PUBLICIDADE
Topo

Reinaldo Azevedo

Groucho-marxismo: Guedes e Neto não deixam grana em país em que são governo

Groucho Marx para ministro da Economia já. Seria ao menos divertido, não é mesmo? A imoralidade anseia agora a condição de categoria de pensamento - Reprodução
Groucho Marx para ministro da Economia já. Seria ao menos divertido, não é mesmo? A imoralidade anseia agora a condição de categoria de pensamento Imagem: Reprodução
Conteúdo exclusivo para assinantes
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

05/10/2021 17h24

O dólar fechou ontem a R$ 5,45. Enquanto escrevo, está a R$ 5,47. De ontem para hoje, Paulo Guedes ganhou R$ 190 mil. Basta multiplicar R$ 0,02 por 9,5 milhões. Então vamos ver,

Há uma grande operação de desconversa em curso para tentar livrar a cara de Paulo Guedes e de Roberto Campos Neto. Não alcança só o governismo militante, não. A turma que não gosta de Jair Bolsonaro, mas aprecia o trabalho da dupla, e temos isso, também resolveu investir na falácia de que, no caso das offshores, os críticos do ministro da economia e do presidente do Banco Central partiriam da falsa premissa de que as ditas-cujas são ilegais.

Bem, isso é estupidamente mentiroso. Desde o primeiro momento, noticiou-se em todo lugar, com todas as letras, que nada há de ilegal em tal prática, desde que tudo seja declarado à Receita Federal. Continuassem Guedes e Campos Neto a ser o que eram até 2018, e ninguém os estaria perturbando. Seguiriam tocando suas respectivas vidas, com seus respectivos dólares protegidos das decisões do governo brasileiro.

Acontece que um é ministro da Economia, e o outro, presidente do Banco Central. Existe uma lei que os impede de ter offshore. Logo, suas respectivas empresas são ilegais. Existe um Código de Ética da Administração Pública Federal. E também este veda que a dupla mantenha esses, digamos, "investimentos" no exterior. Logo, a prática, para eles, é antiética.

Os dois textos não se prestam a interpretações solipsistas. O que lá vai escrito é objetivo e não admite leitura criativa. Ainda que a Comissão de Ética Pública tenha condescendido com a prática, desde que eles "mantivessem intocadas suas posições" — vale dizer: não mexessem com aqueles ativos —, a coisa segue ilegal e antiética porque tal comissão não tem o poder de "reler" nem um texto nem outro.

De resto, "não mexer nas posições" não quer dizer grande coisa, uma vez que os ativos estão em dólar, e a questão cambial é hoje central no país — ainda voltarei ao tema.

Guedes e Campos Neto terão de se explicar ao Congresso. A PGR abriu uma apuração preliminar. É um mato de onde não costuma sair coelho. Os dois foram denunciados à Comissão de Ética. Também é provável que nada aconteça. Afinal, esta sabia de tudo desde o início e não viu problema em ignorar a lei e o código. Assim, tudo indica que os dois continuem em seus respectivos cargos, mas obviamente fragilizados, não é?

Já tratei da questão legal e ética. Vamos à questão que é de natureza também moral.

A QUESTÃO MORAL
A fome voltou a castigar 19 milhões de brasileiros, numa estimativa modesta. Há um contingente imenso que passou a comer muito mal. A inflação de alimentos é estupenda. Já tratei do assunto aqui. A alimentação das famílias aumentou 17,06% em 2021 até agosto. Nesse caso, esse é o índice médio. No detalhe, a coisa é assombrosa: o óleo de soja subiu 98,5%; a carne bovina, 46,51%; o café, 35,4%; o açúcar, 32,84%; o leite, 31,09%; o arroz, 28,16%; a cesta básica, 25,46%. A inflação oficial, pouco abaixo de já enormes 10%, inclui itens que não passam pela mesa dos pobres nem em sonho. A carestia dos pobres -- é hora de restaurar o vocábulo -- é muito mais grave.

Em boa parte, essa elevação estúpida dos preços decorre da questão cambial. Que fique claro: o dólar nos cornos da Lua tira comida da mesa dos pobres. Não sabem, coitadinhos, mas se alimentam de "commodities", de sorte que o maior exportador de alimentos do mundo assiste hoje à fome de milhões e vê os miseráveis a comprar ossos em busca de alguma proteína.

A questão cambial, que ajuda a produzir essa fome, vejam vocês!, colabora para deixar Guedes e Campos Neto mais ricos. E os dois respondem pelos destinos da economia do país. Não! Não estou forçando a mão. Não estou produzindo metáforas. Não estou a articular jacobinismos fáceis. Insisto: desde que Guedes, em fevereiro de 2020, vituperou contra o passado do dólar a R$ 1,80 — segundo disse, as domésticas iam pra Disney, numa "festa danada" —, ele próprio ficou R$ 10.640.000,00 mais rico. O ganho médio mensal é de R$ 532 mil.

É evidente que há uma questão moral incontornável aí. A propósito: o que o Ministério da Economia pensou, nesse tempo, para responder à fome e à inflação de alimentos?

Não dá! Guedes e Campos Neto resolveram parafrasear, à sua moda, o genial Groucho Marx, que disse: "Eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio".

A dupla brasileira diz na prática: "Eu nunca deixaria meu dinheiro num país em que eu fosse governo". E não há nada de genial nisso.

Eis dois marxistas. Da linha Groucho. Só que sem nenhuma graça.

É ilegal!
É antiético!
É imoral!