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Reinaldo Azevedo

Analiso fala do golpista em SP. Foi diferente. Advogado-geral afronta a lei

Bolsonaro discursa em ato na Paulista. Em São Paulo, tenta ressuscitar a tese do defunto voto impresso - Reproduçãop
Bolsonaro discursa em ato na Paulista. Em São Paulo, tenta ressuscitar a tese do defunto voto impresso Imagem: Reproduçãop
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

07/09/2021 17h13

Jair Bolsonaro está fazendo campanha eleitoral e conta com este 7 de Setembro para ver se começa a reverter o quadro bastante negativo para ele, sabendo que o ato conta com ampla cobertura dos meios de comunicação — além, claro!, do estimulo de suas milícias digitais. Aliás, foi um desses canais que transmitiu a sua fala, entrecortada por falhas técnicas.

A transmissão do discurso da Paulista foi ruim, mas suficiente para entender o que quis dizer. A fala de São Paulo teve um acento distinto da de Brasília: apesar de todos os arreganhos autoritários, foi ligeiramente menos carregada no golpismo. Embora tenha citado o nome do ministro Alexandre de Moraes como aquele que deve ser contido no Supremo, o centro de sua fala, pasmem!, foi o voto impresso.

O tema esteve ausente do discurso em Brasília. Na capital federal, ele preferiu falar em "ultimato", dirigindo o recado a Luiz Fux, a quem caberia, na sua cabeça torta, conter Moraes. Em São Paulo, a quase totalidade da fala buscou pôr em dúvida o sistema de votação. "Todos aqui acreditam e querem a democracia", afirmou. E ainda: "A alma da democracia é o voto". E, em seguida, insistiu na mentira de que o sistema não é seguro e de que não será o presidente do TSE — Roberto Barroso, cujo nome não citou — que vai dizer o contrário.

Voltou a recitar o bordão das eleições "limpas, auditáveis e com contagem pública".

Só para que fique claro: as eleições brasileiras já são limpas, auditáveis e com contagem pública. Quem as quer sujas, submetidas à falcatrua do mapismo e sujeitas à contagem dos pilantras é quem defende voto em papel. E essa pessoa é Jair Bolsonaro.

Afirmou ainda:
"Não posso participar de uma farsa", não deixando claro se não aceita disputar eleição pelo sistema que temos ou se estava ameaçando o próprio pleito. Num e noutro caso, trata-se apenas de retórica escatológica. Haverá eleições e, a menos que esteja impedido pela lei, vai participar delas. Não por acaso, insistiu num conteúdo, expresso em uma das vezes, por estas palavras "Enquanto vocês estiverem do meu lado, serei o porta-voz de vocês". E ainda: "A satisfação maior é estar ao lado de vocês".

Tanto o clima era de campanha que se ouviu de novo a retórica do candidato "contra os políticos". Sim, acreditem! O presidente, que é pai de um vereador, de um deputado federal e de um senador, atacou "os políticos"... E foi ovacionado. Disse ainda o que, a seu juízo, incomoda os tais políticos: "É que começamos a mudar o Brasil". E, ora vejam, falou em "O Acordar de Uma Nação". Não por acaso, a expressão remete ao filme "O Nascimento de Uma Nação" (1915), de D. W. Griffith, que, entre outros sortilégios, exalta o heroísmo da Ku Klux Klan. Será que Bolsonaro sabe disso? É o de menos. A verdade é que ele vive na vizinhança dessas ideias. Respira esse ambiente.

Na conclusão, voltou a dizer que só um destino o aguarda: a cadeia, a morte ou a vitória.

E, emendou: "Aos canalhas, digo que nunca serei preso". E, claro!, afirmou que a morte é só com Deus. E, por óbvio, assegurou que só a vitória o aguardaria. E repetiu o lema da campanha de 2018: "Brasil acima de tudo; Deus acima de todos".

O que se via ali, em suma, era Bolsonaro em plena campanha eleitoral, usando, ostensivamente, recursos públicos, o que é obviamente ilegal e resulta em inelegibilidade.

Já havia escrito aqui e insisto: o objetivo dessas manifestações é tentar reverter a desvantagem eleitoral. Além, claro!, de alargar sempre um tanto mais o espaço para o proselitismo golpista. Para tanto, é preciso fornecer uma pauta: em Brasília, tentativa explícita de intimidar o Supremo. Em São Paulo, a volta à pauta já morta, sem chance de ser ressuscitada: o voto impresso.

DELINQUÊNCIA POLÍTICA
Bruno Bianco, advogado-geral da União, como informou a jornalista Vera Magalhães, acompanhou Bolsonaro a São Paulo. Pegou carona no voo presidencial para a pregação golpista. A justificativa oficial apresentada: "Está dentro da função de assessoramento. Não é um ato político acompanhar a comitiva. Seria se ele subisse no carro de som".

Ah bom!!! Na próxima vez em que a AGU se manifestar no Supremo em defesa de causas do governo, jamais saberemos se foi Bianco quem orientou o presidente a pedir a cabeça de ministros do tribunal. Ou se o aconselhou a fazer o contrário e foi ignorado. Em todo caso, quis ver tudo de perto, né?

A delinquência política atinge padrões inéditos.