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Planalto colocou a réplica de outro quadro no lugar de "Orixás", de Djanira

Réplica do quadro "Praia do Nordeste" que foi colocado em dezembro de 2019 no lugar de "Orixás", da pintora Djanira, no Salão Nobre do Palácio do Planalto - Acervo Pessoal/Rubens Valente
Réplica do quadro "Praia do Nordeste" que foi colocado em dezembro de 2019 no lugar de "Orixás", da pintora Djanira, no Salão Nobre do Palácio do Planalto Imagem: Acervo Pessoal/Rubens Valente
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

31/08/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Quadro da pintora brasileira que retratava três divindades de religiões de matriz africana foi enviado para o arquivo do Planalto
  • Secretaria da Presidência diz que "a exibição de réplica do acervo histórico e artístico" é considerada "um veículo adicional de difusão desses bens"

O Palácio do Planalto colocou uma réplica de outra obra no lugar do quadro "Orixás", da pintora Djanira (1914-1979), uma das principais artistas brasileiras no maior espaço do prédio, o Salão Nobre. "Orixás", um óleo sobre tela dos anos 60 que retrata três divindades de religiões de matriz africana, foi enviado para a "reserva técnica", ou seja, para o arquivo do Planalto e não há previsão de que volte a ser exibido ao público.

O original do mesmo quadro, chamado "Praia do Nordeste", também está no Planalto, mas na Sala de Audiências do terceiro andar. Ou seja, agora o Planalto expõe o original e uma cópia ao mesmo tempo, em dois lugares diferentes e separados por poucos metros um do outro.

Segundo a plaqueta de identificação da peça que substituiu "Orixás", o quadro se chamaria "Pescadores" (1958) e seria uma réplica. Procurada pela coluna, a Secretaria Geral da Presidência confirmou nesta sexta-feira (28) que se trata de uma cópia, uma "impressão plotada sobre canvas", ou seja, uma peça de decoração sem valor artístico, que emula um óleo sobre tela, como as que podem ser adquiridas em lojas de museus para turistas.

Sobre o nome do quadro, a SG reconheceu que há um erro na placa de identificação e prometeu colocar o correto, "Praia do Nordeste".

A retirada de "Orixás", revelada em reportagem de "piauí" do último dia 21, ocorreu em dezembro de 2019, segundo o governo. A SG negou que o motivo da retirada tenha sido religioso. Logo após a eleição de Jair Bolsonaro, no final de 2018, uma reportagem da "Folha de S. Paulo" informou que a primeira-dama, que é evangélica, Michelle Bolsonaro, estava contrariada com imagens de santos católicos no Palácio da Alvorada e que o quadro "Orixás" também estava sob a mira das mudanças. Na época Bolsonaro negou que mexeria as obras do Alvorada, mas nada falou sobre "Orixás".

A SG argumentou à "piauí", porém, que a retirada do quadro do Salão Nobre é "procedimento usual que visa o descanso e o rodízio das peças de arte como medida de conservação preventiva, conforme as boas práticas da museologia".

'Representação da cultura'

O arquiteto Rogério Carvalho, curador da Comissão de Curadoria para as obras de arte, a arte decorativa e o mobiliário do Palácio da Alvorada e do Palácio do Planalto em 2009, durante o segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, servidor por 13 anos no Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) no Distrito Federal, disse que a explicação sobre o rodízio é "absurda".

"Primeiro que um palácio de governo não é um museu. Depois, não faz sentido tirar uma obra da importância de 'Orixás' e no lugar colocar uma réplica. Por que uma réplica? O quadro original está com algum problema? Não faz sentido um Palácio do Planalto ter uma cópia. As únicas razões para você apresentar uma réplica no lugar de um original são as seguintes: ou a segurança e a gestão do prédio não dão conta de garantir a integridade da obra ou o quadro saiu para restauração. Fora isso, não existe razão para não colocar o original."

Em nenhum momento a SG argumentou que "Orixás" apresenta problema de conservação. Carvalho disse que a condição do quadro, assim como as demais telas que estavam em exposição do Planalto, é "excelente".

De 2009 a 2010, durante o segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, o Palácio do Planalto passou por uma ampla reforma, a mais completa desde a inauguração, em 1960. Ao mesmo tempo, Carvalho e sua equipe trabalharam no levantamento do patrimônio e no reordenamento das peças, além da recuperação de móveis e de obras de arte que estavam espalhadas pelos palácios ou colocadas em locais inadequados. Ele cita, entre outros casos, dois quadros do pintor espanhol Joan Miró (1893-1983) que estavam "num depósito de suprimentos", um quadro de Alfredo Volpi (1896-1988) avaliado em R$ 6 milhões que foi encontrado na sala de um anexo e um relógio fabricado na França no século XVIII pelo mesmo relojoeiro do rei Luis XIV que estava no final de um corredor. Uma estátua de bronze que integrava o relógio foi achada numa caixa de parafusos utilizada pelo setor de manutenção da Presidência.

Segundo Carvalho, foi por decisão dele e de sua equipe que "Orixás" passou, a partir de 2010, a ocupar o espaço especial no Salão Nobre, sendo a única tela em exposição no recinto. Antes, o quadro já estava estava em exposição no palácio, mas no terceiro andar.

"O quadro 'Orixás' foi para o Salão Nobre justamente por ser um local de maior acesso dos visitantes e das pessoas que frequentam o lugar. Ele se liga à cultura africana, tem um sinal de inclusão, de aceitação de todos os tipos de religião. Afinal de contas, o Estado é laico. Se tem uma santa, um crucifixo, na sala do presidente, que tenha os 'Orixás' no Salão Nobre. É uma forma de representação da nossa cultura de uma maneira bem ampla. A parede onde estava o quadro era o espaço mais nobre do salão mais nobre", disse o arquiteto.

'Arte não é decorativa'

Carvalho estimou que "Orixás", um óleo sobre tela que mede 3,61 metros de largura por 1,12 metro de altura, valha hoje de R$ 3 milhões a R$ 4 milhões. Um amigo de Djanira e ex-leiloeiro de obras de arte, o escultor Evandro Carneiro, estimou de R$ 1 milhão a R$ 1,5 milhão.

Carvalho disse que o quadro "Orixás" deveria voltar imediatamente à exposição pública no Planalto e que a escolha de uma impressão para o lugar de "Orixás" é "totalmente inadequada". "A arte não pode ser vista como decorativa, não é, ela tem a sua função. Os visitantes precisam entrar em contato com tudo aquilo que a arte representa para o país, da cultura, da representatividade. Essas pessoas que vêm de fora precisam entrar em contato com o nosso melhor. Era isso que nós buscávamos."

O ex-curador apontou que não apenas "Orixás" foi retirado do Salão Nobre, mas diversas outras mudanças atingiram as propostas do reordenamento executado de 2009 a 2010. As alterações começaram, segundo ele, a partir do início do governo de Michel Temer, em 2016.

"Estudamos cada lugar de cada peça, a disposição dos móveis, a história de cada obra de arte, criamos uma galeria no terceiro andar. Quando comecei a curadoria, 95% dos móveis eram norte-americanos. Mas aqui no Brasil temos mobiliário, arte, às vezes muito superiores ao que as pessoas encontram lá fora. Fomos resgatar esse mobiliário, recuperamos mais de 900 peças brasileiras. Era esse o sentido da curadoria, mostrar a brasilidade, mostrar o que a gente tem de melhor."

À revista "piauí", o professor de artes visuais da UnB (Universidade de Brasília), doutor em artes e membro do núcleo de estudos afro-brasileiros da universidade, Nelson Fernando Inocencio da Silva, considerou a remessa do quadro "Orixás" para o arquivo um exemplo de "intolerância e abuso de poder". Ele mencionou que o Planalto não é a moradia do presidente, e sim o seu local de trabalho. "O espaço é público, não é privado. O Planalto tem um acervo que representa a sociedade brasileira. Você tirar uma obra daquela por não estar em conformidade com sua crença é violento, violento. Se a cultura é diversificada, o quadro está ali representando um pouco dessa diversidade."

A retirada do quadro gerou objeções. O advogado e ex-presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) disse à coluna do jornalista Ancelmo Gois no jornal "O Globo" que Bolsonaro "não pode atentar contra a cultura nacional nem ignorar que o Brasil tem sua alma étnica na África".

'Veículo de difusão'

Em nota à coluna, a Secretaria Geral da Presidência afirmou, sobre o uso da réplica de "Cena do Nordeste", que "a exibição de réplica do acervo histórico e artístico da Presidência da República é considerada um veículo adicional de difusão desses bens. Ademais, foi definida a exposição da obra original na Sala de Audiências, por ser uma instalação destinada a eventos importantes, com circulação restrita de pessoas".

Segundo a SG, as outras obras de Djanira que integram o patrimônio do Planalto, "Praia do Nordeste" e "Colheitas das Bananas", encontram-se atualmente "na Sala de Audiências do Palácio do Planalto, local destinado a eventos relevantes e com circulação restrita de pessoas".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.