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Pastores "defensores da família" desprezaram as 100 mil mortes por covid-19

O pastor presidente da Igreja Assembleia de Deus - Vitória em Cristo, Silas Malafaia - Reprodução
O pastor presidente da Igreja Assembleia de Deus - Vitória em Cristo, Silas Malafaia Imagem: Reprodução
Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

09/08/2020 17h16

Neste sábado, o Brasil ultrapassou a marca que, gradativamente, foi se tornando real e sendo esperada: 100 mil mortos por covid-19 no país. No mesmo dia, ultrapassamos também os 3 milhões de contaminados. É um momento doloroso e assustador. Também é um momento que pede muitas condolências, luto, conforto, consolo.

A religião é tida como uma das possibilidades das pessoas encontrarem algum alívio em momentos de perda. Em especial para a religião cristã, a referência direta está na famosa mensagem de Jesus sobre "chorar com os que choram" e com o choro do próprio Jesus, que, no evangelho de João, chora ao saber da morte do amigo Lázaro.

Na Páscoa de abril deste ano, o presidente Bolsonaro fez um encontro virtual com diversos pastores, pastoras e cantores gospel, animados com a reunião e com o clamor de "jejum pelo Brasil". O encontro foi organizado pela pastora Iris Abravanel e teve a presença de, entre outros, os pastores Silas Malafaia, Josué Valandro, apóstolo Estevam Hernandes, bispa Sônia Hernandes, além dos cantores Eyshila Santos e André Valadão, R.R. Soares e Robson Rodovalho.

Com o Brasil ultrapassando as 100 mil mortes, fui conferir as redes de cada um dos convidados de Bolsonaro para a sua Páscoa. E esta era uma questão importante, uma vez que a maioria dessas lideranças disputam um lugar de "defensores da vida", atacando permanentemente qualquer um que apoie pautas tidas como progressistas, inclusive outros evangélicos situados mais à esquerda.

O impacto de 100 mil mortes pode ser um importante divisor de águas, sobre quem de fato se importa com a vida. Até o fim deste artigo, surpreendentemente nenhum, absolutamente nenhum dos que estiveram com Bolsonaro na Páscoa fizeram qualquer pronunciamento de luto, condolências e solidariedade às famílias dos 100 mil mortos.

Só no Mato Grosso, cinco pastores da Assembleia de Deus morreram vítima da covid-19. No entanto, horas depois de o Brasil ultrapassar oficialmente o número de 100 mil mortes, o pastor Silas Malafaia, fazia, na verdade, uma série de postagens que tratavam de sexualidade e "ideologia de gênero".

Silêncio no Twitter e no Instagram

Cantores gospel famosos presentes no encontro com Bolsonaro, André Valadão, da Igreja Batista de Lagoinha e Eyshila Santos também não fizeram qualquer menção. Juntos, Eyshila e Valdão possuem mais dois milhões de seguidores no Twitter. Não é difícil imaginar quantas pessoas que faleceram pela covid-19 tinham estes cantores como ídolos ou referência.

O casal apóstolo Estevam Hernandes e bispa Sônia Hernandes, líderes da Igreja Renascer, seguiram o mesmo fluxo. Silêncio e postagens absolutamente sem qualquer relação com a tragédia que se abateu sobre o Brasil.

A ministra Damares Alves, que também é pastora evangélica, fez uma mensagem bastante generalizada, que em momento algum cita os 100 mil mortos. Ela é ministra dos Direitos Humanos. Esperava-se mais.

Robson Rodovalho, da igreja Sara Nossa Terra, e Josué Valandro, da Igreja Batista Atitude, também não tiveram nada a dizer. Suas páginas no Twitter e Instagram simplesmente ignoram o fato.

Organizações religiosas articularam ato "Lamento 100 mil"

Mesmo pastores bolsonaristas, que não estiveram no encontro de Páscoa com Bolsonaro, mas se destacam pela perseguição a evangélicos chamados progressistas, a quem atacam acusando de descompromisso com o chamado cristão e a defesa da vida, não expressaram nenhuma mensagem. Aqueles e aquelas que arrogam para si o título de "defensores da família tradicional", não tiveram nada a dizer, ou não quiseram dizer, às famílias esfaceladas pelo novo coronavírus.

Em contrapartida, foram exatamente os pastores e pastoras, lideranças evangélicas, a maioria identificados como progressistas, atacados por evangélicos conservadores, que se posicionaram e tentaram, por meios diversos e públicos, expressar dor e luto.

Um conjunto de organizações religiosas, sob a condução do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), o Instituto de Estudos da Religião (ISER) e o coletivo Paz e Esperança organizaram um ato chamado "Lamento 100 Mil", que aconteceu virtualmente no próprio sábado (8).

"Estamos fazendo neste dia o encontro que nós nunca gostaríamos de fazer. Mas isso toca a nossa sensibilidade, a nossa humanidade", diz o pastor Clemir Fernandes, da Igreja Cristã da Tijuca, no Rio de Janeiro. "Como gente de fé, temos de clamar: 'Recebe teu povo, ó Deus', oferece teu colo para cem mil acalantos", disse a pastora luterana Lusmarina Campos Garcia.

Lusmarina foi uma das lideranças evangélicas mais atacada como "inimiga da vida" pelos pastores conservadores, que a criticaram por sua defesa sobre descriminalização do aborto em 2018. Parece que a história encontra suas formas de mostrar quem realmente se importa com a vida.

É um importante momento para se pensar sobre isso. Definitivamente 100 mil mortes em cerca de três meses não pode ser um detalhe. Esta é uma incrível oportunidade para ajudar a entender quem realmente tem a vida e a dignidade em mente, e quem tem nada além do desejo de poder, riqueza e influência, mascarado de defesa da vida e da família. Estamos aprendendo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.