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Ronilso Pacheco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como a escravidão nos EUA influenciou estratégia nazista para Holocausto

Memorial do Holocausto em Berlim, na Alemanha - Bernd Von Jutrczenka/EFE
Memorial do Holocausto em Berlim, na Alemanha Imagem: Bernd Von Jutrczenka/EFE
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Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

29/01/2022 04h00

No dia 27 de janeiro celebrou-se o Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto. Como é amplamente conhecido, cerca de 6 milhões de judeus (além de outros grupos como negros, pessoas com deficiência, ciganos) foram assassinados no regime nazista de Adolf Hitler, em uma escalada de morte que se intensificou com as chamadas Leis de Nuremberg.

Em grande parte das lembranças, homenagens, citações, para que esse episódio não seja esquecido, para que nunca mais se repita, uma questão continua invisibilizada, silenciada ou, no mínimo, pouco lembrada: a segregação racial nos EUA e a decretação do programa racista conhecido como Lei Jim Crow, em 1876, foram fundamentais para a criação da estratégia nazista e, inclusive, o projeto de assassinato em massa de judeus.

Em 1935, oito dias após a promulgação das Leis de Nuremberg —a Lei de Cidadania do Reich, a Lei sobre a Proteção do Sangue Alemão e da Honra Alemã— terem sido formalmente proclamadas por Hitler, 45 advogados nazistas embarcaram para Nova York.

A viagem foi uma recompensa para os advogados que criaram a filosofia jurídica do Reich baseada na raça. A proposta era obter "uma visão especial sobre o funcionamento da vida jurídica e econômica americana por meio de estudos e palestras", conforme afirma James Q. Whitman, professor de Direito da Universidade de Yale em seu livro "Hitler's American Model".

Não por acaso, o líder do grupo era Ludwig Fischer, governador do distrito de Varsóvia. Meia década depois, seria ele a decidir a ordem que colocou em prática o famoso Gueto de Varsóvia, os "bairros" criados pelos nazistas, onde obrigavam os judeus a residirem, sujos e infestados de doenças.

Ao chegarem nos EUA, os alemães participaram de uma recepção organizada pela Ordem dos Advogados de Nova York. Inegavelmente, do lado dos advogados estadunidenses, todos os participantes sabiam sobre os recentes eventos em Nuremberg e para onde os nazistas queriam conduzir sua experiência. Mas isso não fez diferença e os nazistas foram muito bem acolhidos.

O livro de Whitman ainda cita o advogado alemão Heinrich Krieger, a quem se refere como "a figura mais importante na assimilação nazista do direito racial americano". Krieger passou o ano acadêmico de 1933-34 como estudante de intercâmbio na Faculdade de Direito da Universidade do Arkansas. Em 1936, ele publicou o livro "Lei de Raça nos Estados Unidos".

Analisando profundamente a lei Jim Crow e toda a sua estrutura de segregação na sociedade americana, que buscava concentrar os negros em guetos, os nazistas fizeram apenas uma ressalva, no que poderia ser "implantado" da Jim Crow na Alemanha.

Eles concluíram que a Jim Crow era um programa racista adequado nos EUA porque os negros já eram oprimidos, pobres e marginalizados. Na perspectiva dos advogados e políticos nazistas, os judeus eram em grande parte ricos e tinham muita influência e poder. Para esta "variável", eles consideraram que a "saída" seria a "solução final".

A chamada "solução final" não foi um problema em ser considerada —os alemães tinham em sua história a experiência de um genocídio contra duas etnias negras (Herero e Nama) que habitavam o que hoje corresponde à Namíbia, no continente africano, entre 1904 e 1908.

Esta ainda é uma questão relevante e pendente. Ao falarmos em "lembrar para que não se repita", é importante destacar que foi o "esquecimento" ou a indiferença ao que acontecia com as pessoas negras nos EUA, ou o genocídio realizado pelos alemães na Namíbia no início do século 20 que abriu o caminho para que o Holocausto ocorresse quase sem chamar a atenção.

Aliás, vale sempre lembrar que a própria promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948, surgiu como resposta ao Holocausto ocorrido com os judeus.

O que também significa dizer que séculos de escravidão, um século de segregação nos Estados Unidos e um genocídio na Namíbia, todos contra pessoas negras, foram incapazes de mobilizar a comunidade internacional em torno de um pacto pelos direitos humanos.