Reinaldo Azevedo

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Opinião

As armas de Caroline de Toni e Nikolas para presidir comissões essenciais

Caroline de Toni, de Santa Catarina, presidirá a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, e o mineiro Nikolas Ferreira, a de Educação. A de Previdência, Assistência Social, Infância, Adolescência e Família ficará com o Pastor Eurico, de Pernambuco. Todos pertencem ao PL, e não deveria haver nada de extraordinário nisso. Trata-se do maior partido da Casa, com 96 parlamentares, o que lhe dá condições de negociar e de fazer escolhas. De resto, cumprem-se, do ponto de vista partidário, acordos que remanescem do ano passado. Em tempos normais, lutariam por suas pautas, como deve fazer qualquer representante do povo na Casa, mas respeitariam as regras do jogo. Vai acontecer? Não há nenhum motivo para acreditar nisso.

CAROLINE E SEU FUZIL
Depois de eleita para comandar a mais importante comissão da Casa, Caroline falou como uma pomba, embora, em seu segundo mandato, ela não tenha deixado um só dia de ser falcão. Afirmou:

"Os parâmetros da nossa atuação serão estabelecidos em duas normas muito específicas: na Constituição Federal e no Regimento Interno da Câmara. Por isso, não teremos surpresas nem inovações; temos esse espírito conservador de poder cumprir essas normas".

Pois é... Aí é que está o problema. Seu chefe político fez pregação golpista por quatro anos, sempre dizendo que estava "dentro das quatro linhas". Quando vieram a público seus folguedos golpistas, inclusive as atas, deu uma explicação singela: como "estado de defesa" e "estado de sítio" são disposições constitucionais, organizar-se para decretá-los não seria tentativa de golpe, mas simples exercício legalista.

Se a deputada tiver essa mesma reverência à legalidade, já se pode antever o resultado. Em 2020, ela teve sigilo quebrado pelo STF no âmbito da investigação dos atos antidemocráticos. Nunca se viu uma foto sua ao lado de um exemplar da Carta, mas já postou imagens nas redes portando um fuzil privativo das Forças Armadas. E, na mensagem, mandou ver:
Um governo que defende o seu povo, sempre dará o direito aos seus cidadãos de portar uma arma para defender a sua vida e de sua família, a sua propriedade e a sua liberdade".

Participou de manifestações contra o distanciamento social durante a epidemia de covid. Antevê "um banho de sangue" caso prevaleça o marco temporal para a definição das terras indígenas. E está no grupo que assinou um ridículo pedido de impeachment de Lula.

Ainda que a vaga coubesse, por acordo, ao PL, indaga-se: não havia uma figura um pouco mais disposta à ponderação? Se, fora da CCJ e sem poderes especiais, comporta-se como se vê, como será depois? Ela diz que respeitará Regimento Interno e Constituição. Será à moda do seu mestre?

NIKOLAS FERREIRA
Sim, a Comissão de Educação ficará com o buliçoso Nikolas Ferreira. Esse rapaz vai fazer 28 anos daqui a pouco, mas a sua folha corrida no reacionarismo retórico mais abjeto assombra. Façam aí uma prova para testar sua adesão a pautas que incentivem a intolerância, a violência e o obscurantismo... Ele gabarita. E sempre com alguma sobra.

A indicação de seu nome causou mais torpor — e revolta entre os decentes — do que a de Caroline porque, a rigor, a CCJ lida com aspectos mais propriamente institucionais. Pode, sim, criar transtornos, mas são menores as oportunidades para o berreiro ideológico. Com a Educação é diferente.

E já está sobejamente demonstrado que esses que se dizem "amantes da liberdade" podem se comportar como censores. Vejam o estardalhaço pusilânime que fizeram contra o livro "O Avesso da Pele", de Jeferson Tenório, que integra a lista do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD). A obra está sendo demonizada nas redes com se pornografia fosse, e há o incentivo para que "autoridades conservadoras" a retirem nas escolas. Liberdade para quê? Para discriminar, tripudiar, pregar golpe, depredar, destruir? Liberdade com livros? Aí já é demais!

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Em 2020, ainda vereador, esse que se diz um cristão fervoroso posou, também ele, com um fuzil, exaltando o então presidente Jair Bolsonaro pelos sucessivos decretos armamentistas. O rapaz que vai cuidar da Educação na comissão da Câmara escreveu a seguinte mensagem no aniversário de Jesus Cristo:
"Graças ao governo Bolsonaro você pode receber esse presentinho".

Achou pouco e foi adiante:
"Tudo certinha, registrada. Isso daqui [o fuzil] não veio da favela, nem nada, está registrado com documento certinho. Isso daqui é o que o governo Bolsonaro está por nós. A única coisa que para um homem mau com uma arma é um homem bom com uma arma".

PODERIA, MAS NÃO VAI...
Não é de hoje que figuras um tanto exóticas conseguem chegar à Câmara. Vejam o caso de Jair Bolsonaro. Nos quase 30 anos de mandato, nunca presidiu comissão nenhuma. Os tempos são outros. O, digamos, desequilíbrio ecológico da política, no cruzamento da Lava Jato com a era das redes, fez o que se vê aí.

Também não é a primeira vez que reacionários delirantes ganham assento no Parlamento — em quantidade, é fato, nunca houve tantos. Mas o próprio ritmo de funcionamento das Casas se encarregava não exatamente de civilizá-los, mas de contê-los. O "Mito", é verdade, não se dobrou nem à civilização nem à contenção, mas sempre foi uma figura marginal.

O tal Pastor Eurico é aquele que relatou no ano passado o projeto de proibição do casamento gay, aprovado na mesma comissão que ele vai presidir agora. Em seu texto, leem-se coisas como:
"As relações homossexuais não proporcionam o ganho social que implica exclusivamente o casamento como origem da família".
Parece pouco? Há mais:
"Homossexual é, portanto, contrário ao caráter pessoal do ser humano e, portanto, contrário à lei natural".

Conclui-se, pois, por essa tirada, que não sendo natural, humano também não é.

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A democracia supõe a convivência dos opostos. Para tanto, é preciso que se reconheça a existência do outro e que se aceitem a diversidade e a pluralidade. Não é o caso desses valentes. Na sua atuação no Congresso e na sua militância nas redes, o intuito é sempre destruir a divergência e esmagar o divergente, como se este não tivesse direito de existir; como se fosse "contrário à lei natural".

Quando Nikolas fez aquela pantomima com a peruca, não procurava apenas ser engraçado ou humilhar um grupo de pessoas. Ele se via como "o homem bom contra os maus".

Todos eles chegaram lá, e com muita rapidez, sendo quem são. Por que motivo agiriam de modo diferente? Circula nas redes um vídeo com a participação do jovem deputado num podcast ou algo assim. Alguém lhe pergunta se acredita que a Terra é plana. Entre sorrisos, o futuro presidente da Comissão de Educação responde:
"Posso ser sincero? Eu nunca nem estudei isso aí. (...) Juro! Eu gosto de quem gosta, de quem tem curiosidade com isso. Mas eu nunca nem parei para pesquisar esse bicho. De verdade! Eu não me importo. Sério mesmo. Se a Terra é plana, é oval, é quadra... Pfui! Sabe? Caguei!"

Quem há de negar?

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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