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Bolsonaro atiça a indisciplina ao testar estabilidade das Forças Armadas

19.abr.2020  O presidente Jair Bolsonaro discursou em frente ao Quartel General do Exército para uma plateia de militantes que pedia intervenção militar, AI-5 e fechamento do Congresso e do STF - Reprodução/Facebook/@jairmessiasbolsonaro
19.abr.2020 O presidente Jair Bolsonaro discursou em frente ao Quartel General do Exército para uma plateia de militantes que pedia intervenção militar, AI-5 e fechamento do Congresso e do STF Imagem: Reprodução/Facebook/@jairmessiasbolsonaro
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

04/05/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Militares e ex-ministros da Defesa analisaram cenários sobre as Forças Armadas
  • Para Aldo Rebelo, cúpula das Forças Armadas se preocupa com "mau exemplo" dado pelo presidente da República
  • Raul Jungmann vê "uma espiral de degradação e deterioração da vida política nacional"
  • Para Jaques Wagner, Bolsonaro "não tem como capitanear nada, não tem projeto para o Brasil, a não ser a baderna"

Em conversas "em off" com oficiais da ativa das Forças Armadas de 2017 a 2019, eu apresentei o seguinte cenário hipotético: uma vez eleito presidente da República, Jair Bolsonaro enfrenta uma crise de popularidade e passa a acusar o Congresso, o Judiciário e a imprensa pelos seus próprios fracassos e sua incapacidade de lidar com a democracia. Nesse meio tempo, um batalhão do Exército em algum lugar do Brasil resolve declarar apoio ao presidente na forma de uma insubordinação, uma "quartelada", promovendo um ato contra as instituições. Como reagiriam os comandantes militares?

"Todos presos imediatamente, todos presos", disse um general, no que pareceu uma legítima indignação contra a quebra da hierarquia. Mas, prosseguindo no meu "pior cenário", eu lembrava que em um quartel sublevado não há mais cadeia de comando. Quem iria cumprir a ordem de prisão? Um oficial sorriu: "É por isso que nunca vamos deixar chegar a esse ponto".

A resposta, que se repetiu nas conversas de forma mais ou menos parecida, me pareceu precária: "Não vai acontecer porque não vamos deixar acontecer". Um oficial acrescentou que é importante "apertar os parafusos da hierarquia e da disciplina", pilares das Forças Armadas.

Nas conversas, eu pedia que indicassem o nome de um civil que consideravam ter sido um bom ministro da Defesa. Para minha surpresa, quase todos citaram o nome de Aldo Rebelo (SD-SP), um comunista de formação, militante de esquerda contra a ditadura militar (1964-1985), que comandou a Defesa por alguns meses (2015-2016) no governo Dilma Rousseff. Disseram que Rebelo honrava os compromissos feitos com os oficiais, até os menores, como assegurar uma verba para um hospital militar em dificuldades.

Acima de tudo, porém, Rebelo é um nacionalista, tendo até apresentado um projeto de lei que pretendia reduzir os estrangeirismos na língua portuguesa. Manifesta preocupações sobre a presença de algumas ONGs estrangeiras na Amazônia, um tema caro aos militares em suas persistentes teorias conspiratórias. Há cerca de um ano e meio, quando procurei Rebelo para saber sua opinião sobre o humor nos quartéis, ele enfaticamente me tranquilizou, dizendo que não havia nenhum risco de quarteladas e que tudo estava sob controle.

Há duas semanas, contudo, após a participação de Bolsonaro em um ato público na frente do Comando do Exército, em Brasília, a análise de Rebelo mudou um pouco. Ele continua dizendo que, nos quartéis, "não está acontecendo nada", mas a presença de Bolsonaro no ato gerou intranquilidade.

"Me parece que a principal preocupação da cúpula das Forças Armadas é exatamente que um mau exemplo vindo de cima estimule atos de indisciplina, de quebra de hierarquia, no pessoal de baixo. Nos tenentes, no pessoal mais jovem, que ainda não tem maturidade. Bolsonaro é o chefe das Forças Armadas, é o presidente da República. Quando o chefe comparece a um ato que de certa forma subverte a ordem legal, porque prega que os outros Poderes sejam fechados, isso funciona como um mau exemplo."

'Minhas Forças Armadas'

Bolsonaro participou do ato em frente ao Comando no dia 19 de Abril, Dia do Exército. No dia 16, ao criticar a estratégia de isolamento social dos governadores, disse que "jamais eu mandaria as minhas Forças Armadas prenderem quem quer que estivesse nas ruas". "Minhas?", foi uma pergunta comum entre observadores políticos. Neste domingo (3), em um novo ato que prega medidas anti-democráticas, Bolsonaro disse numa live que que ele tem o povo ao seu lado e que "temos as Forças Armadas ao lado do povo, pela lei, pela ordem, pela democracia, pela liberdade".

Se ele está do lado do povo e as Forças Armadas estão ao lado do povo, então Bolsonaro está com as Forças Armadas ao seu lado para qualquer coisa? Para Aldo Rebelo, nunca, caso a proposta seja uma aventura golpista.

"Se houver um transtorno em algum quartel, o que não acredito que vá acontecer, seria uma coisa rarefeita. Seria marginal, secundária. Não teria efeito nenhum. Porque o Bolsonaro é desorientado, os generais tentam ajudá-lo. Não há ambiente interno e externo para nenhuma aventura de nenhuma forma. Se houve uma instituição que não conspirou, foi a dos militares. Não querem essa responsabilidade para eles, é muita dificuldade para eles. Os oficiais da ativa se mantêm cada vez mais distantes da política. O comandante do Exército [Edson Pujol], cada vez mais discreto. E isso encontraria grande resistência na Marinha e na Aeronáutica, não querem saber disso. Tem ojeriza, horror."

Mas então qual a saída, só aguardar para ter certeza de que tudo seja apenas fogo de palha? "As instituições do país que seguem funcionando precisam enfrentar isso, precisam criticá-lo [Bolsonaro], cobrar dele o respeito à Constituição. O Supremo, o Congresso, as instituições não podem aceitar. Mas, hierarquicamente, os militares não podem cobrar isso do presidente, não podem censurar o presidente, ao qual são subordinados."

'Espiral de degradação'

O ex-deputado federal Raul Jungmann (ex-PPS) comandou o Ministério da Defesa por quase dois anos no governo de Michel Temer (2016-2018). Ele compartilha a preocupação de Rebelo sobre os atos mais recentes de Bolsonaro. "Há uma espiral de degradação e deterioração da vida política nacional. Os motores dessa degradação continuam ligados. Mas não há saída fora da política. E o presidente diz que se nega a fazer política", disse o ex-ministro à coluna.

Jungmann compreende que, de fato, "uma parte deles [militares] está achando que o Congresso está se excedendo e algumas decisões do STF, também. Isso termina contaminando o ambiente". Arroubos autoritários, contudo, tendem a ser repudiados pelo comando das Forças Armadas. "A profissionalização nas Forças Armadas é alta e essa geração que está aí pagou os efeitos de 1964 sem ter feito o [golpe de] 1964. Há um fator diluente, solvente, que é a presença no governo de grande quantidade de militares da reserva e só alguns da ativa. Mas não há como impedir essas relações entre os dois grupos, eles se comunicam, estão lá dentro, e se falam."

A raiz dos atuais problemas, para Jungmann, está na recusa de Bolsonaro em aceitar as características do seu próprio mandato. "O presidente se elegeu sabendo que o Brasil tinha um presidencialismo de coalizão mas resolveu não fazer o presidencialismo de coalizão. Se ele renuncia ao presidencialismo de coalizão, ele renuncia ao alinhamento."

Aldo Rebelo disse algo semelhante: "Ele [Bolsonaro], como deputado, pensar ou dizer certas coisas, tudo bem, era uma coisa, morria na tribuna da Câmara. Agora, como presidente da República ir para a porta do quartel... Isso tem que ser enfrentado. Ele tem que respeitar as regras do jogo. Ele pode até pensar que se elegeu porque enfrentou a regra do jogo, mas ele ganhou nessa regra. Se ele não queria governar com esse Congresso, ele que não saísse candidato a presidente da República. Era isso que ele iria encontrar. A mídia que ele não gosta era isso, é isso aí. Não está na sua escolha. Ele resiste a respeitar isso, organiza um grupo de ódio. É da Presidência que saem os ataques às instituições, ao presidente da Câmara, ao Congresso, ao presidente do Supremo, aos ministros que não são do agrado do grupo do ódio".

'Não tem projeto'

Um terceiro ex-ministro da Defesa ouvido pela coluna, o atual senador Jaques Wagner (PT-BA), ficou à frente do ministério de janeiro a outubro de 2015. Ele considera que Bolsonaro, ainda que tentasse, não conseguiria sequer iniciar uma aventura no campo militar.

"O presidente não tem como capitanear nada, não tem projeto para o Brasil, a não ser a baderna. [...] Quando se perde a liturgia, os valores e respeito das instituições, as coisas perdem o rumo, ninguém sabe o que está por vir. Não acredito que a figura dele anime o comando das Forças Armadas a entrarem em qualquer aventura capitaneada por ele. O próprio ato de domingo (Dia do Exército) é uma afronta. Aquele lugar é destacado como espaço das grandes paradas, é um lugar especial."

Para o senador, as Forças Armadas continuarão repelindo aventuras golpistas, a começar pelo Exército. "O comandante Edson Pujol sempre deu mostras de que ruma para a profissionalização do Exército. Do ponto de vista de ocupação do território nacional, o que conta mais é o Exército, apesar de a Aeronáutica ter mais poder de destruição. O Exército acaba fazendo política de forma mais direta, se relaciona com prefeitos, governadores. A formação do militar é a formação da brasilidade."

Wagner também salientou as dificuldades que Bolsonaro têm em dialogar com as forças políticas da democracia. "Ele só consegue pensar no sistema binário do pensamento, 'ou está comigo ou está contra mim'. Ele precisa de um inimigo externo o tempo todo. Eu por mim desprezaria as falas dele. Nós passamos o dia inteiro discutindo os impropérios que o presidente fala."

"Continuo com a minha sensação de que ele trabalha pensando em 2022. Está mais preocupado em manter os 25%, 30% dos eleitores aderentes ao fanatismo e a tudo isso que ele fala. E é inegável que nessa estratégia vive afrontando a democracia."

Para o senador, as origens da atual instabilidade política remontam a 2016. "A responsabilidade sobre tudo isso - sou suspeito para falar, por ter integrado o governo - mas quem deveria estar se imolando em praça pública são meus amigos da política que toparam atirar na democracia com a palhaçada do impeachment da Dilma."

Rubens Valente