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Reinaldo Azevedo

Bolsonaro deu 2 tapas na cara do STF, que votava ações contra Copa América

Bolsonaro anuncia que deu a seu ministro uma tarefa indigna e absurda, e o ministro vem a público para dizer que é verdade e que está muito satisfeito - Reprodução
Bolsonaro anuncia que deu a seu ministro uma tarefa indigna e absurda, e o ministro vem a público para dizer que é verdade e que está muito satisfeito Imagem: Reprodução
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

11/06/2021 04h55

Na quarta-feira, véspera da votação no Supremo das ações que buscavam impedir a Copa América — a realização do torneio no país é uma das formas de ser do negacionismo —, o presidente Jair Bolsonaro já deu uma bofetada na cara do tribunal, evidenciando que se considera acima das leis, também as da ciência. Afirmou num culto evangélico que vacinas são experimentais e as igualou, em eficácia, à hidroxicloroquina.

Ontem, no dia em que os ministros arquivavam os seus votos no plenário virtual, veio outra. Numa solenidade no Palácio do Planalto, tratou o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, como um capacho -- "um tal de Queiroga" (mas isso é lá entre eles) -- e afirmou:
"Ele [Queiroga] vai ultimar um parecer visando a desobrigar o uso de máscaras por parte daqueles que estejam vacinados ou que já foram contaminados para tirar esse símbolo".

E brandiu uma máscara como aquilo que deve ser banido.

Nesse mesmo dia, por 11 a zero em três ações diferentes (mas com nuances: vejam texto a respeito), os ministros do Supremo não opuseram óbices à realização da Copa América no país. Quem põe freio no imperador? O Procurador-Geral da República, Augusto Aras, dispõe de instrumentos para tentar fazer valer a lei. Por enquanto, ele só se mobiliza para conter os que buscam conter ao presidente.

O Planalto não pode fazer o que anunciou Bolsonaro. Já explico.

Na sequência, "o tal de Queiroga", com a cara mais lavada do mundo, ainda que parcialmente escondida pela máscara, veio a público para anunciar que estava tomando as providências para fazer a vontade do chefe. Também em vídeo, afirmou:
"Recebi do presidente Bolsonaro hoje uma solicitação para fazer um estudo acerca do uso das máscaras. O presidente está muito satisfeito com o ritmo da campanha de vacinação no Brasil, da chegada de novas doses, da distribuição de mais de 100 milhões de doses de vacina. O presidente está acompanhando o cenário internacional e vê que, em outros países onde a campanha de vacinação já avançou, as pessoas já estão flexibilizando o uso das máscaras. O presidente me pediu que fizesse um estudo para avaliar a situação aqui no Brasil. Então vamos atender a essa demanda do presidente Jair Bolsonaro, que está sempre preocupado com pesquisas em relação à Covid, tanto que estamos fazendo pesquisas na área das vacinas, transferência de tecnologia da AstraZeneca para a Fiocruz... Enfim, para trazer um cenário mais favorável para a população brasileira".

Como fica evidente, não se tratou de um pedido, como diz o ministro, mas de uma ordem. Um país em que as coisas estivessem no lugar assistiria agora a uma massiva campanha pública, financiada pelo governo federal, em favor do uso de máscaras. Em vez disso, temos o que se lê e se vê.

PROPOSTA ABSURDA
No dia 3 de julho de 2020, o próprio Bolsonaro sancionou a Lei 14.019, que obriga o uso de máscaras em espaços públicos, incluindo os transportes, e privados. Assim, só uma outra lei, votada pelo Congresso, poderia mudar aquelas disposições. É claro que Bolsonaro sabe disso. E se o Congresso seguisse a sua vontade? O Supremo faria alguma coisa? Abordarei a questão no texto que trata das ações contra a Copa América, rejeitadas pelo tribunal.

Há unanimidade entre os especialistas sérios, com reputação científica a zelar, ao afirmar que uma medida como a que defende Bolsonaro seria, dado o atual estágio de expansão da doença e de vacinação, um desastre. E daí? Enfrentar a pandemia nunca foi a sua prioridade. Com o distanciamento social que se conseguiu fazer, à sua revelia, caminhamos para 500 mil mortos. Imaginem quantos seriam se tivesse triunfado o seu padrão.

Ainda que vacinados não contraiam a doença, podem transmitir o vírus a outros — sem contar que nenhuma vacina tem 100% de eficácia. Mais: os que já tiveram a doença correm risco de reinfecção por novas cepas do patógeno.

IMUNIZAÇÃO COLETIVA
Até que não se atinja a chamada imunização coletiva, quando, então, a circulação do vírus cai drasticamente, não se devem relaxar as medidas sanitárias para dificultar a expansão do vírus. E só se chega a tanto com uma taxa de imunização de 70%. E, ainda assim, milhares de pessoas ficarão doentes, e muitas ainda vão morrer. Mas, obviamente, não na proporção alarmante que temos hoje.

Atenção! Até ontem, apenas 11,1% dos brasileiros haviam recebido as duas doses da vacina. Fazer o que quer o presidente seria uma espécie de aposta no suicídio/homicídio coletivo. Nos EUA, a imunização já chega a 40%, e há um óbvio abandono das máscaras, estimulada por vozes públicas. Os especialistas são unânimes em classificar a decisão como temerária. Nós vacinamos, percentualmente, pouco mais de um quarto do que eles vacinaram. E Bolsonaro defende o liberou-geral.

COMO FAZER?
Pergunta-se ainda: como se operaria o querer de Bolsonaro? Hoje, com o uso obrigatório de máscaras, já há aqueles que resistem. Imaginem se houvesse a flexibilização. A doença não deixa, felizmente, um carimbo na testa de ninguém. Como distinguir quem já teve a doença de quem não teve? Mais: estabelecimentos públicos e privados exigiram um certificado de vacinação, com foto? Inexiste esse documento.

Com o Brasil à beira dos 500 mil mortos, sendo o segundo país com o maior número diário de Covid-19 no mundo — perde apenas para a Índia, que tem uma população sete vezes maior —, o Bolsonaro pretende dar o caso da pandemia por encerrado.

Pessoas morreriam às pencas. Mas ele já disse que todo mundo morre um dia e "nem sente".

E se o Congresso votasse a tal lei e o Supremo seguisse o padrão adotado no caso das ações que buscavam impedir a realização da Copa América? Restaria o quê aos brasileiros?

Resposta: enfrentar sozinhos o vírus e o verme.