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Reinaldo Azevedo

Demissão coletiva, é? Não me peçam para engrossar o choro dos maus motivos!

Teto furado sem metáfora pode até me levar às lágrimas ? quando teto há. Já o outro, aquele..., bem, ele me leva à reflexão: "Devo chorar por isso?" - Reprodução
Teto furado sem metáfora pode até me levar às lágrimas ? quando teto há. Já o outro, aquele..., bem, ele me leva à reflexão: "Devo chorar por isso?" Imagem: Reprodução
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

21/10/2021 22h52

Não há como negar, certo? A crise se instalou no Ministério da Economia.

Diante dos malabarismos de mão de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes envolvendo contas públicas, pediram demissão o secretário de Tesouro e Orçamento, Bruno Funchal; o secretário do Tesouro Nacional, Jeferson Bittencourt; a secretária especial adjunta do Tesouro e Orçamento, Gildenora Dantas, e o secretário-adjunto do Tesouro Nacional, Rafael Araújo.

Não vai ter Natal e Réveillon ruim pra ninguém nessa turma. É gente bem-cotada no mercado. Todos vão ganhar mais na iniciativa privada. Passar pelo governo já eleva o valor do passe. Se for, então, por amor às contas públicas — gente que gosta de corte de gastos —, isso já rende, como se diz por aí, um "plus a mais". São pessoas jovens, com mais futuro do que passado.

É o contrário de Paulo Guedes, o ministro da Economia que chegou ao governo como o chefe dos "Chicago Boys" e hoje se pendura ao emprego mais por vaidade pessoal — não quer uma derrota fenomenal em sua biografia — do que por apreço às próprias convicções, as originais, pelas quais, deixo claro, tenho pouquíssima admiração.

Várias ilusões se desfazem com o desmanche da equipe econômica, certo?

Uma das mais claras e evidentes é a que assegurava que Guedes era a âncora da confiabilidade que impediria Jair Bolsonaro de escolher o caminho da "irresponsabilidade fiscal". A garantia era o seu ministro da Economia — e até evito, porque já é clichê, a metáfora sobre aquele posto de gasolina. Aliás, os combustíveis são um fator importante do desmonte.

Guedes tinha na biografia a rejeição dos tucanos e dos petistas. Bolsonaro era o seu grande momento. Certa feita, afirmei que ele se oferecia como o Pigmaleão de Bolsonaro. Escrevi então:
"Ali estava aquele que se via como o Pigmaleão de uma estátua, então muda em economia, chamada Jair Bolsonaro. Mesmo sem saber para onde ia ou ter um plano de voo detalhado -- além da permanente demonização do Estado e do que ele chamava 'social-democracia' --, o homem ia empurrando o troço com arrogância que fazia as vezes da barriga. E o mercadismo respondia bem. Imberbes e 'baby faces' iam inaugurando páginas de finanças pessoais no Youtube, ensinando à velharada os caminhos do sucesso e da fortuna. O Brasil regredia à surrealista condição de um Jardim de Infância do liberalismo dos anos 50, com pós-crianças de 'gadgets' nas mãos a nos dizer qual era a boa do século passado."

O artigo que traz esse trecho foi publicado no dia 2 de outubro do ano passado. Mas, claro!, foi tomado como coisa dos pessimistas de sempre.

NUNCA TEVE NADA
Esse governo nunca teve nada além do apego à tese do teto, que, por sua vez, já foi rompido faz tempo. É evidente que Bolsonaro e Guedes não estão mandando o dito-cujo às favas, criando novas fórmulas da contabilidade criativa, por amor aos pobres e porque não suportam ver esfomeados revirando o lixo.

Também não se trata da indignação moral diante do fato de que nunca foi tão grande no Brasil a fila de milionários e bilionários à espera de jatinhos e helicópteros — parte considerável da demanda oriunda do agronegócio —, enquanto a inflação do pé de frango e dos miúdos de galinha empurra os miseráveis para os caminhões de ossos.

Não é que eles sejam maus. Têm outras preocupações. E, com todas as vênias, esse quadro desolador que pinto também não levou à debandada da equipe econômica. Mas estourar o teto de maneira tão desavergonhada, aí não! Podemos passar muito bem por outras vergonhas, não por essa! Pobre revirando lixo não depõe contra a carreira de ninguém no Brasil. Mas estourar o teto... Porra! Ai não dá! Isso parece mesmo insuportável.

Cada um faça as suas escolhas, não é? Eu jamais teria aceitado pertencer a essa turma porque não reconheço no conjunto um padrão moral, vamos dizer, minimamente aceitável.

É evidente que considero desprezível o modo como Bolsonaro e Guedes tentam dar um beiço na matemática, na aritmética e no bom senso, mandado os números às favas, no esforço de emplacar a sua contabilidade criativa. O que fazem é arrombar, sim, o teto. Mas não me sinto representando pela tese de que está havendo uma violação das Santas Escrituras quando, afinal, se diz com todas as letras que, dadas as circunstâncias, o teto é inegociável. Por quê?

Trato da questão também na minha coluna de amanhã da Folha, que já está no ar na versão online. Vejo cascatas de lágrimas e indignação pelo fim do teto. Não! Eu não choro por isso. Lamento as tentativas de enganar a opinião pública e a ausência de uma política econômica, digna desse nome, que soubesse negociar o rompimento desse teto — que se tornou incompatível com as condições econômicas em curso —, mas acenando um horizonte, com alguma credibilidade.

Guedes está sendo vítima do fetiche que ele mesmo alimentou, embora conhecesse a fragilidade intelectual, política e moral de sua "estátua" e tivesse noção — porque tem preparo para isto — de que tentava articular o impossível.

CONCLUO
Nesta sexta, se não se inventar nada novo para fazer o contrário, os mercados derreterão mais um pouco. Ou então subirão um pouco porque Guedes, afinal de contas, não caiu. Nunca se sabe... E o que essa gente toda tem a ver com as urgências de quem precisa, sei lá, de uns R$ 150 a mais para comer? Nada.

"Ah, então tudo vale a pena, Reinaldo?".

Não! Eu só não lamento a queda de quem considera mais imoral romper o teto do que largar miseráveis à deriva. Não contem comigo para isso. De resto, nem elegi nem ajudei a eleger essa gente. O lugar de Bolsonaro é a cadeia.

Só não me peçam para chorar por maus motivos.

Que Guedes seja o próximo!

Mas ele fica. Nem que seja agarrado à sua vaidade.