Reinaldo Azevedo

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Opinião

'A Queda - As Últimas Horas de Lira'

É claro que há um exagero irônico no meu título, né?, pegando carona no filme "Der Untergang", de Oliver Hirschbiegel, simplesmente "A Queda" em Alemão, título espichado no Brasil com "As Últimas Horas de Hitler" — em Portugal, "Hitler e o Fim do Terceiro Reich". É um jeito de atrair o público, informando o tema da obra. "Também você quer caçar cliques, Reinaldo?" Se eu me preocupasse com isso, seria mais um a bater em Dias Toffoli, o que não significa que seja o propósito de todos os que o fazem — pode se tratar apenas de um equívoco.

Lira está furioso como se viu na segunda. Ou finge estar, o que pode dar na mesma aos cofres públicos. Não chegou a ter os chiliques espetacularmente representados pelo ator Bruno Ganz ao encarnar o facinoroso, no trecho de filme talvez mais viralizado da história desde que as redes existem. Até outro dia, era frequente associar adversários e inimigos políticos em derrocada à apoplexia da personagem dirigida por Hirschbiegel e encarnada por Ganz, com legendas quase sempre divertidas. E, por óbvio, não estou associando o deputado a Hitler. Em outros tempos, a advertência seria dispensável. Acontece que os idiotas já foram mais modestos e menos salientes.

A DECADÊNCIA DE LIRA
Eu sei que não parece, mas o atual mandarim da Câmara está em decadência, e ele demonstra que o troço não será suave. Por enquanto, parece que escolhe o estrondo, não o suspiro conformado. Mas por que eu sei disso? Porque existe a Lei da Gravidade Política. O homem já atingiu o ponto mais alto da trajetória ascendente, como uma bola que a gente chuta rumo ao céu, ponto que marca necessariamente o início da descensão, atraída que é pelo solo. Ele jamais será presidente da República. Ainda que dispute o Senado e leve a cadeira, não conseguirá exercer lá um mandarinato.

E assim é com todos. Poucos têm a chance de renascer das cinzas, como Fênix. Lula, por excepcional, parece-me irrepetível — bote o burro na sombra, Bolsonaro! E, mesmo no caso do petista, note-se, as coisas já não são como soíam porque o Poder Executivo foi, em parte, sequestrado por uma espécie de horda legislativa. E são mais raros ainda os que sabem exercer o poder com moderação e, a caminho de se despedir dos tempos de glória, conseguem alcançar alguma paz, encontrando alguma reserva de estoicismo que restava escondida nas dobras da pompa.

Às vezes, nas coisas humanas, é preciso acreditar naquilo que os olhos veem. Lira, nota-se, não é uma pessoa que conviva muito bem com o contraditório. Agigantou-se como um líder sindical da Câmara, e como o "hidrópico doente", de um poema de Camões, "o beber lhe assanha a sede". Na exata medida em que foi acumulando poder, mais poder lhe pedia a mesma sanha que o levava a buscar... poder. Vira vício, E então nós o vemos, no ponto mais alto a que chegou e quando começa a sua queda, a comandar um modelo que chegou ao colapso, de que ele é a cara.

Aqui e ali — e convém que saiba ser voz corrente também entre os que colaboraram para a sua espetacular ascensão —, já se fala que está se tornando mais um problema do que uma solução, mesmo para aqueles que são beneficiários de seu modo de fazer política. "Ele tem demonstrado que não sabe a hora de parar", me disse um. E isso significa que seus modos truculentos podem começar a ser contraproducentes mesmo para os que vinham alimentando seus delírios de poder.

"ELE EXAGEROU"
Saibam: não foram poucas as vozes que sentenciaram: "Ele exagerou". Ou ainda: "Fez um discurso fora do tom". E mais: "Não é assim que se opera a política, sem deixar margem para a manobra". Recuperem os vídeos e observem que os aplausos que se seguiram a suas diatribes truculentas na volta do Congresso ao trabalho, com o fim do recesso, foram discretas. Parafraseando um certo Arthur Lira, "errará grosseiramente qualquer um que aposte" que ele está se sentindo seguro, tranquilo, certo de que terá amanhãs sorridentes.

Não está, não. Já foi deflagrado o processo de sua sucessão. Embora seja público que tem um candidato — Elmar Nascimento (União-BA) —, não é segredo que outros despontam no tal "Centrão". Se é, e é, impossível uma alternativa viável no campo progressista, não é impossível que um conservador mais afeito ao diálogo e mais lúcido se apresente. Lira tem de saber: os que o alçaram a vice-rei do Brasil o fizeram farejar uma alternativa de poder; igualmente sabem perceber o momento em que começa o reverso da fortuna.

Parece-me que ele comete o erro, ditado por seu temperamento e pelo autoengano — muito comum em alguém com seus dotes intelectuais e que chega tão longe — de convocar seus pares para a guerra justamente no momento em que, forçado pela Constituição, terá de começar a pensar na sucessão. "Ah, mas ele quer Eumar e, se ele quer, Eumar será". Não é assim que a música toca, e mesmo o nome de sua predileção deve estar ciente, a esta altura — ou se tornará inviável por obra de seu mestre —, de que tem de negociar. Aquele Lira sanguinolento de segunda-feira não elege ninguém.

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"Ah, Reinaldo, e se o homem escolher mesmo o deputado baiano, e este conseguir se eleger, quem sabe com o apoio do PT?..." Ainda assim, Lira já não será mais Lira porque o poder está na cadeira e nas suas prerrogativas. Outros, em seu lugar, se conformariam. Não parece, definitivamente, ser o seu caso. Sim, ele está com medo de não saber conviver com a irrelevância e, pior do que isso, de que um nome possa sucedê-lo sem a sua bênção. Ninguém ousará dizer, mas há um fastio com o seu modo de conduzir as coisas.

CAMINHANDO PARA O ENCERRAMENTO
Não é ainda um consenso em formação, mas vai se plasmando em vários setores do país a consciência de que o modelo está chegando ao colapso. Lobbies, muito bem estabelecidos no Congresso, conseguem garantir desonerações vergonhosas, que atingem gravemente as receitas. E é claro que todos eles têm seus "justíssimos" motivos na ponta da língua -- o mais "popular", como se sabe, é a geração de empregos. Ocorre que esse mesmo Parlamento, que Lira representa como ninguém, quer sequestrar, numa violação escancarada de uma prerrogativa do Executivo, quase 25%, na forma de emendas, do pouco que resta para custeio e investimentos.

"Ah, Reinaldo, está descontente com o Congresso? Eleja outro." Não voto nesses caras, é óbvio, mas há quem vote. E por isso estão lá. O pressuposto, no entanto, inclusive o dos lobbies, é que a estrovenga seja ao menos funcional. E está começando a deixar de ser.

Concluo observando que Lira é um excelente presidente da Câmara de um país congelado no atraso. "Ah, mas ele colaborou para aprovar o arcabouço fiscal, a reforma tributária..." Sim, as forças em nome das quais atua queriam ver essas pautas — importantes, sim, para o país. Mas agora é preciso seguir adiante e dar consequência às mudanças. E ele está preocupado demais com seus poderes imperiais, que começam a declinar, para enxergar um palmo adiante do próprio nariz. Está deixando de ser útil.

"Alguma saída? Você mesmo escreveu ontem aqui sobre a República da Treva Parlamentar". Sim, alertei para tal risco, e ele existe. O chilique de Lira o demonstra. Ocorre que ele foi longe demais para quem já começou a cair. Vamos ver se alguém mantém a luz do bom senso. Que caia Lira, não o país. Ainda há tempo.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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