Corrente tira frase da OMS de contexto para defender reabertura econômica
Em meio ao debate global sobre reabertura econômica durante a pandemia de covid-19, correntes divulgadas nas redes sociais têm deturpado falas da OMS (Organização Mundial da Saúde) para questionar o isolamento social. Nesta semana, uma nova, compartilhada também por parlamentares, usa a manchete de uma revista brasileira para afirmar que a organização está defendendo a retomada ampla do comércio.
"OMS defende retomada: 'As pessoas precisam trabalhar'", diz a manchete. Junto a ela, uma foto do diretor-geral da organização, Tedros Adhanom, mensagens de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e críticas ao isolamento social.
Corrente tira frase de diretor da OMS de contexto
A OMS não deu uma declaração defendendo amplamente a retomada da economia. A corrente tira de contexto o trecho de uma resposta de Michael Ryan, diretor-executivo do Programa de Emergências em Saúde da organização, sobre abertura de fronteiras e viagens internacionais em uma entrevista coletiva na última segunda-feira (27).
Ryan diz a frase destacada em meio a uma constatação de que as reaberturas devem ser feitas com planejamento e cuidado e em países com taxa de disseminação controlada. Ele ressaltou ainda que "não há solução única" para todos.
"Se nós trabalharmos muito em um determinado país, conseguirmos suprimir a infecção a um nível muito baixo e conseguirmos isso por três ou quatro meses de trabalho duro, qual é o risco, agora, de abrir as fronteiras e aumentar a mobilidade e como gerenciamos esse risco?", perguntou o diretor.
"Isso volta à ideia de que vai ser praticamente impossível para países manterem, sozinhos, suas fronteiras fechadas por um futuro determinado. As economias têm de reabrir, as pessoas têm de trabalhar, o comércio tem de retomar", respondeu.
Procurada pelo UOL, a OMS reafirmou que não há defesa da ampla reabertura econômica, mas de planejamentos específicos para cada país ou região, e reforçou as falas de Ryan na entrevista. Segundo ele, a solução para o dilema da reabertura é "o que os governos estão buscando agora" e que as decisões devem envolver o baixo risco da população.
"Como você faz progresso para abrir as economias nacional e internacional? Como você faz isso de uma maneira que tenha menos risco? Como você faz isso de uma forma que se possa voltar atrás se você precisar desacelerar ou reverter?", refletiu o diretor sobre o que deve ser levado em consideração em uma possível abertura.
Ryan tampouco desprezou as questões econômicas. "Continuar a ter as fronteiras internacionais fechadas não é necessariamente uma estratégia sustentável para a economia global, para os mais pobres ou para qualquer um, então nós realmente temos de ter um progresso ao fazer isso de uma maneira que haja menos risco", avaliou o diretor da OMS.
Como e quando isso deve ser feito, repetiu ele, cabe a cada país. O Brasil, por exemplo, está há três meses com a taxa de transmissão acelerada, de acordo com o centro de controle Imperial College, de Londres. Na última semana, o índice brasileiro subiu de 1,01 para 1,08, o que aponta descontrole quanto à disseminação do vírus.
"É muito difícil ter uma política global, que sirva para todos, porque a natureza do risco e a natureza do impacto são determinadas pelo contexto local e pelas situações nacionais ou subnacionais", concluiu.
A matéria usada pela corrente, por sua vez, é da revista Oeste, que destaca a frase de Ryan na manchete e em seu conteúdo, mas ressalta que, "para a entidade, a melhor forma de controlar a doença é a obediência de medidas como o uso de máscara e distanciamento social".
OMS trabalha junto a estados brasileiros
A organização também não defendeu a reabertura econômica no Brasil. Por aqui, a Opas (Organização Panamericana de Saúde), braço da OMS no continente, tem trabalhado junto aos estados para ajudar no enfrentamento à doença e buscar solução possíveis.
No Rio Grande do Norte e no Mato Grosso do Sul, a entidade auxiliou o no desenvolvimento de planos e ferramentas de auxílio às autoridades locais na tomada de decisões sobre ajustes de medidas não farmacológicas, como o distanciamento social.
No Pará, a organização contribuiu com a criação de uma Sala de Inteligência da Gestão, incluindo um painel de monitoramento da covid-19.
Bolsonaro também já distorceu falas da OMS
Esta não é a primeira vez que declarações da OMS são tiradas de contexto para questionar medidas de isolamento. O próprio presidente Jair Bolsonaro já distorceu declarações da organização em prol da reabertura econômica.
Em junho, em meio a escalada de casos, Bolsonaro disse já esperar uma "reabertura mais rápida" das atividades econômicas e que o "pânico pregado por parte da grande mídia" ia "acabar depois de a OMS ter divulgado ontem que a disseminação do coronavírus por pessoas assintomáticas é "muito rara.
A OMS, na verdade, informou que "parecia haver" baixa transmissibilidade de assintomáticos, sem dar garantias, e citou só um estudo de pequeno porte feito pela China.
O mesmo caso foi compartilhado por uma corrente à época, desmentida pelo Projeto Comprova, do qual o UOL faz parte.
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