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Reinaldo Azevedo

Na Folha: Era uma casa muito engraçada, só tinha teto e mais nada; acabou!

Famintos buscam restos de carne em caminhão de ossos no Rio. Cena se repete em outros cidades do país - Domingos Peixoto/Agência O Globo
Famintos buscam restos de carne em caminhão de ossos no Rio. Cena se repete em outros cidades do país Imagem: Domingos Peixoto/Agência O Globo
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

22/10/2021 05h54

Leiam trechos da minha coluna desta sexta:
(...)
Acho o teto de gastos uma boa ideia desde que esteja atrelado a outros propósitos. Mas tenho chamado a atenção há tempos, e não sou o único, para o fato de que, na prática, se tornou mais um fetiche, uma fantasia, do que propriamente realidade. Permito-me pensar a questão, esquecendo, por um breve hiato, a estupidez de Bolsonaro e as fanfarronices de Paulo Guedes. Se alguém tem alguma fórmula, sem furar o tal teto, que responda agora, e não depois -- e ainda que precariamente --, às urgências da miséria e da fome, que, então, nos diga. Queremos saber. Estivesse quem estivesse no poder, dada a realidade, eu escreveria, como escrevo: "Extinguiu-se a causa que levou à promessa de manutenção do teto de gastos". Olhem, por exemplo, a devastação provocada pela Covid-19 nos estratos mais vulneráveis da sociedade.

A minha crítica ao presidente e a seu prestidigitador da Economia, no caso, não coincide com a dos ainda bolsonaristas, ora ressabiados, ou com a dos que desembarcaram da nau dos insensatos. Ainda que o indecoroso "orçamento secreto" seja rapado, inexistem recursos disponíveis para minorar os efeitos da miséria alastrante. O que me incomoda, aí sim, é o fato de o governo não falar com clareza e de insistir em malabarismos de contabilidade criativa. A PEC dos precatórios, note-se, é o quê? Concentra calote, pedalada e fura-teto. Tivesse Guedes o que oferecer e estivesse o rompimento da palavra empenhada do "Príncipe" atrelado a um plano, a especulação certamente seria menor. Ocorre que o limite de gastos, que foi para o beleléu, era a única brocha na qual se pendurava o governo.
(...)
O problema não está em furar o teto, que já foi arrombado faz tempo, mas na falta de eixo da política econômica. Eixo, note-se, que nunca teve. Durante um tempo, a parolagem de Guedes, tentando dar sentido aos anacolutos de Bolsonaro, levou muita gente no bico. Nunca souberam o que fazer. Era uma casa muito engraçada, só com teto e mais nada. Acabou o teto. E agora?
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