora. Para que se possa pôr um requerimento em tramitação, é preciso que haja ao menos um viés positivo na Câmara em favor do processo, autorizado pela Casa, mas aberto pelo Senado. Embora inimigo de Dilma Rousseff, Eduardo Cunha mandou um monte de pedidos para o lixo. Quando percebeu o clima favorável, admitiu a tramitação de um deles.

O cuidado se justifica. Se a Câmara rejeitasse o envio do pedido de abertura do processo ao Senado, ainda que uma maioria fosse favorável, mas sem os 342 votos necessários, Bolsonaro sairia fortalecido. E isso tenderia a contribuir para aumentar a sua base de apoio no Congresso.

Mais: o presidente está com as porteiras abertas para negociar com o "fundão do Centrão". Começou a fase de distribuição de cargos, do toma-lá-dá-cá. Ele se negou a constituir uma base de apoio e se fragilizou. Dadas as múltiplas crises em curso, viu se desenhar no horizonte o risco do impeachment. Então decidiu ir às compras. É muito provável que consiga formar uma base de pelo menos uns 200 deputados com a versão perversa da Oração de São Francisco de Assis: "É dando que se recebe".

A outra frente de fragilização também pode encontrar na Câmara a sua contenção. Ainda que a Procuradoria Geral da República viesse a denunciá-lo por crime comum no caso da investigação que envolve a sua intervenção na Polícia Federal — e eu duvido porque, tudo indica, Sergio Moro não tem prova nenhuma de crime —, a abertura do processo pelo STF só seria possível com a concordância dos mesmos 342 deputados. Assim, meu caros, o mandato de Bolsonaro está assegurado por suas relações pouco republicanas com o baixo clero da Câmara.

Ora vejam: o presidente se negou a negociar com os partidos e a formar uma base de apoio à luz do dia. Agora, tem se conversar com, vamos dizer, "homens do mercado da política". Entrega-se ao fisiologismo mais tosco para se segurar no cargo.

E A REELEIÇÃO
Assim, se Bolsonaro está hoje seguro de que não cai -- reitera-se: hoje; vêm por aí os efeitos monstruosos da crise --, a reeleição não passa de esperança e torcida. É claro que tudo depende também de quem se apresenta para o jogo. Com absoluta certeza, já dá para saber que ele não terá um bom currículo a oferecer.

Não é o culpado pelo coronavírus, mas a gestão mostrou uma incrível coleção de desastres. Até agora, no entanto, eles não foram suficientes para desidratar o apoio consolidado de algo em torno de um terço do eleitorado. É muita gente. Caso isso se mantenha, é quase impossível que se formem aqueles 342 na Câmara para tentar derrubá-lo porque se trata de um candidato que já estará no segundo turno.

Qualquer juízo agora é precário. O país vive o transe do coronavírus. Toda a militância de Bolsonaro, nesse caso, por mais asquerosa que seja, e é, volta-se para a conservação de seu núcleo de fanáticos. Nem a queda de Moro foi o suficiente para quebrar o encanto. Há um outro terço que votará contra o presidente nem que a alternativa seja o capiroto. A questão é quem vai levar a maioria daquele terceiro terço que nem é bolsonarista nem é antibolsonarista. E que também está sendo tragado pela crise.

A escolha de Bolsonaro, até agora, está dada: radicalizar o discurso de extrema direita — ele dessacralizou até a morte, vista como coisa corriqueira — para seduzir esse eleitorado. Em tese ao menos, não parece uma boa ideia para ele. Mas, insisto, isso sempre depende dos outros jogadores.

Ah, sim: junto com "fundão do Centrão", podem escrever, vem a penca de denúncias de corrupção. Por mais que Bolsonaro tenha aparelhado a Polícia Federal e que haja na Procuradoria-Geral da República um titular, Augusto Aras, que está de olho numa vaga do STF, os malfeitos aparecem. O impeachment ou o processo por crime comum, hoje, são improváveis. Mas há muito chão pela frente. A reeleição, assim, é puro sonho de uma noite outonal no inverno do coronavírus.