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Rubens Valente

Alta escola militar inclui livro de olavista em sua bibliografia

Olavo de Carvalho histriônico - Reprodução/Youtube
Olavo de Carvalho histriônico Imagem: Reprodução/Youtube
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

19/07/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Livro que prega contra esquerda, universidades, classe artística e jornalistas integra lista de leituras da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais
  • A coluna obteve, pela Lei de Acesso à Informação, as bibliografias de três das principais escolas militares do país
  • Escolas militares defendem a excelência do seu ensino e dizem que não há alinhamento com ideias de autores

O livro de um seguidor do escritor bolsonarista Olavo de Carvalho é listado como bibliografia básica de uma das principais escolas militares do país voltada para o aperfeiçoamento de oficiais da ativa. Ao mesmo tempo, a escola não considera nem Amazônia nem povos indígenas em seu Plano de Disciplinas e, por isso, não inclui livros sobre os dois assuntos.

A coluna solicitou, por meio da Lei de Acesso à Informação, as bibliografias básicas das três principais escolas do Exército nos campos da história militar, Amazônia, geopolítica, relações internacionais, povos indígenas e ciências políticas. As referências bibliográficas podem ou não ser usadas, pelos professores, na elaboração das aulas. Por constarem das bibliografias, os livros podem ser encontrados mais facilmente nas bibliotecas das instituições.

As três instituições responderam: Aman (Academia Militar das Agulhas Negras), EsAO (Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais) e Eceme (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército).

Aberta em 1920, a EsAO é apelidada de "a Casa do Capitão" e tem a missão de "atualizar e ampliar os conhecimentos dos jovens oficiais do Exército", oferecendo cursos de pós-graduação lato sensu e capacitação "para situações de guerra" dentro da "Doutrina Militar Terrestre", segundo a escola. Também atua na formação de oficiais da Marinha, da FAB (Força Aérea Brasileira), de policiais militares nos Estados e de militares estrangeiros. Até 2018, ela havia formado 29.805 oficiais do Exército, 746 da Marinha, 20 da FAB, 38 PMs e 1.100 oficiais de 21 países.

O livro do olavista Flávio Gordon "A corrupção da inteligência" (editora Record, 2017) integra a bibliografia da EsAO no campo da "história militar" - ao todo, foram citados 21 obras nessa disciplina. No livro, Gordon faz diversos ataques aos professores universitários, artistas, jornalistas, petistas e até a militares das Forças Armadas, sugerindo que eles "subestimaram" a esquerda. Ele apresenta a esquerda como o grande problema do país e argumenta que ela promove uma "guerra cultural".

'Maior intelectual brasileiro vivo'

Carvalho, escritor radicado nos EUA e influenciador do clã Bolsonaro, é citado 25 vezes no livro. Gordon o chama de "o maior intelectual brasileiro vivo" e diz nos agradecimentos que não consegue "estimar a dívida intelectual para com o professor Olavo de Carvalho. Para além do conteúdo de seus ensinamentos, e do leque de referências bibliográficas e culturais que me abriu, com ele aprendi a ter algo que, na ausência de melhor termo, gosto de chamar de altivez intelectual, sem o que toda atividade da inteligência fica comprometida".

O trecho de um livro de Olavo é transcrito por Gordon: "Jornalistas, cineastas, músicos, psicólogos, pedagogos infantis e conselheiros familiares representam uma tropa de elite do exército gramsciano. Sua atuação informal penetra fundo nas consciências, sem nenhum intuito político declarado, e deixa nelas as marcas de novos sentimentos, de novas reações, de novas atitudes morais que, no momento propício, se integrarão harmoniosamente na hegemonia comunista".

Um ex-aluno de Olavo, que pediu para não ter o nome publicado por temer retaliações, disse que o livro de Gordon, formado em Antropologia no Rio e nascido em 1979, é muito citado por olavistas e sempre teve o apoio de Olavo. "Basicamente o livro apresenta e recicla as ideias do Olavo, ao dizer que a esquerda dominou as universidades e há toda uma classe jornalística, artística, moralmente corrompida, voltada para destruição dos valores. Ele dá uma motivação para as pessoas ocuparem o espaço da esquerda."

Além de Gordon, outro autor muito querido por Olavo de Carvalho integra a bibliografia da EsAO, o general de brigada reformado Sérgio Augusto de Avellar Coutinho (1932-2011). Ele apresenta uma tese na linha da exposta por Gordon a partir de interpretação de escritos do filósofo marxista Antonio Gramsci (1891-1937). O livro referenciado pela EsAO se chama "A Revolução Gramscista no Ocidente: A Concepção Revolucionária de Antônio Gramsci em os Cadernos do Cárcere" (ed. Biblioteca do Exército, 2012).

'Obras limitadas e desatualizadas'

A coluna submeteu as bibliografias de EsAO, Eceme e Aman a quatro professores universitários - dois preferiram não ver os nomes publicados porque também dão aulas para militares e temem uma saia justa a partir das críticas.

O historiador Carlos Fico, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e especializado na história da ditadura militar (1964-1985), considerou as indicações bibliográficas das três escolas, "em termos gerais, bastante limitadas e, sobretudo, desatualizadas".

"Mesmo se pretendendo uma abordagem conservadora - como é o caso - há autores contemporâneos que poderiam ser incluídos", disse Fico. Ele salientou que autores conservadores citados, como Samuel Huntington (1927-2008) e Henry Kissinger (1923-), "merecem ser lidos", no entanto "caberia adotar outros, nem tão marcados pela Guerra Fria".

"A Eceme também recomenda manuais ultrapassados de metodologia da História. No caso da Aman, a bibliografia sobre História Militar é pífia, sobretudo considerando-se os bons autores brasileiros sobre o tema. No caso da EsAO, isso se verifica nas indicações referidas às Relações Internacionais. Haveria, também no caso da EsAO, a possibilidade de enriquecimento e atualização, embora se verifique a presença de bons historiadores, como Marco Antonio Villa [1955-] e Thomas Skidmore [1932-2016]."

O livro de Villa incluído na bibliografia é "Ditadura à brasileira: 1964-1985: a democracia golpeada à direita e à esquerda" (Leya, 2014). O de Skidmore, "Brasil: de Castelo a Tancredo" (Paz e Terra, 1988).

Fico ressaltou a importância de se jogar luz sobre a formação educacional dos militares no país. ", entre alguns analistas, a ideia de que os militares são 'bem preparados' - o que justificaria sua ida para o atual governo, por exemplo. A verdade, entretanto, é que a formação militar é bastante limitada e constrangida por enfoques que ainda guardam o ranço do mundo bipolarizado entre capitalismo e comunismo."

'Dificuldade de se discutir o Brasil'

Paulo Rodrigues Ribeiro da Cunha, professor e pesquisador do tema militar, doutor em ciências sociais pela Unicamp, disse ver "uma abertura maior do que você poderia esperar", mas "ainda dentro de um eixo conservador, não há inclusão muito grande de autores no campo crítico, que poderiam gerar uma reflexão importante".

Sobre ausência de obras específicas a respeito da Amazônia e povos indígenas, Cunha disse ver "ainda uma dificuldade de se discutir o Brasil". "Até por que o índio é elemento central em defesa da Amazônia dentro do projeto estratégico brasileiro. E o índio não é considerado? Isso realmente fica faltando."

Das três escolas, Aman e EsAO informaram que tanto "Amazônia" quanto "povos indígenas" não são "assuntos abordados no Plano de Disciplinas". A Eceme não fez essa observação, mas nenhum dos livros citados trata diretamente dos dois assuntos. Nas três escolas, não há nenhum livro escrito por um indígena ou um ambientalista civil de renome. Na Eceme e na Aman, a maior referência possível ao Norte do país se encontra na obra de um militar que tratava de geopolítica, o general de divisão Carlos de Meira Mattos (1913-2007), mencionado com cinco obras.

Cunha se surpreendeu com a presença, na bibliografia da EsAO, do militar e historiador Nelson Werneck Sodré (1911-1999), do campo da esquerda, que teve os direitos políticos cassados e foi preso por quase dois meses após o golpe militar de 1964. "Dá para ver uma certa oxigenação que atribuo um pouco a uma nova geração de militares que anda participando mais dos debates, ligados à Associação Brasileira de Estudos de Defesa [Abed], muitos militares estão fazendo mestrado e doutorado."

Criada em 2005, a Abed é uma associação "de caráter científico cuja finalidade é congregar pesquisadores que desenvolvam estudos e pesquisas sobre defesa nacional, segurança nacional e internacional, guerra e paz, relações entre forças armadas e sociedade, ciência e tecnologia no âmbito da defesa nacional e questões militares em geral". O livro de Werneck Sodré incluído pela EsAO na sua bibliografia é do livro "História militar do Brasil" (ed. Civilização Brasileira, 1968).

'Não há alinhamento da escola com autor'

Em nota à coluna, a EsAO afirmou que sua biblioteca "possui 15.000 volumes, entre livros, periódicos e documentos, incluindo obras e títulos raros, de destacados autores nacionais e estrangeiros, de variadas escolas e épocas, fornecendo amplo enfoque sobre inúmeras áreas do conhecimento. Nesse contexto se insere o livro de Flávio Gordon, ou seja, mais uma opção de leitura sugerida aos alunos, dentre tantas outras. Não há alinhamento da Escola com o pensamento de nenhum autor específico".

O pedido feito pela Lei de Acesso não tratou dos livros que constam das bibliotecas das escolas, mas sim da bibliografia básica em cada área do conhecimento mencionada no requerimento.

Na nota, a EsAO disse ainda que "é um estabelecimento de ensino superior pertencente à linha de ensino militar bélico, tendo iniciado suas atividades em 8 de abril de 1920, como um espaço de discussão, atualização e divulgação da Doutrina Militar Terrestre, por onde são capacitados para situações de guerra todos os capitães de carreira do Exército Brasileiro. É reconhecida internacionalmente como um centro de excelência de ensino militar, com nível de pós-graduação lato sensu".

A direção da escola disse que seu corpo docente é formado por "especialistas militares e civis" e hoje conta com 463 alunos, dos quais 15 são estrangeiros. "O reconhecimento internacional e a tradição da EsAO, aliadas à diversidade de títulos constantes de sua biblioteca e a capacitação de seus especialistas civis e militares, demonstram a atualidade e a potencialidade de ensino da Doutrina Militar Terrestre do Exército Brasileiro".

'A Eceme é centro de estudos de excelência'

Também procurada pela coluna, a Eceme (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército) afirmou que "tem construído uma reputação de excelência no ensino militar ao longo de mais de cem anos de história. É o estabelecimento de ensino de mais alto nível do Sistema de Educação e Cultura do Exército".

A escola afirmou que sua abordagem metodológica "não se restringe àquela necessária para o planejamento das operações militares". "A integralidade da educação vivenciada pelos alunos da Eceme compreende o estudo de variados assuntos, que suscitam questões para as quais se aplica apropriado método de análise
diante da ampla variedade de problemas a solucionar, muitos deles inéditos."

A Eceme mencionou que sua biblioteca tem 36.366 volumes, dos quais "219 considerados históricos, além de
estar ligada a outras bibliotecas no país e no exterior, sendo especializada em Ciências Militares".

"A projeção da Eceme no cenário internacional é bastante expressiva, pois cerca de 700 oficiais de nações amigas, de todos os continentes, têm frequentado o Curso de Estado-Maior há décadas, alcançando cargos relevantes em seus países e demonstrando o elevado nível de preparação fornecido. Em 2020, há sete oficiais estrangeiros frequentando o curso, cerca de metade da média anual devido à pandemia."

A escola conta com professores civis e militares, dos quais 10 professores doutores, nos cursos de mestrado acadêmico e de doutorado em ciências militares.

"A criação do Instituto Meira Mattos e o reconhecimento dos cursos de seu Programa de Pesquisa e Pós-graduação em Ciências Militares pela Capes completam o papel desempenhado pela Eceme como centro de estudos de excelência. Essa iniciativa provocou o aprimoramento da pesquisa acadêmica conduzida pela Escola e fomentou a celebração de acordos e parcerias com instituições nacionais e estrangeiras."

Sobre a ausência de obras a respeito dos indígenas e da Amazônia na bibliografia, a Eceme afirmou que "o ensino por competências conduzido nas escolas do Exército atribui grande relevância às experiências vivenciadas por seus alunos militares".

"Portanto, a questão da Amazônia, particularmente em temas indígenas e ambientais, é algo que faz parte da própria cultura profissional do Exército. Vale a lembrança de um dos maiores ícones do indigenismo brasileiro, o marechal Cândido Mariano da Silva Rondon. De origem indígena, esse soldado brasileiro, por certo, é uma das maiores referências mundiais entre os estudiosos do tema. Suas virtudes de soldado e cidadão, precursor
das políticas indigenistas contemporâneas, servem de inspiração aos militares do Exército Brasileiro em sua atuação no desenvolvimento, na proteção aos brasileiros de origem indígena e na defesa da soberania nacional na Região Amazônica."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Rubens Valente