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Reinaldo Azevedo

Flávio Bolsonaro e a morte do miliciano Ecko: senador discrimina pedreiros?

Wellington da Silva Braga, o miliciano Ecko, e Flávio Bolsonaro: desta feita, senador comemorou a morte, destacando que Braga nunca foi policial. Quando morreu  Adriano da Nóbrega, reação foi outra - Reprodução; Uslei Marcelino/Reuters
Wellington da Silva Braga, o miliciano Ecko, e Flávio Bolsonaro: desta feita, senador comemorou a morte, destacando que Braga nunca foi policial. Quando morreu Adriano da Nóbrega, reação foi outra Imagem: Reprodução; Uslei Marcelino/Reuters
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

14/06/2021 07h36

Estamos nos acostumando ao absurdo. E aqueles que o promovem estão perdendo o pudor de apresentar roteiros ruins, que já não se ocupam mais nem de ser verossímeis. Existe, como devem saber muitos, uma diferença entre verossimilhança e verdade. O primeiro conceito é aquilo em que se pode acreditar, que faz sentido, que se encaixa na lógica — na origem da palavra, é aquilo que espelha a natureza das coisas. Nem sempre, claro!, o verossímil é verdadeiro. E pode acontecer, embora mais raro, de o verossímil ser falso: tudo leva a crer numa determinada ocorrência que, no entanto, não se deu. Por isso os entes do Estado encarregados da investigação têm de ser muito cuidadosos, não é? Especialmente com o verossímil que se mostra falso. O inverossímil, no entanto, quando envolve um crime, tem de ser imediatamente investigado.

Essas considerações todas, no entanto, valem para tempos normais. Vivemos uma anormalidade que não vou caracterizar agora neste texto. De certo modo, trato dela todos os dias. Uma coisa é certa: há setores, hoje, no país que já não se ocupam de disfarçar os seus propósitos ou suas vinculações, muitas delas escancaradamente criminosas. E o fazem na certeza de que nada vai acontecer; de que o absurdo será assimilado; de que vão avançar sempre e um pouco mais, sem consequências, no território do inaceitável, do ilógico e, não raro, do criminoso.

Uma introdução longa, mas não um nariz de cera, para tratar da morte do miliciano Wellington da Silva Braga, o Ecko, morto em uma ação da polícia no sábado. Ele era o chefão do "Bonde do Ecko", milícia que comanda parte da Zona Oeste do Rio, estendendo-se para a Baixada Fluminense e Costa Verde. Era chefão graduado entre os pares. Um país que vivesse a tal normalidade já teria considerado que as milícias não são mais uma questão estadual. Como elas capturaram parte da segurança pública do Rio e dominam territórios, seus crimes deveriam ser investigados pela Polícia Federal — em parceria, na medida do possível, com as polícias do Rio.

Ecko foi surpreendido pela Polícia numa visita que fez à casa de sua mulher. Levou um primeiro tiro no peito e foi posto numa van para ser levado de helicóptero até o hospital. O cara não era só um miliciano. Era um arquivo. No trajeto, no carro, segundo a versão da polícia, teria conseguido tomar a arma de uma policial — um sinal, pois, de que não estaria algemado — e tentado disparar mais de uma vez. Como a arma estaria travada, não logrou seu suposto intento. E o que é inconteste, sem verbo no futuro do pretérito, é que levou um segundo tiro no peito — este fatal.

Cláudio Castro, governador do Rio, posou ao lado dos policiais. Parece filme B; daqueles a que a gente assiste com certa incredulidade, achando o roteiro ruim demais. Afinal, um bandido que tomasse a arma de um policial nessas circunstâncias cheiraria a coisa impensada. E um político que se oferecesse a tal desfrute pareceria uma caricatura. E, no entanto, as duas coisas nos são oferecidas como verdades factuais. Sim, Castro fez o que fez. É inconteste. Ele já é uma caricatura, não um governador. Não posso jurar que a cena na van seja falsa. Em tendo acontecido, temos mais um caso para a investigação do que para condecoração.

MAIS SURREALISMO COM FLÁVIO BOLSONARO
Mas o surrealismo nosso de cada dia não para por aí. No Twitter, o senador Flávio Bolsonaro -- que empregou, em seu gabinete, formalmente ao menos, a mãe a mulher de um miliciano quando era deputado estadual -- escreveu o seguinte:
"Parabéns aos policiais civis do Rio pela eliminação do miliciano 'Ecko', que nunca foi policial e era o mais procurado do país! Todo respeito e apoio incondicional aos verdadeiros policiais de todo o Brasil!"

De fato, antes de virar bandido, Ecko era pedreiro. Seu irmão chefiou a milícia, foi morto, e ele assumiu o posto. Consta que era notavelmente violento e não hesitava em eliminar adversários, bem como em se associar, se preciso, com pedaços do narcotráfico. Essa parceria, diga-se, tem sido a cada dia mais frequente.

Mas voltemos ao tuíte de Flávio. Pergunta óbvia: se o bandido fosse ou tivesse sido policial, então o senador teria lamentado a sua morte? Foi o que quando Adriano da Nóbrega foi morto pela Polícia da Bahia. No dia 12 de fevereiro, escreveu no Twitter:
"DENÚNCIA! Acaba de chegar a meu conhecimento que há pessoas acelerando a cremação de Adriano da Nóbrega para sumir com as evidências de que ele foi brutalmente assassinado na Bahia. Rogo às autoridades competentes que impeçam isso e elucidem o que de fato houve."

Sabem como é... Danielle Mendonça da Costa Nóbrega, a mulher de Adriano, ex-capitão do Bope, trabalhou no gabinete de Flávio de 6 de setembro de 2007 até 14 de novembro de 2018. Raimunda Veras Magalhães, mãe do miliciano, era sua suposta colega de trabalho. Seu nome esteve na lista de funcionárias desde o dia 11 de maio de 2016, desligando-se na mesma data em que a nora saiu. Recebiam salário de R$ 6.490,35. Raimunda é citada no relatório do Coaf que investiga corrupção no Legislativo fluminense. Ela repassou R$ 4.600 para a conta de Queiroz.

Márcia Aguiar, diga-se, mulher de Queiroz, se encontrou com a mãe de Adriano enquanto o marido estava na cadeia, segundo informou o Ministério Público do Rio.

CONCLUO
Não! Não estou afirmando que a Polícia está mentindo. Mas estou afirmando, sim, que a história é inverossímil. E já está dado lá no primeiro parágrafo que o inverossímil pode ser verdadeiro. Mas é preciso que se faça uma severa investigação. Vai acontecer?

Quanto a Flávio, seu texto é bastante eloquente. O senador deveria vir a público para explicar qual a diferença entre Adriano, que ele condecorou e cuja morte lamentou, e Ecko, cuja morte saudou. Estaria no fato de que um foi capitão do Bope, e o outro, pedreiro?

O problema, para ele, está em ser miliciano ou em ser miliciano sem pertencer ou ter pertencido à Polícia? Como sabe toda pessoa decente, nos dois casos, falamos de criminosos. Mas é claro que o policial miliciano é mais perigoso para a democracia do que o pedreiro miliciano.

Afinal, policiais são parte do Estado brasileiro; os pedreiros não.