Reinaldo Azevedo

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Opinião

Gatos-pingados na Paulista; Milei e os vexames; PT e Haddad. E os sem-cura

Caras e caros, vamos a alguns temas que marcaram este fim de semana e à agenda desta que entra, com eventos importantes.

DINO E GONET
As atenções e os olhos estão voltados para a quarta, dia 13, quando ocorre a sabatina na CCJ do Senado, com posterior votação no plenário, de Flávio Dino e Paulo Gonet, indicados, respectivamente, para o STF e a Procuradoria-Geral da República. Há poucas dúvidas sobre a aprovação do segundo; no caso de Dino, há alguma tensão. O bolsonarismo transformou a rejeição a seu nome numa questão de honra. Lendo certo escribas, especialmente depois da divulgação das pesquisas Datafolha e Ipec -- que mostram estabilidade na aprovação à gestão Lula --, fica-se com a impressão de que o governo está perdendo o jogo. É mesmo? E quem estaria ganhando?

Quem lidera a oposição? O bolsonarismo? Com qual proposta? Além das pautas reativas, literalmente reacionárias — para ficar em palavra da mesma raiz —, o que têm os bravos a oferecer? O esforço para barrar o nome do ainda ministro da Justiça não tem nem mesmo um sentido estratégico: o que viria depois? Trata-se ainda do exercício da política do ódio e do golpismo.

"Ah, mas e se o nome de Dino fosse mesmo recusado?" Política nunca é um assunto óbvio. Se acontecesse, é claro que o governo teria de se mexer para se recompor no Senado, o que não traria, necessariamente, benefício aos ditos "patriotas". De verdade, perderia o país. Mas como explicar isso a uma gente sem cura moral?

GATOS-PINGADOS
Os discípulos do "capitão" tentaram lotar a Avenida Paulista mais uma vez. E, mais uma vez, deram com os burros n'água. Neste domingo, a "grande" manifestação contra Dino no Supremo foi melancólica para a turma. Nem mesmo setores da imprensa que resolveram se comportar como babás de fascistoides conseguiram transformar o troço num ato político relevante. Mas, claro!, evitaram chamar o fiasco de fiasco.

E olhem que são fortes os apelos ao rancor dos reaças, não? Afinal, trata-se da indicação de "um comunista", para o "STF", que a horda continua a tratar como inimigo, com o estímulo cada vez menos sutil de certo colunismo que tem de histérico o que tem de ignorante sobre o funcionamento do tribunal. A burrice enfatuada é sempre a mais constrangedora.

Bolsonaro, vê-se, está empenhado em reescrever a história e não desistiu de insuflar seus seguidores contra o tribunal. Em entrevista a um jornalista de extrema-direita na Argentina, afirmou sobre o 8 de janeiro:
"Acusam [os manifestantes] de querer tomar o poder sem armas, sem uma liderança, sem nada. Pessoas que tinham a Bandeira do Brasil numa mão, e a Bíblia em outras mãos. São condenadas por uma tentativa armada de tomar o poder. Nenhuma arma foi encontrada, nenhum estilingue foi encontrado, nada. Ou seja: como o governo domina certos setores, grande parte do Poder Judiciário também, ele faz a sua narrativa, também junto com a imprensa..."

O cara nem aprendeu nada nem esqueceu nada. Quem, sendo um líder político, acusa o Judiciário de não decidir com independência e lisura, está, na prática, incentivando a desobediência. Aquela mesma que resultou nos atos de 8 de janeiro, que ele considera apenas patrióticos ou inspirados pelas Escrituras. Que tais palavras venham a compor os autos dos inquéritos que apuram suas práticas ilegais.

MILEI E OS DELÍRIOS
O ex-presidente brasileiro tentou aparecer na foto com chefes de estado que foram à posse de Javier Milei. Foi barrado. Ainda que tenha, sim, recebido deferências do agora presidente argentino. Convenham: um e outro comportamentos estão adequados a tão deletérias figuras.

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Tem lá a sua graça acompanhar por aqui o esforço de alguns ginastas — em linha, diga-se, com a "grande imprensa" argentina, que parece estar tomada por delírios milagreiros — para tentar emprestar um ar de novidade virtuosa à eleição do "Leão".

Em Banânia, alguns mal contêm seus frêmitos de satisfação diante de palavras como estas:
"No curto prazo, a situação vai piorar, mas depois veremos os frutos dos nossos esforços. Não há alternativas ao ajuste e ao choque. Naturalmente, isso terá um impacto negativo no nível de atividade, no emprego, nos salários reais, no número de pobres e de indigentes. Haverá estagflação (uma mistura de estagnação econômica e inflação), mas não é muito diferente dos últimos 12 anos".

Tiriica foi mais sintético ao pedir voto. "Pior não fica".

Ok. Para quem prometia tudo, até o amor verdadeiro, ele começa bem. Vamos ver como os argentinos vão reagir, não é mesmo? A primeira revolução ele já fez: acabou com os Ministérios da Saúde, da Educação, do Trabalho, da Cultura e do Meio Ambiente. "Viva la libertad, carajo!" O sujeito escreveu isso no Livro de Honra do Senado. Os nossos "libertários" babam de satisfação e estupidez na gravata.

GLEISI, O PT, HADDAD, O DÉFICIT
Por falar em babar na gravata, falemos dos embates no petismo -- e seus desdobramentos fora do partido -- sobre o déficit zero. É visível que Gleisi Hoffmann, presidente do PT -- notem bem: do PT, não da República! -- discorda da escolha feita por Fernando Haddad em favor da tese do déficit zero, ainda que a zero não chegue.

Leio aqui e ali que a crítica de Gleisi seria imprópria porque, à frente do maior partido da aliança, ao qual pertence o presidente, ela deveria estar alinhada com o ministro da Fazenda. Pois é... Eu, pessoalmente, acho a crítica inoportuna, especialmente num momento em que Haddad ainda está empenhado em aprovar medidas que ampliam a receita.

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Se eu fosse petista, iria me ocupar de fazer a denúncia política dos esforços de setores do Congresso para enfraquecer as medidas que buscam ampliar a arrecadação. O esforço do ministro, convenham, busca diminuir a sonegação, elisões fiscais absurdas, patranhas contra o caixa que foram se acumulando ao longo dos anos. Assim, por óbvio, acho que Gleisi está errada.

Ocorre que não é ela, mas o partido. Preside a legenda e tem de representar a média do pensamento da turma. Dito isso, vamos parar com essa mania de escandalização do nada. Cabe a Lula decidir — e com muitos limites, dado um Congresso cada vez mais poderoso — os rumos da política econômica. Sejamos objetivos e olhemos para a história do PT. Desde a redemocratização, que outra legenda tem desempenho ao menos parecido?

Venceu cinco das nove eleições presidências que disputou, foi para o segundo turno em duas (1989 e 2018) e ficou em segundo lugar nas outras (1994 e 1998). E assim é porque o partido efetivamente existe, esteja ou não um dos seus no comando do país. Acho, sim, que os petistas precisam modernizar a agenda, havendo sinais, avalio, de que não compreendem adequadamente certos fenômenos do mundo contemporâneo, como as mudanças das relações de trabalho e a ascensão dos evangélicos — o próprio Lula convidou seus companheiros a refletir a respeito.

Mas insisto: o PT, erre ou acerte, não foi construído no silêncio. Se a legenda discorda da política econômica, seu papel é expressar esse descontentamento, e ninguém precisa anunciar o fim do mundo por isso. Ainda que eu, reitero, considere um erro. Poucos na sociedade brasileira entenderam o caráter absolutamente progressista da luta levada adiante por Haddad. Bem que seu partido poderia colaborar para o esclarecimento.

ENCERRANDO E DE VOLTA AO COMEÇO
A deputada Tábata Amaral (PSB-SP) foi vítima de uma tentativa de assalto em São Paulo. O criminoso quebrou o vidro do carro em que ela estava para lhe tomar o celular, o que não conseguiu. Ela chegou a ferir a mão e o lábio, sem gravidade felizmente. Publicou um vídeo nas redes com o relato e, sim, um certo viés político, ainda que não tenha atribuído a responsabilidade a adversários. Bolsonaristas se manifestaram assim:

"Interessante ver os candidatos esquerdistas reclamando dos assaltos em SP. Justamente eles que sempre defenderam bandidos e xingaram a polícia. Faz o L agora, para de fingimento e não enche a paciência".
Deputado Ricardo Salles (PL-SP), que tenta achar um partido para se candidatar à Prefeitura.

"[Tábata] foi vítima de um 'pequeno delito' praticado por uma vítima da sociedade. Certamente, como sinal de empatia com o assaltante, não irá procurar a polícia truculenta".
Sonaira Fernandes, secretária de Políticas para a Mulher do governo Tarcísio e vereadora licenciada (Republicanos)

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"Tem que reclamar com o painho" [Lula]
Deputado estadual Bruno Zambelli (PL-SP)

A segurança pública é tarefa do governo de São Paulo, cujo titular é Tarcísio de Freitas (Republicanos). Que tipo de gente ironiza e quase comemora o fato de um adversário político ter sido vítima de uma violência? Sonaira deveria ser sumariamente demitida por Tarcísio, mas é claro que vai continuar no cargo.

Voltem à fala de Ricardo Salles, deputado, como Tábata. "Fingimento"? Não "encher a paciência"?

É com esse tipo de gente que certa visão estúpida de apartidarismo e equilíbrio começou a flertar. Uma gente sem cura moral.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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