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Reinaldo Azevedo

Moro quer ser a ameba de Doria. E um tribunal para intimidar adversários

Ameba fazendo fagocitose. Moro pretende fagocitar a pré-candidatura de João Doria e fala como porta-voz de quem quer fora da disputa. Impressionante! - gettyimages
Ameba fazendo fagocitose. Moro pretende fagocitar a pré-candidatura de João Doria e fala como porta-voz de quem quer fora da disputa. Impressionante! Imagem: gettyimages
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

06/12/2021 07h17Atualizada em 06/12/2021 13h52

Como sabem, não emprego o termo "polarização", a não ser para reportar o que outros dizem ou para aludir a textos que partem dessa premissa. Eu mesmo renego a existência da dita cuja. Para que existisse, seria preciso haver o polo de extrema esquerda a se contrapor à extrema direita de Jair Bolsonaro — e também de Sergio Moro (já chego lá). E não há. Lula é um candidato de centro-esquerda. Poder-se-ia dizer, no máximo, pertencer à esquerda moderada. Assim, nunca fui refém intelectual da dita "terceira via". Nem sei direito o que isso quer dizer porquanto, necessariamente, esse "tertius" teria de se definir por negação: aquilo que não é nem Lula nem Bolsonaro.

A "angústia da Terceira Via", que pauta o noticiário de política dos grandes veículos, inventou também uma tese: que os postulantes a esse lugar "nem-nem" se lancem para testar o terreno. No ano que vem, ali por abril ou maio, os demais renunciariam em nome do mais bem-colocado nas pesquisas. As coisas não são ditas desse modo cru, mas, ignorados os circunlóquios e a retórica da desconversa, é isso o que quer dizer.

Bem, para começo de conversa, vejo Ciro Gomes (PDT) fora desse arranjo se esse terceiro nome for Sergio Moro. Não me parece haver conciliação possível. Se o ex-governador do Ceará renunciasse à sua candidatura em favor de um nome do campo conservador — Moro, de fato, é de extrema direita —, parece-me pouco provável que seu eleitorado seguisse a orientação. De resto, não há sinais, até agora, de que Ciro possa desistir. Se o fizesse, é certo que não seria numa composição com o ex-juiz.

Alimentou-se por tempo demais esse papo de que os que não são nem Lula nem Bolsonaro estarão juntos na disputa do ano que vem para:
a: tirar o atual presidente do segundo turno;
b: promover depois a guerra santa contra o petista.

Moro, como resta evidente, faz essa aposta, como os outros. Mas seu alvo imediato agora é outro: quer fagocitar João Doria, como fazem as amebas quando se alimentam.

Neste sábado, enquanto o governador de São Paulo estava numa viagem de trabalho a Nova York, com uma agenda bastante respeitável, Moro aproveitou para visitar Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, derrotado nas prévias do PSDB. Não me lembro de Leite ter posado em companhia de Doria em foto tão gentil. Os tucanos, a começar do governador de São Paulo, fingem não perceber o que está acontecendo e dizem que é tudo muito natural. Ocorre que o convite à "cristianização" da candidatura de Doria é escancarado.

Moro concedeu uma estupefaciente entrevista ao "Correio Braziliense". Vai merecer atenção acadêmica um dia. Indagado se poderia abrir mão de sua candidatura, respondeu:
"Nós colocamos nosso projeto em andamento. Dá para usar aquela expressão, este navio já zarpou. Acredito que o nosso projeto, trazendo os partidos, a sociedade, convencendo a população de que nosso projeto é consistente, e a credibilidade das pessoas que estão nele envolvidas, é o que tem a melhor chance de êxito. Nunca tive a ambição pessoal de ser presidente. Para evitar os extremos, se outro projeto tiver melhores chances, não teria problemas em abrir mão. Agora, acredito na liderança do nosso projeto. Assim como acredito que poderia abrir mão, espero que outros tenham o mesmo entendimento, porque nós precisamos somar. Acho que a eleição do próximo ano será decisiva na história da nossa República desde a redemocratização."

Não sei se a frase final foi mesmo dita desse modo ou passou por edição. Como, a rigor não faz sentido, é possível que seja de sua lavra oral.

Peço que a releiam. Notem que ele já se considera o vitorioso no tal terreno da "Terceira Via", embora diga não gostar da expressão. Lembro que, no próximo dia 10, faz um mês que se filiou a um partido. Para ele, seu navio já zarpou. Mas, claro, "para evitar os extremos, se outro projeto tiver melhores chances, não teria problemas em abrir mão." Ignorem a falta de correlação entre os tempos verbais. Deu para entender o que quer dizer. A resposta é fabulosa porque nega aquilo que afirma. "Não teria problemas"... Mas seu "navio já zarpou". Para expressar adequadamente o que pretendia, deveria ter recorrido ao pretérito do subjuntivo: "se outro projeto TIVESSE melhores chances". É evidente que ele não acredita nisso.

Enquanto Doria e os defensores da candidatura do governador investem na política de boa vizinhança com Moro, este vai ao Rio Grande do Sul e, com a concordância de Leite, produz a foto que traduz a irreversibilidade de seu nome e a invasão do ninho tucano. Doria já afirmou, eu sei, que o fato de estarem no mesmo campo não implica que estejam numa mesma candidatura. Mas não saiu por aí antecipando a renúncia alheia.

Em entrevistas e eventos midiáticos de que participa, Moro não se apresenta apenas como um porta-voz da sua própria candidatura. Passou a falar abertamente em nome da desistência dos outros pré-candidatos. Ou, para ser preciso, de "um outro pré-candidato": Doria. O objetivo imediato, reitero, é fagocitá-lo. Ou bem o tucano deixa claro, com todas as letras, que só o PSDB e ele próprio, na condição de vitorioso das prévias, falam pela escolha da legenda, ou Moro sairá por aí, como já está fazendo, a vender a desistência de Doria.

EXOTISMOS
A entrevista é um assombro. O juiz que desrespeitou fundamentos e princípios básicos do sistema acusatório no Brasil coloca-se como um paladino da legalidade.

Volta a pregar a criação de uma corte de exceção no país para punir corrupção, o que é uma aberração jurídica, e diz que o combate à pobreza não pode ser tarefa do governo, mas de uma agência reguladora que seria independente. Esses exotismos inexequíveis, para ele, correspondem a "pensar fora da caixinha".

O Auxílio Brasil vai custar, em 2023, algo em torno de R$ 80 bilhões. Imaginem se esse programa, e outros da área social, ficariam entregues a uma agência independente, sem a necessária interferência política. Essa conversa de que o combate à miséria é só uma questão técnica é uma dessa "jequices" — ou "jeguices" — do pensamento tecnocrático, bisonhamente de direita.

Quanto à tal corte excepcional, bem... A estrovenga seria intrinsecamente inconstitucional.

Espero que este senhor não seja eleito — e acho que não será. Mas a história e seus acidentes estão aí para indicar que tudo é possível. Li a entrevista. O que se tem ali é o desenho de crises institucionais sem fim.

Que coisa! Moro acha mesmo que ele poderá governar o Brasil tendo um tribunal de exceção para ameaçar os políticos e os empresários que não dançarem conforme a sua música e delegando à burocracia sem rosto o combate à pobreza.

É bem pior do que parece mesmo ao leitor mais rigoroso.