PUBLICIDADE
Topo

Reinaldo Azevedo

Mais uma vez, Bolsonaro usa Mussolini, o pai do fascismo, como referência

Frases de Bolsonaro que repetem lema do ditador fascista italiano. Referências intelectuais do governo estão claras - Reprodução
Frases de Bolsonaro que repetem lema do ditador fascista italiano. Referências intelectuais do governo estão claras Imagem: Reprodução
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

01/06/2020 17h42

Quando, na manhã desta segunda, associei a performance de Jair Bolsonaro sobre o cavalo à de Mussolini, eu ainda não sabia que o nosso valente mandatário havia retuitado um vídeo que espalha uma frase adotada como uma das divisas do fascismo: "Melhor viver um dia como leão do que cem anos como cordeiro". Ou: "Meglio vivere un giorno da leone che cento anni da pecora".

Trata-se de um vídeo que registra um idoso italiano, andando numa cidade não identificada, esbravejando, parece, contra as circunstâncias vividas pelo país em razão da Covid-19.

Um letreiro é sobreposto ao vídeo com a suposta tradução do que diz aquele senhor. Em nenhum momento ele reproduz o lema apropriado pelo fascismo. Isso é obra de quem espalhou o vídeo. E, por óbvio, Bolsonaro gostou não que disse o idoso, mas da frase sobre o leão e o cordeiro.

Para os brasileiros, trata-se de um convite ao suicídio: saiam, exponham-se, sejam corajosos. E daí? Isso é viver como um leão. Procurar proteger a própria vida corresponde a ser um cordeiro.

Para o Brasil, é um convite à catástrofe e à irresponsabilidade. Ou não foi esse o destino da Itália sob o comando do "duce"?

O vídeo retuitado por Bolsonaro deve ser coisa produzida ali entre o gabinete do ódio e a rede de sites e blogs que opera para o governo.

De cara, aparece em letras garrafais na tela o seguinte ditado:
"Bons tempos criam homens fracos, e homens fracos criam tempos difíceis, mas tempos difíceis criam homens fortes, e homens fortes criam tempos bons".

Em si, não passa de uma bobajada que procura dar um nó no cérebro pela força do paradoxo. Levada a coisa ao pé da letra, tanto os bons como os maus tempos são indesejáveis: uns porque geram os homens fracos, e outros, porque geram os fortes, que, por sua vez, darão à luz os fracos.

O corolário possível talvez seja este: precisamos de homens medíocres no poder.

Jair Bolsonaro, claro, deve se ver como um forte, certo? Então, creio, deve a sua grandeza ao PT, que teria gerado, segundo os bolsonaristas, "tempos difíceis". Mas esperem, se Jair é o homem forte, ele, necessariamente, criará os bons tempos, que vão nos legar uma geração de eunucos. É por isso que tantos valentes se mostram dispostos a obedecê-lo não como leões, mas como ovelhas?

A frase que vai acima vive sendo repetida, com variações, nas páginas bolsonaristas. Vocês a encontram, por exemplo, no tal "Jornal da Cidade Online", publicação recentemente envolvida no imbróglio da publicação de anúncios do Banco do Brasil.

Não é a primeira vez que Bolsonaro ecoa Mussolini. Na reunião ministerial do dia 22 de abril, afirmou sobre armamento:
"Eu quero todo mundo armado. Que povo armado jamais será escravizado"

Manchete do dia 12 de agosto de 1937 do "Correio da Manhã" trazia uma frase do duce: "Mussolini diz que só um povo armado é forte e livre".

As referências intelectuais do governo estão mais do que claras.