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Por quem o jornalista 'chora' na era Bolsonaro

Bolsonaro deixando o Palácio da Alvorada; ao fundo, jornalistas que cobrem a Presidência. - Reprodução/Twitter
Bolsonaro deixando o Palácio da Alvorada; ao fundo, jornalistas que cobrem a Presidência. Imagem: Reprodução/Twitter
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

04/04/2020 06h00

Nem os contornos dramáticos da crise do novo coronavírus, com tanto sofrimento e morte, impediram que o presidente Jair Bolsonaro continuasse a atacar a imprensa e zombar de jornalistas nas últimas duas semanas. É uma de suas principais obsessões, ao lado das terras indígenas e do nióbio. Acusa a mídia de promover histeria e pânico. Na quinta-feira (2), compartilhou um vídeo em que uma apoiadora diz que "a imprensa faz é acabar com a gente". Ontem (3) chamou os repórteres de urubus.

Os últimos anos têm sido tensos para quem trabalha com jornalismo no Brasil, de repórteres a editores, de blogueiros a colunistas. De todos os tipos de ataques, o mais significativo é o que manda os jornalistas pararem "de chorar, de chororô, de mimimi". Aparece em ondas nas redes sociais quando Bolsonaro deprecia o jornalismo de um modo geral ou um jornalista em particular.

As implicações da expressão, aparentemente boba, são inúmeras. Primeiro, pretende reduzir o jornalista a um saco de pancadas. Depois, afirma que o jornalismo tem lado; logo, só está "reclamando" porque seu suposto campo político foi derrotado nas eleições de 2018. Por fim, diz que os objetivos do jornalista são sempre ou pessoais ou corporativistas. Como se os jornalistas fossem todos advogados de suas próprias causas, atuando como um bloco monolítico, e não tivessem compromisso algum com a coletividade, com os seus leitores.

Essas ondas são acolhidas e estimuladas por Bolsonaro, por alguns de seus principais ministros e pelo seu clã familiar. Nesse ponto o assunto sai do ambiente virtual para ganhar a realidade das ruas e dos órgãos públicos. A confrontação é estabelecida, nos mesmos moldes das que Bolsonaro criou contra o Congresso, as ONGs, a sociedade civil crítica do governo, a oposição parlamentar. De um lado, "os inimigos" do povo, isto é, os jornalistas; do outro, o governo fazendo tudo de melhor e de mais correto, embora atrapalhado pelo "chororô" dos urubus da mídia.

Não que nos governos anteriores a "relação" tenha sido um passeio no parque, longe disso. "No planalto, com a imprensa" (Fundação Joaquim Nabuco, 2010) reúne artigos e entrevistas com os responsáveis pela comunicação na Presidência da República de 1956 a 2010. "A maioria dos jornalistas era hostil. Havia tendência mais de crítica do que de apoio. A imprensa não concordava, agia como oposição", diz Autran Dourado (1926-2012), assessor de imprensa do presidente Juscelino Kubitscheck (1956-1960).

"[Sarney] sofreu as maiores agressões e calúnias e nunca processou ninguém. [...] A 'Veja' foi muito injusta com o Sarney, algumas vezes. Porque só mostrava o lado ruim de tudo. Era muito cáustica, a 'Veja', com o presidente. O 'Estadão' também. [...] Com a 'Veja' não tinha conversa, era pau para lá e pau para cá. Não conversava mesmo", relembra o então assessor de José Sarney (1985-1990), Fernando César Mesquita.

A imprensa, que teve um papel fundamental no impeachment de Fernando Collor (1990-1992), era alvo frequente de reclamações do círculo presidencial. "Era um vale-tudo espantoso. As redações eram majoritariamente petistas e essas pessoas se sentiam derrotadas com a eleição de Collor. Havia uma grande má vontade", diz, no livro, Cláudio Humberto, o então assessor de imprensa de Collor. "Houve um surto, digamos assim, de jornalismo investigativo. Boa parte dos casos fazia sentido, mas muita coisa foi produto da leviandade e da fantasia, quando não do interesse político-partidário do jornalista, que jamais engoliu a derrota de Lula, em 1989."

Anos depois do impeachment, Collor deu uma entrevista hostil à jornalista Sonia Bridi, da TV Globo. Colérico, dava soquinhos na mesa. "Você me faz perguntas inteiramente desinformada, minha filha. Filhotinha! [...] Você não está aqui de boa-fé, minha filha. Suas perguntas estão viciadas, eivadas de má-fé."

No último volume de suas memórias, "Diários da Presidência, 2001-2002" (Companhia das Letras, 2019), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso diz que a imprensa "inventava" histórias sobre o chamado Dossiê Cayman. "É inacreditável. O que a mídia tem feito nessa matéria é inacreditável, sobretudo a 'Folha'." Ele acusa o jornal de ser inconsequente. "A 'Folha' vai continuar sendo o que ela é: um jornal que não mede as consequências dos escândalos que gosta de provocar e de produzir, como no caso de Cayman."

FHC estendeu as críticas a "O Estado de S. Paulo" e concluiu que "esses jornais transmitem ao país uma impressão, uma sensação falsa de que tudo é podre". "Envenena a opinião pública. A mídia do Brasil faz questão de mostrar que tudo é podre, quando, na verdade, eles é que propagam fantasias." Alguma diferença essencial das acusações que Bolsonaro lança hoje em dia contra a imprensa?

Em 2004, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentou expulsar do país o correspondente do "The New York Times", Larry Rohter, que havia escrito um reportagem sobre os hábitos etílicos do petista. O presidente recuou depois que o jornal mandou uma carta que o governo considerou uma "retratação". No ano seguinte, logo após o início do escândalo do mensalão, Lula discursou para uma multidão em Bagé (RS) sobre "o nome dos inocentes que foram manchados pela imprensa do Brasil inteiro, alguém vai ter de pedir desculpa". "Muitas vezes as pessoas preferem vender as desgraças em vez das coisas boas."

Em 2014, quando ainda não era alvo da Operação Lava Jato, Lula fez de novo uma dura acusação à imprensa, em discurso durante um encontro nacional do PT a favor da reeleição de Dilma Rousseff. "Estamos em uma disputa eleitoral. Disputa eleitoral tem sempre troca de farpas. E nós temos alguns partidos adversários. Mas o principal partido de oposição é a imprensa."

Bananas

Feito o retrospecto, não, não cabe nem estou fazendo um falso paralelismo com os dias atuais. A atual situação é inédita em volume e método. O problema é o tom? Não, o problema é o objetivo final. A desqualificação da imprensa, as bananas aos jornalistas, as gracinhas levianas, as patadas em entrevistas coletivas são atitudes de um presidente jamais vistas no Brasil desde a redemocratização, em 1985, e indicam a tentativa da destruição do jornalismo como intermediário crível entre o fato e o público.

Na era Bolsonaro, jornalistas têm sido ofendidos, marcados e perseguidos apenas por divulgarem fatos comprováveis, por escreverem "verdades verdadeiras", como se diz no interior - alertarem sobre uma pandemia, por exemplo. Ou por darem opinião, uma das funções do jornalista desde sempre.

A ideia dos Bolsonaros é que a imprensa acabou ou está prestes a acabar e que sobrará a comunicação direta entre o clã e o seu próprio eleitorado. A partir de então, a massa só receberia "a verdade" que, obviamente, apenas o bolsonarismo domina e compreende. Esse plano geral é incomparável com o passado recente. Mesmo com todas as críticas, Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma reconheceram, em algum momento, o jornalismo como peça da democracia, e isso faz toda a diferença.

Jornalistas erram e às vezes erram barbaramente. Com alguma frequência confundem fatos e conceitos, muitas vezes pressionados pelo relógio. Tudo isso é verdade. A crítica ao exercício do jornalismo é necessária, é esperada, é essencial para a própria sobrevivência do jornalismo. Mas o que a sociedade brasileira não poderia aceitar passivamente é o plano de destruição do jornalismo, expresso na forma de xingamentos, mentiras e linchamento virtual. Como funcionaria uma democracia sem jornalismo? Os poderosos tendem a extrapolar quando as pessoas não estão prestando atenção.

A natureza do jornalismo impõe a marcação cerrada sobre os governantes. Aponta, reclama, corrige, questiona, problematiza, desmente. Os governantes e seus apoiadores, é claro, desgostam de tudo isso; eles toleram e exaltam a imprensa "a favor".

Voltando ao "chororô". Um poeta inglês, John Donne (1572-1631), cunhou versos humanistas que muito depois deram título a uma obra-prima de Ernest Hemingway (1899-1961). Escreveu que as pessoas não precisam perguntar por quem os sinos dobram, pois eles dobram por elas mesmas. A morte de um ser humano não é só a perda para alguém em particular, mas para toda a humanidade. Ou seja, alguém que chora pode estar chorando pelo infortúnio da própria pessoa que está olhando o choro.

Então, quando um jornalista dobrar os sinos, não precisa perguntar por quem ele chora, já está aqui a resposta - ele chora inclusive por aquele que o xinga.

Rubens Valente