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Reinaldo Azevedo

Bolsonaro, o "incomível", e a sexualidade primitiva, oralizada e tirana

Bolsonaro anda a cavalo na Esplanada dos Ministérios durante ato golpista contra o Congresso e o Supremo no dia 31 de maio de 2020. Eis uma metáfora em seu discurso permanentemente sexualizado - Pedro Ladeira/Folhapress
Bolsonaro anda a cavalo na Esplanada dos Ministérios durante ato golpista contra o Congresso e o Supremo no dia 31 de maio de 2020. Eis uma metáfora em seu discurso permanentemente sexualizado Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

18/05/2021 06h16

O Jair Bolsonaro que diz estar muito preocupado com a pedofilia (leia artigo) é o político que, ao longo da história, mais apelou a uma linguagem sexualizada. Coloca-se sempre no papel do macho que não nega fogo. Tem a óbvia necessidade de dizer ao público — e, portanto, a si mesmo — que é viril, sexualmente potente, "imbrochável".

Recorreu a essa palavra na manifestação de sábado e a repetiu a seus seguidores nesta segunda, às portas do Palácio da Alvorada. No dia 4 de fevereiro, na inauguração de um centro de atletismo em Cascavel, no Paraná, já havia afirmado:
"Eu sou imbrochável. Tenho uma filha de 10 anos de idade sem aditivo".

Afirmou, assim, que não recorreu a remédio para disfunção erétil. Digam-me cá: por que o seu desempenho na alcova seria do nosso interesse? Confesso que escrever essa frase tão curta já me fez lembrar que, às vezes, o mundo não presta. Prefiro partir do princípio de que gente como Bolsonaro não faz sexo. Mas faz, né? Olhem a penca de filhos que ele já botou na política. Há um que nem se elegeu ainda e já é investigado.

Nessa ida a Cascavel, noto à margem, ele desenvolveu uma outra teoria: quem se dedica ao esporte não migra ideologicamente para a esquerda. As razões não ficaram claras. Disse:
"Esporte evita que o garoto vá para um caminho diferente, evita que ele vá pra esquerda. Ele vai para direita. Ele vai para o lado do bem".

Parece achar, intimamente, que a direita está associada ao exercício físico, e a esquerda, ao intelectual. Mas voltemos ao ponto.

Convenham: além dele próprio, sua performance sexual deve ser apenas do interesse de sua mulher — e, a seu tempo, daquelas que a antecederam. O que quer o presidente? Convidar-nos a escarafunchar a sua vida pessoal para saber por que os outros casamentos não deram certo? Em algum momento, aconteceu algum desconcerto de vontades, não é mesmo? E o que temos com isso além de nada?

Mas ele insiste em exaltar as suas qualidades viris. Alô, senhoras e senhores psicanalistas, psicólogos e especialistas em comportamento! Para quem ele faz esse anúncio? É para as mulheres? A resposta é óbvia: não! O público-alvo são os homens.

METÁFORAS
Quando não verbaliza a sua suposta virilidade, ele a exibe metaforicamente, seja fazendo flexões -- desempenho pífio, diga-se --, seja correndo, cavalgando, andando de moto, a cavalo, de moto aquática. Um diretor de cena não teria dificuldades de apontar o ator meio canastrão.

Não é exatamente um presidente, mas um ensaio clínico, que se desnuda bem mais do que pensa.

Esse presidente de linguagem sempre sexualizada — as relações com seus pares na política são chamadas de "casamento" e de "amor hétero" — pode, claro!, avançar para a truculência. Porque isso também está adequado ao perfil de quem busca se afirmar. Assim, em duas circunstâncias — em 2003 e em 2014 — afirmou que não estupraria a deputada Maria do Rosário (PT-RS), se estuprador fosse, porque ela não mereceria, indignidade que repetiu depois numa entrevista ao jornal Zero Hora. Por essa razão, é duas vezes réu no Supremo. As ações estão paradas porque se elegeu presidente.

INCOMÍVEL
Nesta segunda, falando àquelas almas que vão às portas do Palácio da Alvorada sorver um pouco de sua virilidade, afirmou também ser "imorrível" -- e não sabíamos que já havia ganhado o direito à vida eterna -- e "incomível". Bem, nesse caso, eis a undécima referência a outra de suas obsessões: a homossexualidade.

De saída, note-se que, para que Bolsonaro fosse "comível", seria necessário haver quem quisesse, empregando o seu vocabulário, "comê-lo". Convenham: no que concerne às relações sexuais consensuais, há de haver um acordo de vontades, não? Não bastaria que ele quisesse. Seria preciso um outro querer. Repetindo uma piada do grande Ulysses Guimarães, em outro contexto, é o caso de dizer: "Imaginem a cena, senhores!"

Ou melhor: não façam isso! Não imaginem.

A repulsa ao ato sexual entre homens — embora, sejamos exatos, ele não tenha dito se poderia ser um comedor — é outro modo que tem Bolsonaro de expressar o que entende por masculinidade. Pergunte-se de novo: se ele é brocha ou não, se ele come ou é comido, por que isso nos diria respeito?

Mais uma vez, a declaração busca a aprovação dos olhares masculinos. Há uma evidente fragilidade psicológica na personagem. Precisa do reforço dos seus iguais, dos homens que o cercam, para se sentir numa posição confortável.

MASCULINIDADE TÓXICA OU HOMICIDA?
Convencionou-se chamar esse tipo de discurso de "masculinidade tóxica". O de Bolsonaro é um pouco mais do que isso -- ou, então, é de toxidade homicida. Por que faço essa afirmação?

Ele voltou a atacar as pessoas que fazem distanciamento social. Afirmou que "tem alguns idiotas que até hoje ficam em casa". Disse que, se os trabalhadores rurais tivessem feito o mesmo, a população teria morrido de fome. O discurso, além de tudo, é burro e vigarista. Sempre se defendeu a continuidade das atividades essenciais. Os momentos de restrição estão associados à curva das contaminações e à superlotação dos hospitais. Mas esse não é o ponto agora.

Ele já recorreu a vocabulário mais duro e mais ofensivo, buscando atribuir características, segundo o seu padrão, menos viris a quem faz distanciamento social. No dia 4 de março, em São Simão, em Goiás, afirmou:
"Chega de frescura, de mimimi! Vão ficar chorando até quando?"

No dia 10 de novembro do ano passado, numa solenidade sobre turismo, vomitou:
"Tudo agora é pandemia. Tem que acabar com esse negócio. Lamento os mortos, todos nós vamos morrer um dia. Não adianta fugir disso, fugir da realidade, tem que deixar de ser um país de maricas."

Três dias depois, diante do risco da segunda onda, que veio de forma avassaladora, desdenhou:
"E agora tem essa conversinha de segunda onda".

ENCERRO
Notaram? As palavras a que Bolsonaro recorre para se referir aos que fazem distanciamento estão associadas a estereótipos que o, se me permitem, "machismo estrutural" atribui às mulheres. Pode parecer impressionante, mas é assim: sempre que dirige a sua fúria a quem pratica distanciamento social, o presidente está falando para e sobre os homens. Ou as mulheres frequentam a sua fala como alvo da predação sexual ou como símbolo de fraqueza,

Tudo é coerente com o seu padrão.

No discurso que fez no clube A Hebraica, no Rio, em abril de 2017 -- aquele em que afirmou que um quilombola poderia ser pesado em arrobas e que o homem nem servia mais à reprodução --, afirmou o seguinte sobre seus filhos:
"Eu tenho cinco filhos. Foram quatro homens. Aí, no quinto, eu dei uma fraquejada e veio uma mulher".

Eis mais uma expressão da sexualidade primitiva, crua, oralizada e tirana. É uma criança de 66 anos — velha, detestável, birrenta, malcriada — a quem foi dado portar armas e governar um país. Simbolicamente, este senhor foi arrancado do seio materno e nunca mais se encontrou.

E nós pagamos o pato.