PUBLICIDADE
Topo

Reinaldo Azevedo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

CNT-MDA: Lula muito à frente. Alô, esquerda: Bolsonaro está vivo na disputa

Reprodução/CNT-MDA
Imagem: Reprodução/CNT-MDA
só para assinantes
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

21/02/2022 17h38

Pesquisa CNT-MDA, um dos levantamentos sérios feitos no país, traz dados muito relevantes para o observador atento. Ai do bobalhão que achar que a eleição de Lula, do PT, está assegurada, que Jair Bolsonaro já é carta fora do baralho e que é hora de dificultar as alianças com os ex-presidente de olho numa vitória que ainda não veio. O levantamento foi feito entre os dias 16 e 19 de fevereiro, ouvindo 2002 eleitores. A margem de erro e de 2,2 pontos para mais ou para menos. Antecipo o que apontam os números se a eleição fosse hoje:
- Lula venceria com folga a disputa;
- Jair Bolsonaro recuperou pontos em estratos importantes;
- Lula bateria todos os adversários, mas Bolsonaro poderia vencer todos os outros;
- inexiste, até agora, um nome da mal chamada 3ª via.

Vamos ver.

PRIMEIRO TURNO
Se a disputa fosse hoje, o ex-presidente obteria 42,2% dos votos, contra 28% do atual presidente. Ciro Gomes (PDT) e Sergio Moro (Podemos) empatariam em terceiro com, respectivamente, 6,7% e 6,4% dos votos. João Doria (PSDB) viria em seguida, com 1,8%, em empate com André Janones (Avante), com 1,5.

A destacar: na pesquisa de dezembro, Lula tinha 42,8%; Bolsonaro, 25,6%; Ciro, 4,9%, e Moro, 8,9%. Logo, o presidente e o pedetista oscilaram para cima, e o ex-juiz, para baixo. Lula, com 48,8% na jornada anterior, ficou na mesma.

SINAIS
Apontem-se a óbvia resiliência de Bolsonaro e, até agora, a inexistência de um nome do que chamam por aí, de modo que entendo equivocado, de "terceira via. A maratona mal começou. Estando certos os números, há sinais aos quais os adversários de Bolsonaro devem ficar atentos.

No Nordeste, Lula tinha 38 pontos de vantagem sobre Bolsonaro em dezembro. A distância aumentou: 45 agora (61% a 16%). Isso garante a diferença estável entre eles. Mas atenção: a diferença em favor do petista caiu nas outras três regiões: no Sudeste, de nove pontos para dois (33,7% a 31,8%); no Sul, de 12, para 8 (39,5% a 32,1%). E, no Norte-Centro Oeste, de 9 para 1 (35,3% a 34,3%. Do ponto de vista técnico, estão empatados em três regiões. Só o Nordeste dá uma espetacular vantagem ao petista.

Também há movimentações importantes quando se leva em conta a renda. O ex-presidente mantém a dianteira de 30 pontos entre os que ganham até dois salários mínimos (51,1% a 20,6%). Formam 70% da mão de obra, o que explica a sua estabilidade em face do seu principal adversário.

Mas a vantagem caiu de 12 pontos para 2 pontos entre os que ganham de dois a cinco mínimos (34,6% a 33,4%) — vale dizer: empate técnico. Em compensação, entre os que recebem acima de cinco mínimos, a diferença caiu de 7 a favor de Bolsonaro para três pontos: 33,3% a 36,2%.

A vantagem de Lula entre as mulheres segue folgada: era de 24 pontos em dezembro e agora está em 22 (44,1% a 21,7%). Dentro da margem de erro. Entre os homens, a dianteira do petista caiu de 10 para 5 pontos (40.1% a 34,8%). É claro que, hoje, a posição de Lula não está ameaçada. Mas, reitere-se, se os números captam fatos, as pedras ainda estão rolando.

RECUPERAÇÃO, SIM
Se a posição de Bolsonaro em relação a Lula é estável -- o que, nesse levantamento, é garantido pelo avanço no Nordeste e pela estabilidade entre os que ganham até dois mínimos --, é visível que o presidente recupera terreno no confronto com os outros adversários. Isso se revela nos dados sobre o segundo turno.

A vitória do ex-presidente sobre o atual é folgada, mas a diferença caiu em relação a dezembro, ainda que dentro da margem. Lula avança numericamente, mas Bolsonaro também — e um pouco mais. Hoje, 53,2% a 35,3%. Em dezembro, 52,7% a 31,4%. O petista mantém folgadíssima distância em relação a Moro: 52,2% a 29,2%. Antes, 50,7% a 27,4%. O mesmo se dá em relação a Doria: 54,9% a 16,7%. Em dezembro, 53,5% a 14,7%.

É no confronto com os demais candidatos que Bolsonaro recupera bastante terreno, o que demonstra a dificuldade de surgir uma terceira via. Em dezembro, o presidente perdia para Ciro: 43,2% a 33,7%. A diferença caiu no mês passado: 38,6% a 33,4%. E agora estão em empate técnico, com o pedetista numericamente à frente: 41,9% a 37,9%.

Moro aparecia numericamente à frente de Bolsonaro em dezembro: 33,8% a 30,4%. Agora, as posições numéricas se inverteram: 35,6% a 34%. Sim, Bolsonaro é que aparece à frente, ainda que na margem de erro.

Em dezembro, João Doria raspava no empate técnico com Bolsonaro: 36,3% a 33,5% para o presidente. Em dezembro, o tucano encolheu bastante, e o atual mandatário, um tantinho: 34,8% a 25,2%. Nesta jornada, o atual governador de São Paulo cresce: 29,8%, mas o presidente avançou mais: 41,1%.

Vale dizer: Lula segue vencendo a todos com folga, mas Bolsonaro, dados os números CNT-MDA, venceria Doria com certeza, tenderia a vencer Sergio Moro e poderia vencer Ciro — estreita-se a diferença entre ambos.

ENCERRO
Lula venceria a disputa com folga se ela ocorresse hoje. Mas a eleição só acontece em outubro. Como aqui já se disse antes, é muito difícil a Lula ir além do ponto a que chegou no primeiro turno. Com máquina na mão, um presidente da República sempre é um candidato forte, evidenciam outras eleições depois da instituição da reeleição: ninguém foi derrotado até hoje.

Bolsonaro tem a máquina de governo e também a publicitária, além de suas milícias digitais. Não estamos numa corrida de 100 metros, mas numa maratona. Uma coisa é certa: a estratégia aparentemente amalucada do presidente, até aqui, tem dado resultado: a tal "terceira via" não se mexe — e ainda perde terreno, como evidenciam as simulações de segundo turno.

E àqueles que acham que já podem apresentar exigências a Lula em nome da estabilidade do futuro governo, como se a eleição já estivesse ganha, uma advertência: não está.