PUBLICIDADE
Topo

Reinaldo Azevedo

Parabéns, Otto Alencar! Atos de lesa-medicina e lesa-humanidade comprovados

Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus: eis aí o melhor retrato da aplicação prática da teses de Nise Yamaguchi. Os senadores foram leves com ela - Michael Dantas/AFP
Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus: eis aí o melhor retrato da aplicação prática da teses de Nise Yamaguchi. Os senadores foram leves com ela Imagem: Michael Dantas/AFP
Conteúdo exclusivo para assinantes
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

02/06/2021 06h11

Nise Yamaguchi não se limitou, no depoimento, a defender a cloroquina e, na prática, desprestigiar as vacinas. Ela mentiu também em proporções industriais. E Otto Alencar a levou a confessar por que a administração de cloroquina e hidroxicloroquina é um ato de lesa-medicina e de lesa-humanidade. Comecemos pelas mentiras.

A obsessão pelo remédio levou a doutora a afirmar que o Amapá tem um dos menores índices de mortalidade do mundo em razão da administração da droga. Não tem. Fosse um país, na escala do melhor para o pior, o Estado estaria em 112º lugar.

Nise afirmou também que nunca manteve um encontro privado com Jair Bolsonaro. É falso. Houve ao menos um, e ela participou de outros em companhia de ministros. Disse ter ido a uma única reunião com os tais assessores informais. Mentiu de novo. Foi a pelo menos quatro.

Repetiu a balela, já dita naquela cadeira por Eduardo Pazuello, de que a OMS é crítica do lockdown. A organização reconhece a sua efetividade — comprovada, diga-se, em cidades brasileiras —, mas adverte que é preciso dar assistência aos pobres. A médica sustentou que "só agora" há a recomendação para que não se use hidoxicloroquina em pacientes "com doenças moderadas ou graves". O alerta da OMS é de julho do ano passado.

O CASO DA BULA E A CONFISSÃO DO GABINETE PARALELO
Há um outro caso grave. Ou ela está mentindo, ou mentiram antes dela Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde -- hoje um desafeto do governo -- e Barra Torres, presidente da Anvisa e aliado de Bolsonaro. Ambos afirmaram que, no dia 6 de abril de 2020, houve uma reunião No Planalto em que se discutiu a mudança, por decreto, da bula da cloroquina para incluir a administração em caso de Covid. Nise seria um dos autores da minuta do decreto.

Ela afirmou:
"Eu jamais escreveria uma bula por decreto. E não seria essa a minha função. Eu discuti a RDC da Anvisa, que era uma nota informativa, onde eles falavam sobre a inserção de medicamentos em épocas de pandemia".

O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) observou:
"Eu só quero lembrar à senhora que tanto o ministro Mandetta quanto o presidente da Anvisa estiveram nesta comissão, com dois depoimentos sob juramento. A senhora está fazendo uma acusação muito grave: que os dois mentiram nesta comissão. A senhora tem consciência do que a senhora está acusando os dois, né? Porque mentir, sob juramento, nesta comissão, tem penalidades graves."

Restou à malabarista afirmar o seguinte:
"Eu não acho que eles tenham mentido; acho que eles tenham se equivocado... Que acharam que a gente quisesse fazer um decreto da bula, e não foi isso o que aconteceu".

Notaram?

"A gente", quem? Quem era "a gente"? Um era ministro da Saúde. O outro era presidente da Anvisa. Mas ela pertencia a um misterioso "a gente". De fato, ainda que sem querer, Nise confirma a existência do gabinete paralelo que ela nega existir.

A própria médica entregou para a CPI estudos que justificariam o uso da cloroquina. Mas ora, ora... O principal deles — e a informação está no documento que ela própria entregou — informa que o dito-cujo havia sido descontinuado justamente porque o remédio se mostrara ineficaz. Com a suavidade de sempre, ela disse que não sabia... Não sabia o desfecho de um estudo que ela mesma passou à comissão para tentar defender suas opiniões.

OTTO ALENCAR E A PROVA DE CRIMES EM PENCA
Otto Alencar (PSD-BA) foi o senador que indagou se ela sabia a diferença entre vírus e protozoário. Dizem que ela acertou a resposta. Escrevo um post evidenciando que errou. Na ciência, na língua e na lógica.

Ele foi agressivo? Não. Ele é médico e falava com outra pessoa de sua profissão. Havia, sim, um quê de indignação com as bobagens que ouvia. Travou-se o seguinte diálogo:

Alencar: A senhora, para dar hidroxicloroquina, faz um eletrocardiograma?
Nise: Sim.
Alencar: Faz um ecocardiograma?
Nise: sim, se tem arritmia, sim.
Alencar: Como é que o Ministério da Saúde deixou a receita no site, para o povo brasileiro todo tomar, doutora? Pergunto à senhora: se a pessoa tem arritmia e tem um espaço QT longo, ela pode usar hidroxicloroquina?
Nise: SILÊNCIO
Alencar: Doutora, estou perguntando.
Nise: Não!
Alencar: Não pode, não! E como é que dá receita para o povo todo, para o Brasil todo?


Perceberam? Alencar deixou claro que a postura defendida por Nise e outros é verdadeiramente criminosa. Ela diz que faz eletrocardiograma e ecocardiograma -- em caso de arritmia -- antes de ministrar hidroxicloroquina a seus pacientes. Deve falar de pacientes particulares, não? Que têm acesso fácil a serviço de saúde.

O senador está evidenciando que, para os pobres, não há cuidado nenhum. É evidente que esses exames prévios não são realizados nos rincões. E, pior, para tomar um remédio que, com ou sem exames, é ineficaz. Síndrome do QT Longo é uma taquiarritimia ventricular que pode resultar em fibrilação e morte.

Os pobres — a esmagadora maioria daqueles que estão tomando cloroquina como tratamento preventivo ou como automedicação depois de doentes — não têm como fazer os exames.

Nas vastas solidões do país, onde nem mesmo existe uma máquina de eletrocardiograma, a cloroquina foi distribuída para ser administrada por alguns médicos irresponsáveis — uns tantos talvez desesperados, sabe-se lá. Pior: há desbragada automedicação.

E daí?

São pobres. Morrem "sem sentir", como diria o inquilino do Planalto.

O diálogo de Alencar com Nise provou uma prática criminosa. De lesa-medicina. De lesa-humanidade.