PUBLICIDADE
Topo

Reinaldo Azevedo

Voto impresso seria igual a eletrônico, certo? Isso expõe natureza do golpe

Ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo: a "conversa fiada" de Bolsonaro não se limite às falsas provas - Felipe Sampaio/STF
Ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo: a "conversa fiada" de Bolsonaro não se limite às falsas provas Imagem: Felipe Sampaio/STF
Conteúdo exclusivo para assinantes
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

30/07/2021 17h19

que se entender o significado da declaração do ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo, quando afirma que é preciso pôr fim à "conversa fiada" sobre as urnas eletrônicas. É evidente que Jair Bolsonaro não quer apenas a "impressão do voto". Isso nem mesmo faz sentido. Afinal, se as urnas estivessem contaminadas, como ele assegura, para garantir a vitória de Lula, então a suposta fraude eletrônica seria idêntica à impressa, certo? Ou estaria Bolsonaro a dizer que a conspiração STF-urnas para eleger o petista existirá apenas na versão eletrônica, mas não na impressão do voto?

Vale dizer: a tese não é fraudulenta apenas na sua essência — e nós vimos as "provas" de que dispõe Bolsonaro —, mas também nas intenções. Não é voto impresso o que ele quer. Ele quer golpe. Afinal, como eliminar, então, o que ele chama de "risco de fraude", que risco não é — uma vez que existem múltiplos controles? Ora, seria preciso voltar ao velho voto impresso, sem base eletrônica nenhuma. E, nesse caso, por óbvio, a fraude comeria solta, especialmente nos rincões do Brasil, infensos aos controles oficiais e pouco submetidos à transparência democrática.

Insista-se nisto: Bolsonaro quer pôr fim à urna eletrônica. Quer a volta do voto de papel com caneta. Também se contentaria em ver o eleitor sair da cabine com o votinho impresso na mão, com o nome do escolhido. Imaginem como seria isso nas áreas dominadas pelas milícias o pelo narcotráfico... Ou ainda nas nossas vastas solidões ainda submetidas ao coronelismo. Não, meus caros! Isso não acabou. O que a urna eletrônica fez — isto, sim — foi aumentar a autonomia dos "cavalgados", desobrigando-os de votar nos "Cavalcantis".

Então ficamos assim: em sua ambição estupidamente reacionária, o presidente quer a volta da eleição decidida na base da pistola e do mapísmo, pondo fim à segurança que a votação eletrônica — submetida a vários controles — garante. Esse é seu universo de longo prazo. Essa é sua utopia. Esse é seu ideal. No fim das contas, o que ele quer mesmo é reduzir ao mínimo possível o sigilo do voto, para que os pistoleiros que apoiam esse governo possam, afinal, controlar parte ao menos do eleitorado.

No prazo mais curto, evidencia que só aceitará a vitória. Com ou sem voto impresso. Afinal, imaginem que apenas se acoplasse — e já não seria simples — uma impressora a cada urna para depositar numa caixa os votos. Se o tiranete não gostasse do resultado, faria o quê? Pediria recontagem, certo? Então se verificariam os votos físicos. Ora, eles seriam idênticos aos eletrônicos — afinal, a "conspiração comunista internacional", associada ao STF e ao TSE, seria eficiente em seu trabalho... Bem, então só restaria declarar: "A eleição não vale porque eu não ganhei".

Os generais Augusto Heleno e Luiz Eduardo Ramos, em companhia do ministro da Justiça, Anderson Torres, estavam presentes ao anúncio de uma futura tentativa de golpe. De verdade, o que eles todos querem é o fim de eleições livres e diretas. Chegaram à conclusão de que a sua concepção de poder só se impõe mesmo pela força.

Creiam: Bolsonaro não é o único por ali que já disse que é preciso fuzilar uns 30 mil no Brasil.

Augusto Aras continua mudo. Mas o Ministério Público Federal não depende apenas dele para agir. Ainda voltarei ao tema.