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Bolsonaro na ONU - Há risco de ele falar de um país virtual ao mundo real

Jair Bolsonaro e Ricardo Salles. Eis um encontro do tipo que a natureza, que busca o ótimo, não produz. Um dia um achou ao outro, e nunca mais pessoa, animal ou planta puderam ficar em paz - Reprodução
Jair Bolsonaro e Ricardo Salles. Eis um encontro do tipo que a natureza, que busca o ótimo, não produz. Um dia um achou ao outro, e nunca mais pessoa, animal ou planta puderam ficar em paz Imagem: Reprodução
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

22/09/2020 07h55

O presidente Jair Bolsonaro abre nesta terça, às 10h, a 75ª Assembleia Geral da ONU. Em razão da pandemia, o encontro será virtual. O presidente já gravou o seu discurso. Consta que vai defender a política ambiental brasileira. E também estaria disposto a provar que seu governo é um sucesso em matéria de combate à pandemia do coronavírus.

Que Bolsonaro diga ao mundo que o Brasil se preocupa com o meio ambiente, buscando preservar as suas florestas, num esforço de conciliar desenvolvimento e conservação da natureza, bem, isso é o esperado, ainda que fale a uma plateia incrédula. A nuvem de fumaça do Pantanal, por exemplo, já não é mais um problema local e viaja pelo continente.

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, deixou atrás de si uma reputação na Conferência do Clima de Madri (Cop 25), que expôs o Brasil ao opróbrio mundial. Houve até tentativa de enganar a gringolândia em negociações de crédito de carbono. Um vexame sem fim.

Assim, o discurso do presidente teria de ser muito convincente, apresentando medidas efetivas tomadas pelo país. Fica difícil saber que diabos dirá aos de fora diferente do que ele e seus ministros dizem aqui dentro. Os auspícios não são bons.

Insistir na ladainha de que o Brasil ainda preserva mais de 60% de sua cobertura vegetal original — enquanto a Europa desenvolvida, por exemplo, mantém menos de 0,5% da sua — é discurso velho e reativo, ainda que verdadeiro. Justamente para podermos conciliar preservação e produção, fizemos um excelente Código Florestal, que defendi com muita energia. Ele contou, à época, com o apoio da esmagadora maioria dos produtores rurais. Mas está sendo queimado junto com a Amazônia e com o Pantanal.

Igualmente contraproducente será investir — e torço para que Bolsonaro não o faça — na tese de que a grita mundial contra as queimadas na Amazônia e no Pantanal traduz apenas uma disputa comercial. Interesses econômicos atravessam todas as pautas, não apenas a ambiental. Enveredar por esse caminho é um mau negócio. Literalmente.

Tomara que o mundo ouça de Bolsonaro um discurso distinto daquele que o general Augusto Heleno, chefe do GSI, levou à audiência pública sobre meio ambiente havida no Supremo nesta segunda (ver post). Para o militar reformado, tudo não passa de uma conspiração de nativos, em associação com personalidades internacionais, para derrubar o presidente — conspiração das esquerdas, é claro.

O general, assim, ignora o fato de que houve embates ambientais nos governos de FHC, Lula e Dilma — esta, em particular, chegou a ter um duro confronto com a Corte Interamericana de Direitos Humanos por causa da construção da usina de Belo Monte.

Seria de todo útil que o debate sobre o meio ambiente deixasse a esfera da soberania — dado que isso não está e nunca esteve em questão — e fosse, de fato, encarado como um tema econômico. Ou por outra: insistir em negar as evidências e não tomar as providências para minorar o desastre já acarreta prejuízos ao país hoje. O prudente seria o presidente exibir as providências tomadas. Mas não há razão para otimismo. Ou conheceríamos as medidas e já as teríamos anunciando, não é mesmo?

O que dizer de um governo que, nessa área, erra até quando tenta provar que acerta? Foi anunciada, por exemplo, a criação da Secretaria da Amazônia e Serviços Ambientais do Ministério do Meio Ambiente. Um bom auspício? Vá lá... Para comandá-la, no entanto, foi indicado Álvaro Pereira Leite, que foi, por 23 anos, conselheiro da Associação Rural Brasileira, entidade que já se manifestou em defesa da permanência de Ricardo Salles à frente da pasta — o mesmo Salles que será chefe de Pereira Leite.

A Sociedade Rural Brasileira é inimiga do Brasil? Não. E do meio ambiente? Inimiga pode não ser, mas está em contradição com ele. Os especialistas em produção agrícola já têm um ministério em que atuar: justamente o da Agricultura. Ou alguém espera que um ambientalista possa comandar, deixem-me ver, a produção de grãos no Brasil? Ambientalismo e produção agropecuária não devem ser antípodas. Podem e devem atuar como aliados. Mas "aliados" só merecem esse nome porque são forças distintas que se unem. Existem diferenças que não podem ser anuladas.

Quanto ao desempenho do governo federal no combate à pandemia, dizer o quê? O mundo conhece os números do Brasil. São péssimos. Bolsonaro se notabilizou por ser um dos três chefes de estado negacionistas -- os outros dois são os ditadores da Belarus e do Turcomenistão. Na sexta, no Mato Grosso, afirmou o presidente a produtores rurais:
"Vocês não pararam durante a pandemia. Vocês não entraram na conversinha mole de ficar em casa. Isso é para os fracos".

No foro em que o discurso de Bolsonaro irá ao ar daqui a pouco, os mortos caminham para um milhão. O que dirá? Onde falta senso de medida, tudo é permitido. Tanto no caso do meio ambiente como no da Covid-19, a autocontenção faria bem ao país e ao presidente. Quem o orienta, no entanto, no labirinto da política internacional é o chanceler Ernesto Araújo. E, aí, meus caros, tudo é possível, muito especialmente o absurdo.